terça-feira, 29 de novembro de 2011

Estrada...

Estrada

Agora deve ser a hora de chorar,
há uma imensidão de mim que já se foi,
na estrada com poeira baixa em que desdemos as mãos,
nem havia um pingo de chuva para amainar o sol que tornava o horizonte cego.

Soslaios de olhar,
restos de pegadas,
sussurros de vozes,
o som era o vento.

Quanto tempo coube dentro daquele caminho,
há um nascimento a cada desencontro,
os olhares se tocam como o pincel na tela que cria,
as cores são tintas a esculpir o entardecer, daqui a pouco já é noite.

Folhas amassadas,
frio e madrugada,
abraço forte,
almas irmãs.

Todo aquele distanciar agora possuía uma direção.
O deserto que tinha minha casa foi devastado,
recebi aquele infinito como a visita de um anjo.
Mas fui de leve, passos se tornaram asas.

Voei como uma boca que nunca foi beijada,
tanto amor que nem poderia escrever,
desejo de encontro e medo da chegada,
chorar com o coração é sempre prova de amor.

Bernardo G.B. Nogueira
Conselheiro Lafaiete

domingo, 27 de novembro de 2011

Nada é simples

Nada é simples

Por entre chuvas e miradas de sol,
passagens por mares e campos de flor,
solidão e amor silente por entre frestas de lábios,
tristezas constantes e admiração sob meus olhos em dor.

Cenas distantes de um balé etéreo.
Um vacilo de pernas e um novo céu se abre,
desatam-se os nós e a calmaria se deixa ver através da pele inerte,
nenhum suspiro mais se ouve e todo o sentimento resplandece cálido.

Desenganos que nascem com o diálogo,
feitos memoráveis e desditas que se desenrolam.
Acenares de mãos em silêncio às vidas que se recompõem,
momentos vãos e uma alegria juvenil.

Depois da morte consumada.
Sons novos, ações belas e uma toada.
Depois da morte e não mais resta nada,
esculpir a vida, chuva leve e alma lavada.

Nada é simples, nem o balé,
nem a morte, nem a vida, o amor...

Bernardo G.B. Nogueira
Conselheiro Lafaiete

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Ora...

Ora..

ora melodia, ora entonação,
ora milagre, ora perdão,
ora carícia, ora desvio,
ora caminho, ora bravio,

ora poema, ora o chão,
ora sublime, ora canção,
ora outono, ora secura,
ora primavera, ora brandura,

ora agressão, ora perdido,
ora um grito, ora ouvido,
ora paisagem, ora desilusão,
ora gozo, ora prostração,

ora luar, ora escuridão,
ora cantiga, ora turbilhão,
ora beijo, ora adeus,
ora olhar, ora os seus,

ora aqui, ora conformação,
ora de longe, ora negação,
ora desejo, ora sensação,
ora latitude, ora regressão,

ora palavras, ora silêncio,
ora terra, ora mar imenso,
ora calmaria, ora pensamento,
ora fantasia, ora acalento,

ora lembrança, ora esquecimento,
ora o ar, ora o mar,
ora saudade, ora saudade,
ora amar, ora amar...

Bernardo G.B. Nogueira
Itabirito - sol, chuva e arco-íris no céu.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Uma vida, entonação

Uma vida, entonação!
(a Dali e García Lorca)

Sob aquelas plantas de algodão adormeci,
meu espírito, de tanto lutar, arrefeceu de ódio e amor,
deitado com olhos abertos e riso sem cor,
um suspiro afogado em mares de inspiração.

A morte do poeta é sua própria criação,
depois, são alguns versos entoados por uma boca sem feição,
dores imensas entretidas em braços soltos,
balé em águas e cheiros um do outro.

Revoluções, partidas, esconderijos e entornos,
encontros sorrateiros e peitos alucinados,
um sol de primavera, um vinho demorado,
sentinelas de estrelas, uma vigília eterna.

Naquela pintura, uma mistura, seu gosto.
Silêncio, lágrimas, desespero sem retorno.
Uma porta se fecha e uma visada sem amor,
despedida, paz do poeta. Amor, desdita e solidão.

Vida!

Bernardo G.B. Nogueira
Conselheiro Lafaiete – boa madrugada.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Quando saí pela cidade de mim...

Quando saí pela cidade de mim...

