Mostrando postagens com marcador imaginação. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador imaginação. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 26 de julho de 2013

...



...

deixe cair folhas
dos verbos sem inspiração
das cinzas que foram ontem
não voltam não
toque o vento com o olhar
sussurre aos gritos
deixe eco do seu corpo
a cada mirada azagaie
em perdição, faça preces
cante pra deuses profanos
deite-se no altar
não cesse a imaginação
chegue com barulho
ofegante,
...
como é o amor,
                      urgente!

B.   

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Palavras



Palavras


“Eu só vou falar, na hora de falar, então eu escuto”
Secos e Molhados

Por ora meu coração se reduz a um grão de um pequeno fruto que dá em um momento do ano em que as pessoas ainda não conseguiram desvendar. É um tempo entre a primavera florida e as folhas secas que caem na avenida longa e escura que me leva ao bosque onde nascem esses frutos. Lá tem um monte de plantas que conversam apenas entre si e que não se importam com os humanos que transitam entre elas. Por serem plantas que os humanos consideram milenares, eles dizem ter respeito por elas. Mas as árvores cochicham, aquando das madrugadas, que a qualquer momento podem cair em cima deles, umas por prepotência de seu tamanho, outras por já estarem cansadas.

É certo que nesse intervalo, em que os conceitos de estações do ano não alcança, fica mesmo difícil compreender. Aliás, é uma boa reflexão essa sobre coisas que não conseguimos criar conceitos. Certa vez, uma criança ao observar um homem fumando aquilo que ficou acordado chamar cachimbo, voltou-se ao adulto que a acompanhava e exclamou: “- Veja! Um homem com aquilo que o Saci-Pererê usa na boca!” Esse dizer é apenas para ilustrar como é excepcional a existência em que o conceito ainda não tomou conta. É um pouco isso que parece atender à criança nietzschiana, a surpresa, o evento, a novidade, tomam conta da existência que é pura criação, a cada instante, sem cessar. Ai as amarras conceituais nem existem, talvez essa ingenuidade, em sentido positivo, puro diria, seja um caminho para a criação artística. A confusão entre a existência humana e a arte que se faz ou não dela, parece-nos estar colocada à medida desse tipo de relação. De alguma maneira, poderia dizer que o acúmulo de informações entulha a relação com o mundo, tornando-o sem mistérios e ao mesmo tempo, cinza e cabendo nos prazos e nos ponteiros dos relógios. Talvez essa ideia de conhecimento devesse ser medida na proporção da abertura que os poros da pele têm para ele. Não seria então, como por vezes pensamos, um puro conhecer, mas sim, deixar-se, estar no conhecimento, nada havendo entre o que é conhecido e o que somos. Conhecer seria estar sensível ao conhecimento, uma coisa só, portanto.

De certa forma, quando as árvores milenares falam entre si, pois não havia dito, mas elas apenas podem conversar nessa época em que o homem ainda não criou conceito. Então, elas aproveitam para traçar todos os planos até a próxima prosa. Assim, ingenuamente achamos que podemos olhar para elas e dizer: “- Agora estamos em tal ou qual estação.” Puro engano, foram elas próprias que determinaram. E se de alguma maneira as estações se confundem. Também não seria apenas pela ação funesta do homem em relação às plantas, ali elas também namoram. Portanto, se em um belo dia de outono aparecer uma chuva torrencial, é causa de um desamor entre elas. É importante dizer que elas se relacionam em silêncio. Essa coisa de palavras é muito difícil de decifração, e como entre estas plantas milenares não há mentira, elas não precisam ficar falando muito. A comunicação se dá pelas relações que elas travam entre os olhares que trocam e pelos encontros subterrâneos que têm suas raízes. Também é um dado necessário saber que os romanos diziam que Ceres seria a deusa das plantas. No entanto, estas plantas milenares existiam antes mesmo de haver uma deusa para elas. Essa estória confirma a questão de que não há no tempo delas a possibilidade de conceitos. Pois se aceitassem Ceres como sua deusa, estariam fadadas a ela, e ai seria o fim de suas relações por vezes incestuosas por debaixo do solo.

