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domingo, 31 de março de 2013

cuidado com a idade



cuidado com a idade

casa na árvore,
missão impossível,
beijo roubado,
frio na barriga,
chocolates e chocolates,
namoro pra sempre,
passar a noite acordado,
escrever no papel,
                            poesia,
mudar a estória,
inventar o heroi,
ser o heroi,
morrer pela moça,
caçar no escuro,
correr pela chuva,
chorar escondido,
fingir que é homem,
amar uma musa,
dormir de mãos dadas,
sonhar com gigantes,
matar os moinhos,
amar
e
sonhar...

B.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Criar e viver

Criar e viver

“Hoje você é quem manda, falou tá falado,
 não tem discussão...”
Chico Buarque


De novo a questão que enreda nossa mirada sobre uma produção cinematográfica é regida pela forma necessária e diríamos, inevitável, com que os argentinos tratam a fase negra do regime ditatorial em seu país. Dizer que é necessário é ao mesmo tempo dizer que é inevitável – e insistimos, pois são termos que ainda quedam longe em nossas terras quando tratamos deste assunto.
O filme é intitulado “Infância Clandestina”. O título por si só traz já interessantes discussões que povoam sempre nosso imaginário: a existência das crianças e a existência clandestina. Temas que nos nossos dias, tão racionais e tão públicos, soam ainda mais iminentes. O diretor Benjamin Ávila conduz o espectador a uma visita ao modus de realização do regime na Argentina, sob uma perspectiva que mistura desde a velha discussão ideológica e dos limites que ele coloca, e da libertação e da necessidade de sua existência, bem como, traz a tona um olhar sobre a afetação da atuação da ditadura no sentido de expor mesmo uma criança à sua mão de ferro. Outra chave do filme, e penso ser essa uma das mais interessantes, é a questão da identidade, vista pelo prisma colonialesco-impositório e castrador, e pela face interessante com que Juan ou Ernesto iriam vivenciá-la. O outro mote que gostaria de dizer é a relação criança e amor, temas que de alguma forma acabam sempre a andar juntos. Amor e poesia que o tio de Juan encarregou-se muito bem de manter acesos durante o tempo em que durou, pois fora morto também.
Quando os pais de Juan, envolvidos na guerrilha armada contra o regime resolvem voltar à Argentina, necessariamente valem-se dos disfarces já conhecidos com que as pessoas deveriam se armar para viver em seu país sem concordar com a imposição do regime. Desde casas clandestinas, passando por inúmeros disfarces, a reuniões sigilosas, até o que considero a parte mais sutil do filme – a identidade de seu filho, oficialmente registrado como Juan e existencialmente rebatizado Ernesto, bem a propósito diga-se.
Assim, a trama desenvolve-se com o cotidiano de uma família de esquerda que pretende não se entregar ao delírio ideológico imposto em momentos como esse. Ernesto tem, portanto, uma infância atípica em face dos modelos que se quer considerar “normal”. Inevitavelmente envolvido nas reuniões secretas realizadas por seus pais, a criança, a despeito das inúmeras regras criadas para uma “criação” correta, adquire noções interessantes que constroem seu imaginário de forma, diríamos, ao menos um tanto menos obtusa e alienada que a maioria dos pais impõe aos seus filhos – a imposição de uma família, um modelo, também é um claro “aparelho ideológico”. Nesse sentido, a clandestinidade da infância de Juan pode ser percebida como uma maneira interessante de revolução. Ora, ao chegar a uma escola que pregava coisas como: os espanhóis trouxeram a língua, a civilização sic, para os povos latinos, o jovem já sentia-se mal. E é evidente que isso não poderia ser considerado ruim. Clandestino então, aparece aqui como um algo que é necessário para que a visão seja realizada por um outro  viés, se da clandestinidade ou não, isso é o menos importante, necessário perceber que a visão de Juan o permitiria entender a metáfora utilizada por Slavoj Zizek para explicar a construção da dominação ideológica: estamos nós como espectadores em uma sala de cinema, enquanto por detrás dos panos não sabemos o que ocorre. Parecido com o que Chico Buarque canta: “o que será?” Isso, pois a própria informação etimológica da palavra nos ajuda nesta compreensão, origina-se da base do verbo cellare, que nos indica “esconder ou disfarçar”. Assim, no entendimento que temos deste ponto, Juan ou Ernesto, possuiu desde sempre uma infância clandestina e que por isso mesmo o torna apto a perceber aquilo que a ele é já próximo, o que é escondido, velado, aliás, desvelar seria um bom verbo para enxergarmos a existência de Juan. Desvelou sua infância enquanto clarividência de um horror que estava a vivenciar. E não digo isso ingenuamente como uma criança que é adestrada, não, ele desvela o horror com consciência dele. Essa é a tarefa que vemos na existência das crianças e dos poetas, que têm uma espécie de noção antecipada da existência. Noção antecipada é ao que chamamos toda forma de percepção que não aquela maculada por uma imposição conceitual. Assim, poetas e crianças fogem a essa amarra.
Em uma determinada cena, quando a turma de Juan, em um acampamento, está a ser submetida exatamente à função castrante da escola de que nos fala Althusser, o menino, em um gesto lindo que mistura, poesia, amor, afeto e revolução, convida sua “amada” para sair pela floresta. A lucidez, clandestina à maioria dos seus colegas, é absolutamente presente na infância de Juan. Portanto, quando o menino é obrigado a mudar de identidade para existir dentro do regime, em verdade, nasce ali sua maior autenticidade, pois, se a despeito da perseguição de seus pais, ele não poderia existir como Juan e apenas como Ernesto, de outro lado, exerceu uma característica ausente em tempos tristes de imposições conceituais. Ernesto foi compositor de sua obra, e à maneira nietzschiana, escreveu sua vida como a obra de arte que quis. Subverteu o sistema da escola quando se recusou a hastear a bandeira da Argentina, impôs-se à ordenação da escola, e enquanto os outros encenavam de maneira boçal a invasão das Américas, ele se enamorava no meio da floresta. Amor e revolução são realmente bons namorados.Para essa idéia um fragmento de um poema nosso:
Demais é rabiscar livros com heresias sentimentais,
derrubar estados e construir arco-íris,
transpor  imagens, só ver miragens,
carregar no peito nada além do que sentiu,
trazer uma mala cheia de estórias,
inventá-las sempre que puder,
deixar escorrer pela pele toda a efusão,
do encontro tornar vida e morte,
na estação mirar o próximo porto,
descansar com os ouvidos ao som inaudito,
ferver no gelo do corpo devastado,
inverter a direção do mapa, só pra ver onde não vai dar,
de mãos dadas seguir com o algoz,
zombar dos deuses, adorar o humano,
com flauta doce, receber o inimigo,
desconfiar da razão, entregar-se cândido ao abismo da emoção, 
que o que vem seja anunciação, e o que vai, saudade,
a ausência, criação,
olhares novos, perfeição,
ao invés do verbo, poesia e canção,
pois sentimento, se é sentimento mesmo, tem que ter heresia, senão é convenção...