Precisei ir um pouco ali fora,
ali adiante, decerto trocar apenas alguns passos não distantes,
ouvir um marulho de pingos, e vozes, e risos,
colher alguns olhares por detrás de silhuetas malvestidas, invertidas.

Tem um sentido todo diferente por ali afora,
ali aonde colho algumas rosas, duas ou três, mais não.
As mãos não sustentam muito tempo mais do que podem,
fingir não dá mais, ali fora as cores das rosas não são frígidas, nítidas.

Os passos são jogados contra o vento que diz coisas estranhas,
um passo mais e outro, e tantos outros, diferentes e imprecisos,
cambaleantes, sucedem uma digestão de pensamentos,
trocadilhos mal feitos de uma avenida sem limite, ouvinte.

Afora minha pretensiosa distinção das noites,
há um desenho complexo por entre estas vidas entrelaçadas e embaçadas.
Sentimentos, luzes, fumaças, uivos de ventos e algumas vozes, até placas.
Formas distintas, variações de uma mesma percepção, emoção.

Truques desvairados ostentam essa visão,
dão-se ao corpo, e sem direção, se entregam,
as flores que tiveram um cheiro agora são tapetes,
almas de poetas, embriaguez pela cidade, amores, vida e sensação, desrazão.

Bernardo G.B. Nogueira
Conselheiro Lafaiete – chuva.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

É melhor ficar aqui...

É melhor ficar aqui...

Durante um dia inteiro eu fiquei por aqui mesmo,
me deixei a escutar uma canção e colher um raio ou outro de sol,
sentado à beira de mim mesmo sem companhia,
recostado na pedra do tempo que não é imóvel.

Cheiros insistentes e palavras de pessoas, ruídos.
Como tem barulhos durante os dias!
Senti inveja da noite silenciosa, por que não passei uma noite aqui?
Era dia e não poderia evitar os esguios olhares das pessoas sem sinceridade.

Como são bonitas as folhas quando caem da árvore,
se vão despedindo dos galhos enquanto rolam sob o sopro do vento sul.
As folhas deixam nus os galhos parados das árvores que nos contam o tempo,
delas queremos os frutos e as flores, não as marcas da história.

Quando os sentidos se deixam tocar pelo espírito é assim mesmo que acontece,
o diálogo fica amainado e as coisas ditas grandes ficam chatas.
Importa ver o passarinho a cantar para sua pretendida,
o melhor acorde é aquele tocado pela brisa, a melhor pedida, a rosa que desabrocha.

Não tem um jeito e também não tem uma medida,
a cor não é dita e tampouco a temperatura revelada,
pode até ser uma cabana solitária em meio da mata,
mas pode ser só uma pele, um beijo, um amor ou uma serenata.

Bernardo G.B. Nogueira
Itabirito – de tarde.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

O Palhaço...




Palhaço


Nossa! Isso aqui a esta hora sempre está vazio!

A exclamação daquela mulher, em uma manhã acinzentada que contrastava com o espírito de Gaia, a trouxera de volta para sentidos reais envoltos a um cheiro de fumaça de carro misturada com um ar parado da mesma manhã que não tinha cara de primavera - Gaia foi um apelido dado por um tio que sabia-se metido a filósofo e que gostava de alcunhar as pessoas com os elementos do globo.

Essa mesma exclamação criaria espaço para que um sem fim de lugares se apresentassem aos olhos dessa mulher que tinha pela frente apenas uma manhã, as próximas horas não estavam sob as suas previsões. O clima e os cheiros da manhã seriam os únicos guias para Gaia.

Seguiu um caminho não traçado. Seus passos foram se desenhando e a ela caberia apenas ir, não havia como alterar a rota de uma traçado desconhecido. A manhã ainda permitia os óculos escuros. Quase um escudo. Antes de sair do carro, ainda havia olhado pelo vidro a tentar desafortunadamente alcançar o tom da mulher dona da exclamação avivadora. No entanto, a moça nem sequer titubeou, altiva, entrou no carro e se perdeu por entre os vidros negros. Restou a Gaia, apenas o timbre dos olhos cor de amêndoa e vivos como os de um recém-nascido.

Mais um passo, e agora já estava dentro do shopping. O cenário deste local é menos aterrorizante nos dias "de semana" pela manhã.