Assim, dessa devassidão toda, ou seja, da ausência de conceitos que as predigam. Da inexistência de condições estruturais para sua existência é que nascem as artes e nascem também os frutos destas árvores milenares. Chamo de furto por fraqueza adulta de imaginação. Aliás, é sempre uma redução e mostração de rudeza imensa um diálogo por conceitos. Imaginem se a criança já houvesse sido colonizada, ela diria cachimbo. Não iria fabular dentro de sua cabecinha um sem fim de possibilidades para aquilo que o Saci-Pererê carrega na sua boca. Como são inférteis os conceitos. E estas plantas milenares que carregam essa impossibilidade conceitual são o oposto da infertilidade. Delas brotam aquilo que entre nós, convencionou chamar de sentimentos. Foi por isso que quando comecei a escrever eu disse que meu coração estava do tamanho de um grão, de um pequeno fruto, que dá em um momento do ano em que as pessoas ainda não conseguiram desvendar.

Na verdade, esse sentimento não é mesmo da ordem do conceito. De alguma forma as crianças poderiam desvendar essas coisas e o fazem de maneira espetacular quando dizem, por exemplo, que aquilo que chamamos de lágrima, em verdade, são “aguinhas” de tristeza. Mesmo que elas não saibam o que é a tristeza, ou melhor, não possam explicá-la de maneira racional e conceitual e, portanto, distante do real. Na verdade, nem esse tal de real existe, a escrita de Slavoj Zizek nos ajuda a compreender isso. Mas esse tema não caberia aqui. Senão estaria a negar aquilo que aqui eu quis contar, a história de um dia em que meu coração esteve pequeno como um grão, e como eu não sabia desvendar o que era aquele sentimento, eu quis pensar que ele era uma coisa nova que aparece de vez em quando, em um momento que nossas marcações temporais perdem todo o sentido e que também estas coisas de estar alegre e estar triste também não poderiam explicar.

Dessa forma, esse sentimento restou para mim, como o filho primogênito de duas árvores, que durante uma relação misteriosa, em um tempo que não tem estação definida, mas que se compreende entre a primavera e o outono - porque são estações lindas e porque o que eu sentia tinha o cheiro da flor e o infinito do outono. Por isso, se um dia eu descobrir o que é isso, eu vou chamar: sentimento de coração do tamanho de um grão de um pequeno fruto, filho de árvores milenares, que cochicham na madrugada, em um tempo em que as pessoas ainda não conseguiram desvendar. Quando eu souber, não vou falar.

Bernardo G.B. Nogueira
Conselheiro Lafaiete – verão - 2013

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Daqui e de lá


Daqui e de lá

Sob o olhar atento de um peito aventureiro. Restou caído um dizer de solidão. Somadas todas as presenças ausentes de que não se conseguiu desvencilhar. Estaria ali uma pintura que fora soma de todos os passados, ou seria, na verdade, um mero rabisco de uma memória impossível, mas mesmo que sabidamente impossível, insistente em se apresentar? Eram indagações, que se de um lado cheiravam filosofia, de outro, assombravam o estreito presente que se estava a construir. Paisagens de uma imagem construída. Imaginação.
Tocar no solo talvez ajudasse a entender a medida do etéreo e do real. Solo envolvido por outras imaginações - de outras pessoas. Outros tempos e outras canções. Não haveria enfim um acorde puro. A pura imaginação é devaneio. Espírito sem carne não deixa andar. Flutuar é uma tarefa que requer apuro. Puro ar e pura intuição. A este tempo já não caberia mais reflexão. Se de alguma forma se quis ver, só a vista posta não garantiria a precisão. O corpo que reclama não deixa livre o coração. Se a vista o mar alcança, é porque longe se vai o desejo.