De alguma forma a amarra criada pelo regime, ressoou em Ernesto de maneira inversa. Enquanto não possuía uma identidade oficial, ele inventava a sua própria. Assim como seu homônimo o fizera tantas vezes, com a mesma sanha libertária. Nesse sentido, a ausência de identidade talvez seja uma mostra da necessidade da ausência de uma aceitação impune das variegadas ideologias que nos são impostas diuturnamente.
O tio de Ernesto é outra figura interessantíssima da trama, pois figura como aquele que cria subversão dentro da subversão. Desobedece ao pai de Ernesto, seu líder, e realiza ações que evidenciam a necessária incompletude que é do humano caracter inalienável. Permite ao menino Ernesto ter a avó no dia do seu aniversário, a contragosto do líder. Ensina o menino a saborear um amor em forma de mulher. Desvairado abraça um soldado com uma granada na mão. Dose extrema de ideologia e amor à sua causa, ao sentido de sua existência. Aliás, essa idéia, de haver um sentido no existir é outra possibilidade que o filme nos enseja. Seu tio então é encarregado por evidenciar o amor em Ernesto ao encorajá-lo diante de sua inexperiência e timidez. A beleza dos encontros de Ernesto com sua amada, aliando sentimento puro em meio à guerra, e os diálogos afetuosos com seu tio, encarrega-se de tornar algo mais leve a questão. “Água nova brotando e gente se amando sem parar...”
Assim, apesar da carga forte, pois se trata de um filme baseado em fatos reais e no qual o diretor dedica à sua mãe desaparecida. Parece-nos que a visão infantil foi deveras acertada, pois ao invés de um filme em que a intenção resta clara, dada a racionalidade dos adultos, nesse caso, a infância do diretor, perdida em meio ao regime, revestiu-se de nitidez na existência que o permitiria compor essa obra de arte.  Nesse caso, é fácil perceber o sem fim de boas idéias que essa película nos encerra. A criança não é a criança que o adulto pensa que ela é. Sua beleza esta na capacidade inventiva, parecida com a que é narrada na música João e Maria de Chico Buarque. Não se pode impor à criança, ela inventa - se Ernesto ou Juan, não interessa. Isso, pois foi Ernesto que, mesmo com as possíveis mazelas que imaginamos existir em uma criança que é submetida a este histórico, quem percebeu sua infância clandestina e resolveu, quando adulto, denunciar tudo que havia ocorrido, mesmo que de maneira clandestina em uma sala escura de cinema.
Bernardo G.B. Nogueira
BH - verão