Lembrou-se de tirar os óculos alguns minutos depois das indagações que recebia entre os olhares dos demais transeuntes. Riu de si mesma. Lembrou do tio que sabia-se filósofo e riu das pessoas ao seu redor.

Como não havia programado sua ida, fez coisas que habitualmente faria. Comeu um sanduíche que nas propagandas se apresentava um tanto mais apetitoso. Tomou também um copo inteiro de Coca-Cola. Levantou-se da sempre tumultuada praça de alimentação e lançou-se ao encontro das pessoas. Tinha lá uma tese de que dentro dos shoppings e dentro da alienação capitalista as pessoas viviam como sonâmbulos, não sabiam que estavam ali, e entorpecidas precisavam de um espetáculo qualquer para retomarem a "consciência". Precisavam comprar.

Percebeu que ainda estava absorta pela exclamação da enigmática mulher de olhos amendoados que encontrou na entrada do shopping. Não era o sanduíche que estava sem gosto. A realidade em que se havia dado é que não permitia sentir seu gosto. Talvez um filme soubesse bem àquele momento. Sim, seria.

Caminhou lentamente até a bilheteria, sacou o cartão, pagou e se entregou. O momento em que a atendente falava sobre as opções de filmes foi saltado por Gaia, apenas disse que seria o filme da próxima sessão. Só depois percebeu qual seria o filme a ser exibido: "Palhaço". O nome com toda carga mágica que carrega consigo trouxe em Gaia uma explosão de sentimentos nostálgicos de sua infância. A canção que apresentava o filme fez com que seus olhos fechassem e sua alma levitasse até uma infância que não viveu. De soslaio conseguiu perceber que o diretor já era conhecido por ela, daí, inocente se deu ao filme.

De dentro da sala de cinema não havia tanto o que dizer, uma arte sendo encenada dentro de outra arte foi uma sensação que Gaia apenas havia experimentado enquanto ouvia as teorias de seu tio metido a filósofo e artista. Sensações daquelas em que o espírito parece querer pular para fora do corpo em pura magia. Palavras não seriam o bastante para essa expressão.

Assim, como acontecera num romance de Garcia Marquéz, em que, o local, de tão inóspito, não trazia ainda conceitos para explicar as coisas, carecia, portanto, que as pessoas apontassem o dedo para indicar as coisas - ações típicas de criança. Foram assim os momentos dentro da sala de cinema que há muito já se havia transformado em uma imensa lona de circo.

A criança que saltitava dentro do coração de Gaia tinha sonhos tão distantes que por vezes seus olhos marejavam - ora de cansaço pela viagem que nunca chegava, ora de saudade de uma infância distante que ela não havia presenciado, pura emoção. Mais uma vez uma sensação infantil. Toda esta sentimentalidade foi para Gaia também uma surpresa, como aquelas que temos quando ganhamos uma bicicleta no Natal.

Resolveu, lá pelas tantas, também "ser de circo". Mas não foi um gesto de escolha tão somente. Havia um amor e uma incerteza a flamejar em seus olhos de mulher que agora era criança. Essa incerteza tinha o gosto salgado das lágrimas que tomavam seu rosto diante do circo.

Quando foi "de circo", riu do palhaço e sonhou ao ver o malabarista. Amou o poeta e se entristeceu a cada baixar de lonas. Cerrou os olhos e depois já era outra paragem, outra cidade, risos outros, olhares e lágrimas também. Viu o palhaço triste a se perguntar quem o faria sorrir. Viu amores nascendo sob a lona criadora de sonhos. O circo era pura magia.

Ao sair da sala de circo, resolveu perguntar à mulher de olhos de amêndoa qual o sentido e o problema de estar ali sempre vazio em manhãs escuras de um dia de semana. Gaia, por certo, não iria encontrar mais essa moça. Ela já estaria entretida no espetáculo do mundo.

Da porta do shopping, agora via pingos de chuva, não poderia mais colocar os óculos escuros. Mas, não havia mais essa preocupação, nem com os óculos e nem com a mulher do carro com vidros negros. O circo tinha que continuar. Agora, Gaia tinha uma amiga, Aurora. Tinha esse nome, pois foi ela quem trouxe o novo, a que foi criança todos os dias, a que permitiu Gaia preencher a manhã, vazia. Aquela que iniciou seu dia. Aquela inocente que acredita em palhaço!