O invento não se faz com certeza conseguida. Da mistura que é a verdade. Porque entre viandantes é que se permitiu a criação. De dentro do um, que encontra o olhar do outro, brota o novo que é dos dois, mas que não é de ninguém não. É só marca de história. Memórias que se juntam pra coser outra canção. Ver isso é entender que o entendimento só se dá “entre’’. E agora vou escrever um parágrafo inteiro sobre as coisas que penso fazer entender.
Entre o tempo que vive e o tempo que se conta. Entre a valsa que dançamos e aquela que sentimos. Entre os olhos que miramos e aqueles que mentimos. Entre a farsa que se vive e a verdade que se fala. Entre a menina que existe e o rapaz que se sonha. Entre a avó que é sublime e a jovem impostora. Entre a mulher que se exibe e aquela que é magia. Entre a letra que se grafa e aqueloutra que apenas sonha. Entre um passado que se mede e um presente que poesia. Entre a certeza que é verdade e a criação que é vida. Entre a carta que é escrita e o choro que sente saudade. Entre lá fora que faz frio e aqui dentro que tudo queima. Entre o infinito da planície e a incerteza da montanha. Entre a consciência da tragédia e a fraude da razão. Entre a métrica do poema e a insensatez da realidade.

E por serem tantos os caminhos e de tantas cores é que a ventura da estrada faz-se plena. Oscilar como átomos. A incerteza da física nos indica quão fértil é este passeio. É só ver como passeia a bailarina. Sempre indo e vindo. Entre saltos que parecem plumas a pairar. Corpo em movimento. Movimento de todas as partículas quando baila. Desde um oriente inventado até um ocidente cansado. A bailarina é um bom arquétipo de que a imaginação que se tem é a verdade que se pode ter. Nada mais e nada menos. Só invenção. Aparição inaudita. Só a bailarina que tem. Estrela e atriz. Bailarina.

Da imaginação e da realidade o que se tem é a réstia entre o dito e o vem a ser. É sempre nesta tensão que podemos estar. Salvo se de alguma forma nos assemelhemos à bailarina. Pois ela pode tudo. Até não ser bailarina. Restariam choros a solicitar que retorne. Que dance. Que voe. Que flutue e faça flutuar. Que destrua a gravidade e também a falsidade. Que borre a maquiagem de quem assiste. A dela não. Porque nela não há tensão. Isso só pra dizer que pra saber do peito aventureiro, do presente, do passado, da filosofia ou da invenção, talvez se deva esquecer de todo conceito, da coisas certas, da rima pronta e da exatidão, da história que se conta e do relógio que mata. Errar feito a bailarina que faz da vida arte. Que encerra em um passo e um flerte toda a ode de amor, de ódio e de humano.

Todos passaram, ‘o passarinho’ não. Isso só porque ele avoa como a bailarina, porque enquanto quedamos aqui cheios de explicação, com dois mundos, um de verdade e outro que é invenção. Nada de atrito para a bailarina que em seu voo é sublime, esquece que é palco e se apresenta na vida, esquece que é vida e inventa no palco. E quedamos lançados nesta dúvida que parece rio turvo depois da inundação. Menos a bailarina, que passa sem ao menos ver ‘seu vigia catando a poesia que entorna no chão’.

Bernardo G.B. Nogueira
Itabirito – verão e bailarina.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

condenação


condenação

Então há uma denúncia a ser feita,
dos pés até o último fio de pretensão,
de toda a verdade que é em vão,
sobre todas as falas e caras feias.

Não é um grito com o pé no chão,
nem dá para dizer que é reclamação,
por um momento se quis até silêncio,
depois não há mais jeito, é incêndio.

Daí que nasce uma canção,
lá onde começa o dia,
lá onde morre a entonação,
brota um raio leve, de prostração.

Sob a mira não feita do coração,
notas sem harmonia, é paixão,
coloco-te agora defronte a ti,
desnudo de todo verbo, de toda maldição,

cala-te! ou condeno-te à imaginação.