sábado, 31 de março de 2012

À espera do canto...


À espera do canto...

quase como uma gota de lágrima que ainda não choveu,
quase como um toque de lábios que se rompeu,
quase como um abrigo que o vento levou,
quase como um seu afago que não é meu,

qual a distância do rio que me torna mar,
qual a proximidade do rosto a se virar,
qual a faticidade do tempo a nos moldar,
qual a face da vida que a outra é morte.

a ti irei olhar,

como o filho que dá braços ao pai,
como a vela do barco que se dá ao vento,
como a palavra que se dá ao sentimento,
como a folha que se dá ao anseio do poeta.

feito um silvestre a caçar sua vida,
feito o artista a se perder no palco,
feito a criança que sente medo da noite,
feito o adulto que sente medo do amor.

estarei à espera de seu canto...

Bernardo G.B. Nogueira
Conselheiro Lafaiete

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Não estava ali


Não estava ali

Sempre eram tardes de luz povoadas de raios e sol. Um fel escorria do peito do homem que não queria morrer. Apenas uma vontade de estar ali e não perder nem um dos traços da mulher que acenava com a mão e que tinha sempre os cabelos presos em jeito de menina. O dom de olhar p’ra trás assolava seus olhares futuros. Tal qual som de harpas antigas, eram os flertes com que conseguia respirar, nem ousava falar alto. Isso para não acordar as ninfas que escreviam a história com acordes alucinantes.

Do outro lado da rua também havia uma outra espécie de vida. Até parecia que os raios daquele sol eram os mesmo para todos, assim como as gotas da chuva e o mato que esvoaça com o vento. Mas na outra margem, a mulher tinha os cabelos soltos e havia até um sorriso, sem nenhum vestígio de melancolia ou vontade de passado. Quanta vida há escondida por trás daqueles que não sorriem. O marido da mulher que tem os cabelos soltos sempre acaba de chegar. É prudente não observar seus cabelos quando ele chega. O homem sequer olha para os cabelos dela, tampouco meus olhos de cor desbotada.

As crianças que assoviam canções mentirosas eram a realidade mais bonita deste regaço. Seus pinotes em direção a qualquer coisa não podiam ser entendidos nem pelo homem que chega afoito do trabalho, nem pela mulher que só olha para o futuro e mantém sempre o cabelos soltos. Ficam sempre presos pelo sol que não chega a dormir. Enquanto ele está alto no céu a vida nem corre. O vizinho joga o lixo fora e com ele todas as coisas que não ousou criar. A vida dele devia ser bem organizada.

Há também um homem que tem sempre as janelas abertas e olha para o presente. Parece que suas mãos não se cansam de agradecer seu dom de trabalhar incessantemente - com ou sem sol. Parece que ele não vê nenhum estranhamento entre as mulheres da rua. Uma com os cabelos soltos, a outra com os cabelos sempre presos. Ele não as observa por detrás das máquinas com as quais dialoga todos os dias. Dia e noite. Desce as escadas olhando com um sorriso cor de certeza. Quase mentiroso. Ele não escuta os pinotes das crianças. Ele vive no presente.