Bernardo G.B. Nogueira
Itabirito - de manhã.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

A escrita e o limite

A escrita e o limite

Não escrevo para aqueles sem voz,
para os que se dispuseram de todo grito.
Não escrevo para os que silenciam,
não escrevo para os que temem seu algoz.

Não escrevo para quem se distrai,
para os que se esquivam da onda.
Não escrevo para os que baixam os olhos,
não escrevo para aquele que não vai.

Não escrevo para os que vão só ao meio,
para os que não se perdem noutro enleio.
Não escrevo para os que não se afogam,
não escrevo para a superfície que não é inteiro.

Não escrevo para os que creem,
para os que insistem na verdade.
Não escrevo para os que não se embriagam,
não escrevo para o alcance e a vaidade.

Não escrevo para quem promete, se compromete,
para os que vivem e não esquecem.
Não escrevo para os que se eximem,
não escrevo para os que reprimem.

Não escrevo para aqueles que não têm sangue,
para os que não miram o horizonte.
Não escrevo para o que é constante,
não escrevo para quem diz ser distante.

Não escrevo apenas para dizer palavras,
para contar e maldizer vontades.
Não escrevo para frear sentidos,
não escrevo para criar desígnios.

Não escrevo, porque não tem princípios,
para contar estórias, que têm meio e início.
Não escrevo com domínio,
não escrevo, ao invés das palavras, o acaso, amor e destino.

Conselheiro Lafaiete – frio e noite
Bernardo G.B. Nogueira

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Um diálogo em que tudo pode dar certo

Um diálogo em que tudo pode dar certo

Há apenas uma necessidade, meu amor,
não posso dar-te nada além,
por mais que minha ciência procure,
tenho só um barco desprendido do cais.

Existem até algumas teorias em nosso entorno,
mas a nota é uma só.
Outras tantas diferenças e vontades, manias e olhares,
mas as ruas não estão mais como antes, há um perfume.

Precisamos de um algo, de um afago.
Foi um sonho e dias a mais,
um meio trocado, e um fim inacabado.
Foi daí que brotou esse novo incerto.

Quanta previsão, quanta precisão.
Ah, foi por isso que nos mudamos...
Era essa verdade que nos aproximava,
mas foi ela mesma que nos desprendeu.

Primeiro um corte, intensamente forte,
depois, suave e como que natural.
É, há apenas uma necessidade.
Não percebê-la antes que ela apareça,

mesmo que ela apareça de barco,
em forma e moldes de fotografia,
ou então em um gole ao avesso,
e mesmo que caia sobre nossa cabeça.

Não pude explicá-la, meu amor,
Apenas me sentei e deixei-a entrar.
Adeus, agora se vá,
eu não conseguirei explicar mesmo.

Vamos nos abraçar na próxima data,
não precisamos pensar que existe alguém a nos observar.
É o fim, sabido ou não,
Sorte, amor e vida, palavras sem necessidade alguma.

Bernardo G.B. Nogueira Primavera,
chuva e sorte. Conselheiro Lafaiete

sábado, 22 de outubro de 2011

A propósito do sentimento em dias de chuva...

Chuvas...chuvas

Para os dias de chuva, uma reflexão,
para as noites de chuva, vinho.
Por entre suas horas, solidão,
por entre seu frio, um carinho.

Em um minuto, seria só,
noutro segundo, intenção.
Um tempo era meu, o outro, divisão,
naquelas gotas: sonhos, uma canção.

Depois da noite, nascimento,
flores, cheiros e invenção.
Do amor de noite, desespero,
manhã que nasce, oração.

Chuva no dia, visão, de noite, inspiração,
marulho bendito, ouvidos e paixão.
Entrou por ali, por longe de mim,
em meu peito um arroubo, chuvas, sonhos e o coração...

Bernardo G.B. Nogueira - dia e noite de pingos.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Aniversário de Vinícius de Moraes - 98 anos

A Vinícius que não é "de tempo"

Me parece normal que Vinícius não complete 98 anos de idade. Estas datas longevas estão muito mais ligadas a existências que se preocupam com aquilo que as horas transformadas em dias trazem. O existir poético de Vinícius não poderia ser marcado com essa violência que é o calendário. Dentre os ponteiros do segundo, esbarram os versos que captam com amor e suavidade cada vão momento. Captam o momento, não o tempo que ele gastou.