GB Nogueira - outono

domingo, 22 de abril de 2012

Vida, morte ou imaginação


Vida, morte ou imaginação

Está frio e quente,
o mar se vai
e vem,

deixo-me ao olhar,
como um barco parado
sobre a água a dormir.

Sempre ao entardecer,
os fios de sol vem ao meu rosto,
todo infinito é o seu gosto.

Mas não há aqui
ou outro lado,
certo e errado,
dia calmo ou tempestade

pois já é tarde e me distraio,
daquele tempo que foi,
ou pela estrada que escrevi.

Bernardo G.B. Nogueira
Outono – Conselheiro Lafaiete

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Não estava ali


Não estava ali

Sempre eram tardes de luz povoadas de raios e sol. Um fel escorria do peito do homem que não queria morrer. Apenas uma vontade de estar ali e não perder nem um dos traços da mulher que acenava com a mão e que tinha sempre os cabelos presos em jeito de menina. O dom de olhar p’ra trás assolava seus olhares futuros. Tal qual som de harpas antigas, eram os flertes com que conseguia respirar, nem ousava falar alto. Isso para não acordar as ninfas que escreviam a história com acordes alucinantes.

Do outro lado da rua também havia uma outra espécie de vida. Até parecia que os raios daquele sol eram os mesmo para todos, assim como as gotas da chuva e o mato que esvoaça com o vento. Mas na outra margem, a mulher tinha os cabelos soltos e havia até um sorriso, sem nenhum vestígio de melancolia ou vontade de passado. Quanta vida há escondida por trás daqueles que não sorriem. O marido da mulher que tem os cabelos soltos sempre acaba de chegar. É prudente não observar seus cabelos quando ele chega. O homem sequer olha para os cabelos dela, tampouco meus olhos de cor desbotada.

As crianças que assoviam canções mentirosas eram a realidade mais bonita deste regaço. Seus pinotes em direção a qualquer coisa não podiam ser entendidos nem pelo homem que chega afoito do trabalho, nem pela mulher que só olha para o futuro e mantém sempre o cabelos soltos. Ficam sempre presos pelo sol que não chega a dormir. Enquanto ele está alto no céu a vida nem corre. O vizinho joga o lixo fora e com ele todas as coisas que não ousou criar. A vida dele devia ser bem organizada.

Há também um homem que tem sempre as janelas abertas e olha para o presente. Parece que suas mãos não se cansam de agradecer seu dom de trabalhar incessantemente - com ou sem sol. Parece que ele não vê nenhum estranhamento entre as mulheres da rua. Uma com os cabelos soltos, a outra com os cabelos sempre presos. Ele não as observa por detrás das máquinas com as quais dialoga todos os dias. Dia e noite. Desce as escadas olhando com um sorriso cor de certeza. Quase mentiroso. Ele não escuta os pinotes das crianças. Ele vive no presente.

Em um momento o casal de idosos parece entrever todos os acontecimentos da rua. Eles nunca se surpreendem e sempre têm frases do tipo – “A vida é assim mesmo. – Quando crescerem, em outro tempo, irão mudar de atitude.” E isso lhes confere um grande crédito em relação aos olhares – tanto da mulher sempre com os cabelos soltos, como daquela que tem os cabelos sempre presos. O marido da mulher com o cabelo solto não sabe da existência dos velhos. As crianças fazem troça da calmaria deles. Mas eles olham para um direção que ainda não consegui descobrir. Os olhos deles pareciam não ter fim.

Depois de sentir todos esses olhos, fiquei preso no muro que divisa minha casa e a rua. Meu olhar saia de dentro de minha imaginação. Olhar para trás era uma forma de buscar inspiração para a próxima paisagem que eu criaria dentro de minhas fantasias. Todas aquelas ações eu precisei inventar, pois nunca morei naquela rua e nunca conheci aquelas pessoas. Só precisava ver algo, do passado, do futuro e do presente, talvez. Mas minha casa nem sequer tem muro. 