Em um momento o casal de idosos parece entrever todos os acontecimentos da rua. Eles nunca se surpreendem e sempre têm frases do tipo – “A vida é assim mesmo. – Quando crescerem, em outro tempo, irão mudar de atitude.” E isso lhes confere um grande crédito em relação aos olhares – tanto da mulher sempre com os cabelos soltos, como daquela que tem os cabelos sempre presos. O marido da mulher com o cabelo solto não sabe da existência dos velhos. As crianças fazem troça da calmaria deles. Mas eles olham para um direção que ainda não consegui descobrir. Os olhos deles pareciam não ter fim.

Depois de sentir todos esses olhos, fiquei preso no muro que divisa minha casa e a rua. Meu olhar saia de dentro de minha imaginação. Olhar para trás era uma forma de buscar inspiração para a próxima paisagem que eu criaria dentro de minhas fantasias. Todas aquelas ações eu precisei inventar, pois nunca morei naquela rua e nunca conheci aquelas pessoas. Só precisava ver algo, do passado, do futuro e do presente, talvez. Mas minha casa nem sequer tem muro. 

Bernardo G.B. Nogueira
Itabirito – 18/02/2012

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Sei...

Sei

Sei que é distante demais o que me aproxima,
sei que é perto demais o que me apaixona,
sei que é poesia demais o que me encanta,
sei que é um mar demais o que me leva.

Sei que é perene demais o que me entristece,
sei que é infinito demais o que me apetece,
sei que é brilho demais o que me esquiva,
sei que é líquido demais o que me embriaga.

Sei que é canção demais o que me embala,
sei que é rima sem dor que me exala,
sei que é um sol demais que me trabalha.

Sei que é uma lua serena que me levanta,
sei que é uma arte demais que me suplanta,
sei que são seus olhos demais que me criam como criança.

Bernardo G.B. Nogueira
Buenos Aires

terça-feira, 8 de novembro de 2011

O Palhaço...




Palhaço


Nossa! Isso aqui a esta hora sempre está vazio!

A exclamação daquela mulher, em uma manhã acinzentada que contrastava com o espírito de Gaia, a trouxera de volta para sentidos reais envoltos a um cheiro de fumaça de carro misturada com um ar parado da mesma manhã que não tinha cara de primavera - Gaia foi um apelido dado por um tio que sabia-se metido a filósofo e que gostava de alcunhar as pessoas com os elementos do globo.

Essa mesma exclamação criaria espaço para que um sem fim de lugares se apresentassem aos olhos dessa mulher que tinha pela frente apenas uma manhã, as próximas horas não estavam sob as suas previsões. O clima e os cheiros da manhã seriam os únicos guias para Gaia.

Seguiu um caminho não traçado. Seus passos foram se desenhando e a ela caberia apenas ir, não havia como alterar a rota de uma traçado desconhecido. A manhã ainda permitia os óculos escuros. Quase um escudo. Antes de sair do carro, ainda havia olhado pelo vidro a tentar desafortunadamente alcançar o tom da mulher dona da exclamação avivadora. No entanto, a moça nem sequer titubeou, altiva, entrou no carro e se perdeu por entre os vidros negros. Restou a Gaia, apenas o timbre dos olhos cor de amêndoa e vivos como os de um recém-nascido.

Mais um passo, e agora já estava dentro do shopping. O cenário deste local é menos aterrorizante nos dias "de semana" pela manhã.

Lembrou-se de tirar os óculos alguns minutos depois das indagações que recebia entre os olhares dos demais transeuntes. Riu de si mesma. Lembrou do tio que sabia-se filósofo e riu das pessoas ao seu redor.

Como não havia programado sua ida, fez coisas que habitualmente faria. Comeu um sanduíche que nas propagandas se apresentava um tanto mais apetitoso. Tomou também um copo inteiro de Coca-Cola. Levantou-se da sempre tumultuada praça de alimentação e lançou-se ao encontro das pessoas. Tinha lá uma tese de que dentro dos shoppings e dentro da alienação capitalista as pessoas viviam como sonâmbulos, não sabiam que estavam ali, e entorpecidas precisavam de um espetáculo qualquer para retomarem a "consciência". Precisavam comprar.

Percebeu que ainda estava absorta pela exclamação da enigmática mulher de olhos amendoados que encontrou na entrada do shopping. Não era o sanduíche que estava sem gosto. A realidade em que se havia dado é que não permitia sentir seu gosto. Talvez um filme soubesse bem àquele momento. Sim, seria.