Poder-se-ia dizer que é uma pena, poder-se-ia lamentar que um poeta como Vinícius não tenha brindado o mundo com mais tempo. Mas, o tempo, este é que não podia com o poetinha. Pois a cada curva em que aquele o seguia, este o rebatia com um soneto novo, e um samba de benção para a eternidade. A prova de que um e outro não se davam era o deboche com que Vinícius se relacionava com o tempo. Debochava dele sim, e passava horas a fio a "gastar" o tempo com encontros infinitos regados a uísque, música e poesia. Uniu poesia e música e mostrou que o popular pode conviver com o erudito, mas só fora dos padrões do tal tempo.

Porque é até engraçado pensar o tempo a partir de Vinícius. Enquanto nos dias que correm estabelecemos como que uma disputa com o tempo a tentar pará-lo; Vinícius estabelecia relações amorosas com sua vida, e o amor, ah!, o amor! Este resta lançado de uma vez por todas para fora do tempo, para fora dos calendários e convenções. Aliás, é digno que se diga, este poeta cantou o amor das maneiras mais sinceras, e se um dia foi correto e fiel, foi apenas com quem de fato merece, o amor.

Na verdade, quando olhamos para as fotos e ouvimos as palavras de Vinícius, sentimos um recorte na realidade de dias e horas que nosso cotidiano nos obriga, e a partir daí, somos desde "uma menina com uma flor" até a máxima ode ao amor, fidelidade ao amor. Vinícius nos ensinou a viver de maneira a saber "ganhar dinheiro com poesia". Disse que é "melhor ser alegre que ser triste" e ainda nos ensinou a fazer a samba, com amor, cadência e tristeza.

Queria apenas uns dizeres sinceros e de muito agradecimento a Vinícius. Depois que conheci sua poesia, decidi que não haveria tempo melhor do que a atemporalidade de uma vida na poesia. Se, como nos fala Drummond "Vinícius foi o único poeta que viveu como poeta". O mínimo que devemos reconhecer é que não dá para contar os anos de Vinícius com a mortalidade que o tempo nos impõe. Que saibamos esquecer o calendário e deixar-nos entorpecer com um verso ao invés de nos prendermos ao minuto.

A propósito de formalidades, é bom saber que Vinícius se deixava chamar poetinha, chamava aos outros pelo diminutivo. É assim mesmo quando as coisas vêm de pessoas com essa vida fora do tempo. Não haveria, realmente, tempo melhor do que aquele que é criado pela poesia, a poesia que é só amor, a poesia que não quer honrarias, a poesia que se deixa ser versinho e que se escreve em "guardanapozinhos". Mas isso só sabemos depois do poetinha, "vagabundo...

que a vida não gosta de esperar..."

E me parece que já é hora de partir, este texto já gasta tempo demais, e "a vida é p'ra valer"!!!
Precisamos viver, pois como diria Pessoa, "navegar é preciso, viver não...", daí que agora entendemos que Vinícius não poderia mesmo estar preso a esse tempo, tempo tão preciso. Sua vida, verdadeira vida de poesia, não trazia a certeza necessária à navegação, rumava para mares desconhecidos que só o coração pode entender..."de repente, não mais que de repente..."

Bernardo G.B. Nogueira
19/10/2011 - 2011.

Soneto da rosa

Mais um ano na estrada percorrida
Vem, como o astro matinal, que a adora
Molhar de puras lágrimas de aurora
A morna rosa escura e apetecida.

E da fragrante tepidez sonora
No recesso, como ávida ferida
Guardar o plasma múltiplo da vida
Que a faz materna e plácida, e agora

Rosa geral de sonho e plenitude
Transforma em novas rosas de beleza
Em novas rosas de carnal virtude

Para que o sonho viva da certeza
Para que o tempo da paixão não mude
Para que se una o verbo à natureza.

Vinícius de Moraes

Café, pingos e amor...

Lá fora havia uns pingos e um tilintar,
aqui de dentro, eu observei, com olhar perdido,
um rio de amores,
cada mirada das pessoas me tomava.

Acho que era a chuva ou o cheiro do café.
Acho que era saudade saída daquela mistura.
Acho que eram pingos ou murmúrios de amor, olhares ou cheiros.
Acho que me apaixonei.

Bernardo G.B. Nogueira
(em homenagem e inspiração à uma vida em poesia)






terça-feira, 4 de outubro de 2011

Já que as estações mudam com o tempo...

estrofes de tempo...