Bernardo G.B. Nogueira
Itabirito – 18/02/2012

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Em homenagem ao aniversário de Pessoa...


Falar de Pessoa

Falar de Pessoa...

Falar de Pessoa é já se obrigar a não falar dele mesmo. É admitir falar de outro sabendo que o outro é ele, e assim, igual. Saber que em um se encontram mil, mas saber que esse mil, é já, um só. Um só que se admite entre aqueles vários, que se cria em diversos, e encontra nos outros o traço fundamental de si, ser um, a constituir todos, portanto, sempre a ser mais, e maior.

O fingimento da existência é natural a quem se dá às criações, e mais ainda(!), a quem de sua vida faz ela mesma sua maior obra de arte. Seja em prosa, seja em verso, fica maior a cada “penada” que é dada, a cada rascunhar de si, refletido na ausência de um corpo que é só criação, invenção, portanto. Alienar sua existência na escrita, mas ao mesmo tempo criá-la...sempre!

E a imaginar, de tanto imaginar (!), um só não dá mais para sustentar tanto dizer que sai dali. É preciso o outro para que a imaginação não fique paralisada naquele primeiro pensamento que surgiu daquele primeiro um. É no outro que a imaginação faz florir sua semente, é por ali que ela se vai completar, mesmo que não se acabe, mesmo que sem cessar...

Daí, depois que imagino, já não há mais como controlar...agora já são pessoas e pessoas a me povoar, e preciso delas me libertar, preciso com elas partilhar, pois se não o fizer, fico com uma sensação angustiosa que se assemelha a um artista a interpretar sempre para o mesmo público, sempre com a mesma máscara.

Os sentimentos são tantos, que quando estou a criar nessa minha imaginação fingidora e fantasiosa, as pessoas acabam por se encontrar nesses meus devaneios, e me rio delas quando interpelam como conseguira a elas traduzir tão fielmente..? Ora pessoas!. Não há sentimentos quando estou a escrever ou a poetar, “simplesmente sinto
com a imaginação” e por não me prender a uma pessoa ou a um sentimento, é que acabo por transcender a mim e encontrar você. Por isso preciso de tantas pessoas a me auxiliar...

Mas eu preciso confessar uma cousa...

Tem sempre um momento nesses instantes de imaginação que algo me é ocultado. Pois, enquanto estou poeta e começo a fingir em meio a minhas criações, por vezes, acabo nelas a me perder. Poderia ser um instante de medo, por estar a perder as rédeas de minhas sensações - e a confundir vida e criação – e há não mais saber onde andaria o verdadeiro chão. Mas, não há medo, ora, a existência, aliás, como diria outro poeta também, está à altura do que posso enquanto pensar... ”numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo...” Daí, me deixo ir, ora em companhia de uma pessoa, ora de outra... “Sentir? Sinta quem lê...”

Ah! Já ia me esquecer! Essas pessoas nem existem. E agora me pego a lembrar de que há a necessidade da falta de algo para que ele possa então existir. Verdade! Essas pessoas não existem! Mas é claro! Se existissem, nem poderiam ter sido criadas, pois, quando o pensar se realiza, deixa mesmo de existir. E o poeta, quando realiza seus sentimentos, perde o sentido de seu perquirir. Por isso, pessoas são necessárias, não ao existir, mas enquanto possibilidades de inventar sentimentos ainda não descritos; para neles viver, para deles se nutrir e sobre eles escrever... mesmo que não existam, mesmo que sejam mentira ou fingimento, mesmo que sejam imaginações.

”Dizem que finjo ou minto tudo que escrevo. Não. O poeta é um fingidor.”

Bernardo G.B. Nogueira

Outono frio e real – Itabirito – 2011.


ISTO

Dizem que finjo ou minto
Tudo que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.

Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.

Por isso escrevo em meio
Do que não está de pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é.
Sentir? Sinta quem lê!

Fernando Pessoa

AUTOPSICOGRAFIA

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

Fernando Pessoa