Caminhou lentamente até a bilheteria, sacou o cartão, pagou e se entregou. O momento em que a atendente falava sobre as opções de filmes foi saltado por Gaia, apenas disse que seria o filme da próxima sessão. Só depois percebeu qual seria o filme a ser exibido: "Palhaço". O nome com toda carga mágica que carrega consigo trouxe em Gaia uma explosão de sentimentos nostálgicos de sua infância. A canção que apresentava o filme fez com que seus olhos fechassem e sua alma levitasse até uma infância que não viveu. De soslaio conseguiu perceber que o diretor já era conhecido por ela, daí, inocente se deu ao filme.

De dentro da sala de cinema não havia tanto o que dizer, uma arte sendo encenada dentro de outra arte foi uma sensação que Gaia apenas havia experimentado enquanto ouvia as teorias de seu tio metido a filósofo e artista. Sensações daquelas em que o espírito parece querer pular para fora do corpo em pura magia. Palavras não seriam o bastante para essa expressão.

Assim, como acontecera num romance de Garcia Marquéz, em que, o local, de tão inóspito, não trazia ainda conceitos para explicar as coisas, carecia, portanto, que as pessoas apontassem o dedo para indicar as coisas - ações típicas de criança. Foram assim os momentos dentro da sala de cinema que há muito já se havia transformado em uma imensa lona de circo.

A criança que saltitava dentro do coração de Gaia tinha sonhos tão distantes que por vezes seus olhos marejavam - ora de cansaço pela viagem que nunca chegava, ora de saudade de uma infância distante que ela não havia presenciado, pura emoção. Mais uma vez uma sensação infantil. Toda esta sentimentalidade foi para Gaia também uma surpresa, como aquelas que temos quando ganhamos uma bicicleta no Natal.

Resolveu, lá pelas tantas, também "ser de circo". Mas não foi um gesto de escolha tão somente. Havia um amor e uma incerteza a flamejar em seus olhos de mulher que agora era criança. Essa incerteza tinha o gosto salgado das lágrimas que tomavam seu rosto diante do circo.

Quando foi "de circo", riu do palhaço e sonhou ao ver o malabarista. Amou o poeta e se entristeceu a cada baixar de lonas. Cerrou os olhos e depois já era outra paragem, outra cidade, risos outros, olhares e lágrimas também. Viu o palhaço triste a se perguntar quem o faria sorrir. Viu amores nascendo sob a lona criadora de sonhos. O circo era pura magia.

Ao sair da sala de circo, resolveu perguntar à mulher de olhos de amêndoa qual o sentido e o problema de estar ali sempre vazio em manhãs escuras de um dia de semana. Gaia, por certo, não iria encontrar mais essa moça. Ela já estaria entretida no espetáculo do mundo.

Da porta do shopping, agora via pingos de chuva, não poderia mais colocar os óculos escuros. Mas, não havia mais essa preocupação, nem com os óculos e nem com a mulher do carro com vidros negros. O circo tinha que continuar. Agora, Gaia tinha uma amiga, Aurora. Tinha esse nome, pois foi ela quem trouxe o novo, a que foi criança todos os dias, a que permitiu Gaia preencher a manhã, vazia. Aquela que iniciou seu dia. Aquela inocente que acredita em palhaço!

Bernardo G.B. Nogueira
Itabirito - de manhã.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

E se foi...em forma de poema, como uma dança...

pedaços, traços e desencanto

Mais um pedaço meu pelo ar,
as suas asas cresceram no pomar lá de casa.
Tinham um pólen risonho,
uma ciranda e um sonho.

Ele se foi de mim como vai a manhã,
com luz, cheiro e sol.
Não tinha nome e nem olhou para trás,
só um rasgo em meus olhos de criança.

De mãos dadas com um gosto, lembrança,
daquelas que aos olhos toma em andanças,
passos leves, passos de dança,
e as folhas então voaram, esperança.

E se foi aquele primeiro pedaço,
acompanhado, abraçado por outros tantos,
que com pés descalços, em meu regaço ia catando,
e já era só um sonhar, sonho de amar, pedaços, traços e desencanto.

Bernardo G.B. Nogueira
Pontes Novas de andanças...