Andei a estar acerca do tempo,
me prostrei ante suas letras,
e daí em diante, em perdimento nestas palavras,
construção de redondilhas, minutos de saudade.

Uma face alva sorria p’ra mim,
sorria, e ao se despedir, me tocava leve como um sopro,
dentro deste sonho, margens sem tempo,
leves arfar de bocas e sentimentos, nenhum momento.

Em paz, havia uma caminhada,
de mãos dadas, olhares, esquivos e uma estrada,
um encanto de flores, cheiros e uma namorada.

Os versos se criavam, letras, palavras,
cantigas doces, rimas enamoradas,
estrofes de tempo, tempo de amor, sem tempo, mais nada.

Bernardo G.B. Nogueira
Na primavera, sem sol...
Itabirito – 2011.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Sem dizeres, nem tempo, nem dias, poesia!

Atemporal

Ontem tu chegastes,
entrastes em mim,
incontrolável e profunda.

Beijo-te...hoje,
o quanto,
o tanto,
o mesmo dos sonhos.

E mesmo depois,
de já entregue o coração,
nada mais há que dispor,
amanhã também amarei você.

Bernardo G.B. Nogueira

Àqueles que pediram mais e aos que não pediram não...

Antídoto contra "tempos secos"

hoje, mas também, e assim como ontem,
sinto uma vontade grande de te amar,
mas nem posso dizer o que fazer,
o que quero fazer, o amar deve se explicar assim, por ele mesmo, aporia...

Fica difícil tentar explicar,
e apenas com frases e palavras encontrar.
Mas a realidade é plena,
sinto uma vontade grande de te amar...

e por amar assim sem saber o que fazer,
escrevo para dizer que continuarei, no futuro, mas também agora, a te amar,
mesmo sem saber o que fazer,
mesmo só sabendo te amar.

Bernardo G.B. Nogueira Itabirito – invernos secos de 2010/2011...

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

E se foi...em forma de poema, como uma dança...

pedaços, traços e desencanto

Mais um pedaço meu pelo ar,
as suas asas cresceram no pomar lá de casa.
Tinham um pólen risonho,
uma ciranda e um sonho.

Ele se foi de mim como vai a manhã,
com luz, cheiro e sol.
Não tinha nome e nem olhou para trás,
só um rasgo em meus olhos de criança.

De mãos dadas com um gosto, lembrança,
daquelas que aos olhos toma em andanças,
passos leves, passos de dança,
e as folhas então voaram, esperança.

E se foi aquele primeiro pedaço,
acompanhado, abraçado por outros tantos,
que com pés descalços, em meu regaço ia catando,
e já era só um sonhar, sonho de amar, pedaços, traços e desencanto.

Bernardo G.B. Nogueira
Pontes Novas de andanças...

...as coisas vão para o papel né, e depois eu fico aqui tentando catar os cacos de mim mesmo, sem conseguir, pois estão todos perdidos nas palavras...

Isso e mais um pouco...

Pois quando é mulher,
é igual falou o poetinha,
é necessário um choro,
e é preciso também um monte de decoro.

Ter no rosto, um mar que é triste e é revolto,
no corpo, o rabisco perdido de um porto,
um colo quente, que é repouso,
a pele alva d’um amor puro, puro e ditoso.

Olhos de uma vida que nem é dita,
pela boca, a escorrer uma suave nota que é de sonho,
em suas mãos, amor e poesia,
cabelos e olhinhos de princesa, candura e fantasia.

E nesse céu bonito e revoltoso,
me perco em sua lágrima infinta,
e a enxugar minha vida nessa escrita,
meu tremendo amor, amor pela sua vida, bendita!

Bernardo G.B. Nogueira
Ponte Nova – 23/09/2011

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Dizeres de solidariedade e reflexão aos professores em greve...

Teremos orgulho de dizer ao mundo que organizamos uma copa, mas teremos vergonha de dizer ao mundo que não organizamos nossa escola”

Cristovam Buarque

O descobrimento do Brasil

Não iria me pronunciar a respeito da greve de meus colegas professores. Por diversos motivos que vão desde o enfado que sinto das pessoas quando falamos algo diferente do que futebol, música rasteira, como diria Adorno, e/ou qualquer reclame de celebridades. Ou seja, parece que aquilo que retira as pessoas dessa massa amorfa, que retira as pessoas de seu conforto inerte, não interessa. Além disso, precisamos fazer uma mea culpa e dizer que existem profissionais que nem são dignos dessa greve, deveriam eles fazer greve eterna em relação à sua profissão, pois, não carregam em seu coração a chama que deve guiar quem se digna a chamar professor.

Contudo, e depois da fala de Cristovam Buarque, não poderia deixar de fazer coro a esse protesto. Realmente as pessoas parecem não perceber que o problema educacional é ele mesmo o início de muitos do males que nos assolam cotidianamente. Em uma entrevista deste personagem, a despeito de uma viagem sua à Irlanda, dizia que precisaria viajar, salvo melhor juízo, duzentos quilômetros de uma cidade a outra naquele país, bom, isso, no Brasil, poderia ser feito em duas ou três horas no máximo. Mas, no referido país, advertiram ao Senador que não seria interessante viajar, pois estavam já cansados de um dia de trabalho e que a viagem seria muito demorada. O Senador logo replicou: são apenas duzentos quilômetros, no entanto, as autoridades locais disseram que a estrada estava muito ruim e por isso deveriam ir apenas no outro dia. No mesmo instante o Senador então assevera: Com uma educação tão interessante como a de vocês, como têm estradas tão ruins? Daí o representante retrucou: “Exatamente por isso, precisamos investir em educação antes de investir nas estradas...”

Parece-me a mim que essa é uma clara mostra do momento em que vivemos em nosso país. A euforia com investimentos estrangeiros, a euforia com exportações exorbitantes do minério de ferro, a economia que chama os problemas mundiais de “marola” e por aí vai um sem fim de soluções imediatistas; bem à maneira massificada que não reflete sobre o existir. A sociedade de consumo agora quer a Copa do Mundo, e a questão educacional não é p’ra hoje, nem produz ibope na mídia. Mídia que para muitos se tornou o termômetro que aufere o grau de importância dos problemas. É interessante que quando viramos as costas para um problema desta monta, percebemos o quanto somos deseducados, ora, um país que não tem na ordem do dia o problema educacional, não pode ser chamado de outra coisa senão, mal educado, ou pior, por vezes nem mal nem bem educado, simplesmente, inconsciente disso, ignorante, portanto. É uma tautologia nossa existência: Somos deseducados pois não sabemos a importância da educação. Não sabemos a importância da educação por isso nos tornamos deseducados...

Poderia até fazer um discurso apologético, para satisfazer os marxistas mais revoltos, poderia dizer que o povo vai oprimido por isso, e que nesse desleixo com a educação pública, atua uma parafernália ideológica que quer manter o status quo. Assim, fazendo o povo negar a música dos Titãs, ou pior, nem entendê-la e cantar: “a gente quer só comida...”, o resto da canção não é acessível, mas não vou por esse lado, apesar de não desconhecê-lo. O problema é maior, e para que fique claro, inconstitucional. Esse descaso significa negar às pessoas aquilo que lhes é ínsito, sua possibilidade de ser projeto, uma rasa hermenêutica da tão proclamada dignidade da pessoa humana nos daria esse tom. Quando a educação não é o télos do Estado, ele está, em verdade, furtando ao ser humano aquilo que tem em seu gene, sua possibilidade, ademais, sem educação não percebemos que podemos ser mais do que aquilo que o programa do governo permite que sejamos, por isso não reivindicamos, por isso não nos preocupamos com a educação.

Meus colegas professores não estão a pedir nada demais. Em um refrão de outra banda brasileira, aliás, bem a propósito, nascida em Brasília, nos diz: “até quando esperar a plebe ajoelhar, esperando a ajuda de Deus...” Parece que devem mesmo levantar as mãos aos céus, mesmo àqueles que não têm fé, parece mais fácil um ateu rezar um pai-nosso que o Brasil perceber que os professores é que deveriam mover o país, que a partir deles deveriam vir as melhores ideias e ideais a serem defendidos pelas crianças e jovens, mas, com fome ninguém sequer raciocina, e é interessante perceber como nosso país se acostumou a pensar que o professor precisa apenas comer, pois o salário que chamam base, desculpem, não dá nem para sustentar a biblioteca do professor, quiçá, investir em seu aperfeiçoamento. Daí é a bola de neve que já é de sabedoria de todos. Aliás, todos não, pois se assim fosse revoltar-nos íamos contra isso e não deixaríamos aquele que nos ensinou os primeiros passos, cambiar ao ensinar as futuras gerações. Não esqueceríamos d"a professora Adélia, a tia Edilamar e a tia Esperança..."

Bom ,está dito, haveria muito mais por dizer, contudo, me solidarizo com meus colegas, legitimo as ações deles, mas convoco os pais dos alunos a também se unirem a isso. A educação não pode ser um meio para os pais se sentirem livres de seus filhos enquanto estão na escola, precisa ser o projeto de construção da criança e do jovem e assim, por consequência, dos pais. Portanto, pais, não entreguem seus filhos ao professor, ele ficará desamparado se isso ocorrer. Seja também um seu professor. O descaso com os professores é parecido com o descaso com uma plantação em seu início, os frutos e a vivacidade da árvore são consequência da forma como foi cultivada, nesse sentido, parece que nosso solo, tão fértil, caminha para a inanição.

Desde os gregos antigos sabemos que a educação é o que distingue uma polis que se queira digna. O esporte, também seria necessário para a formação do bom cidadão. O problema é inverter a questão. O problema é colocar isso tudo na frente da educação. Não precisamos formar 100% de intelectuais, mas precisamos ao menos garantir às pessoas a possibilidade de se entenderem no mundo e não apenas receberem o mundo. Isso é uma enorme diferença. Enquanto em países como a Colômbia os governantes saem à caça de Faculdades mercantilistas, no Brasil, percebemos cada vez mais um sucateamento do ensino, mas essa é outra história e não poderá ser explorada aqui. Com esse escrito quero apenas fazer como Boff e Buarque, que acreditam na educação e se colocam ao lado dos professores em greve. Coloco-me ao lado deles para que não precisemos pedir a Brasília que acorde do sono letárgico de sua caverna e ouça em bom volume aquilo que a Legião Urbana não cansa de sussurrar em nossos ouvidos e corações: “vamos comemorar como idiotas, a cada fevereiro e feriado (...) vamos celebrar a hipocrisia é a festa da torcida campeã!”

Bernardo G.B. Nogueira – Professor.

Conselheiro Lafaiete – na greve dos professores de 2011.

Perfeição - Legião Urbana:

http://www.youtube.com/watch?v=UueCjRrQLM4&ob=av2e

Fala do Senador BUARQUE:

http://www.youtube.com/watch?v=PaDoisjnZFA

sábado, 17 de setembro de 2011

À tardinha, como queria Florbela, ou mesmo..."de madrugada"


de madrugada...

precisei voltar e descansar,
deitei meus olhos em teu seio,
um colo eterno de mil faces,
com um arfar divino, quase um ultraje.

Esse regresso fora minha oração,
verso entoado como sopros de canção.
Amores ao vento, de mãos dadas, união.

Tinha uma lágrima que descia,
um suspiro contido em uma  falsa harmonia,
e os olhares, muito de perto, não se viam.

Regressar é mesmo assim,
o porto sempre ali, os amores não.
A alma, resta perdida,
e ao acaso, exausto, o coração.  

Bernardo G.B. Nogueira
Conselheiro Lafaiete – inverno – 2011.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Poeminha, em dias que se iniciam de tarde...

Hoje de tarde,

não queria o dia tão azul,
nem precisava de uma noite com tantas estrelas.
Os pardais poderiam se dispor de sua sinfonia,
e as nuvens no céu, disformes se dariam.

não queria um som tão afinado,
a mim bastava tocar o chão molhado,
no recanto de minh’alma,
eu, e minha mágoa, be e mol, e mais nada.

os olhares deveriam ser desviados,
o rosto inerte já seria meu resguardo.
O vento frio que chega daquela fresta entre os prédios, seria ele meu regato,
choro de criança, choro soluçado.

poderia ser menos que ontem,
um amanhã de silêncio por entre um presente tão animado,
de resto, poderíamos decidir pelo abraço,
escolher um silêncio e um sorriso não forçado.

poderia ser sempre,
sempre amor e sempre paz,
sempre sorriso e sempre abraço,
sem céus e sem sons, sempre um olhar leve e encantado.

Bernardo G.B. Nogueira 11/09/2011 – Conselheiro Lafaiete