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domingo, 28 de julho de 2013

pela rua



pela rua

Enquanto lê este poema
Pensa o quanto Hemingway ou Bukowski são mais intensos

Imagina que poderia ter isso ou aquilo
Talvez uma rima
Escrever mais verdades
Fantasiar menos
Entender mais de realidade
Pousar os pés
Esquecer as nuvens
Deixar de lado os goles
Não cheirar tantos vinhos
Atento, espreitar a ciência
Nas esquinas, não se perder
Seguir o rumo
Arrumar

Enquanto lê esse poema
Pensa que nenhum poeta vive se morrer?

B.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

verdade



verdade

já abençoava o poetinha,
não fique com coisa com a vida,
ela vai passar,
os dias
os rios e até os anos,
depois vem o que não se sabe,
ontem e até amanhã,
noite fria e dia com sol,
vai cair chuva,
vai demorar o trem,
a estação vai até chorar,
a lágrima pode ser companhia do coração,
depois vai ter sorrir também,
tarde infinita com ar de poesia,
porque a gente é toda assim
é e não
ir e voltar
samba e canção,
incertezas da nau de mim,
vagueando pelos olhos seus,
cego como a vida,
lúcido feito amor,
mesmo que sonho...

B.

domingo, 31 de março de 2013

Eu não vou me adaptar!



Eu não vou me adaptar!


“Quem inventou o amor?
Me explica por favor”
Renato Russo

“Matamos quem amamos”, diria-nos Oscar Wilde. Mas qual a dimensão desta fala? Seria na mesma direção de Sartre, que entende o amor ser uma tentativa de aprisionamento do outro?  Seria então o amor esse sentimento que de maneira tirana nos toma e leva consigo, sem dizer se traz de volta? Estamos a falar de um tema em crise na contemporaneidade?

Algumas destas resposta poderíamos talvez encontrar no filme “Amor”(Amour) de Michael Haneke. Na película, dois idosos, Georges (Jean-Louis Trintignant) e Anne (Emmanuelle Riva), vivem envoltos à uma aura musical e cultural dentro de seu apartamento. O afeto mútuo resta evidente nas notas musicais trocadas pelos dois. A harmonia da idade avançada, no entanto, é balançada por um derrame sofrido por Anne. Esse episódio empresta um verniz de realidade ao filme. Isso é diretamente partilhado com o expectador, que é conduzido pra dentro do apartamento dos idosos em Paris. A partir daí, partilham suas mazelas e belezas, tudo rodeado de um cheiro, que diríamos amor. Amor, em toda sua tragidicidade, inevitabilidade e candura, mas também, em toda sua rudez, nudez e sofrimento, quase negação.

Esse paradoxo seria o que gostaríamos de refletir aqui. Em uma leitura primeira podemos dizer que Georges, ao se abster de si e dedicar-se a Anne, estava a realizar uma face bela do amor, que é a resignação de si pelo outro. Esta seria, sem dúvida, uma face do amor. No entanto, algumas questões surgem com essa percepção. Talvez essa seja a problemática que assola de realidade o filme. Na contemporaneidade “líquida” que vivemos, as relações amorosas estão afetadas pela questão do tempo, que de há muito não nos dá mais sinais de sua existência. O espaço e o tempo foram acometidos por uma parafernália técnica a nos guiar para um horizonte determinado ideologicamente. Isso, obviamente, afetaria o que chamamos amor.

Assim, viver um relacionamento em que há uma disposição para o outro. Disposição para amar, é tarefa complicadíssima nestes tristes tempos. Pois quando perdemos a dimensão do tempo, e quando a duração (no sentido dado pela psicanálise) é palavra que não cabe mais no vocabulário, restamos como dito por Zygmunt Bauman, em relações líquidas. A solidez de um sentimento se perde no ar, quando o outro não se encaixa na moldura produzida mercadologicamente e considerada a que melhor se amolda a nossas querências, de fato, carências. Como diria Cazuza em seu “Blues da piedade”: “pra quem não sabe amar, fica esperando alguém que caiba nos seus sonhos”.

Parece que o reclame do filme nos dá a dimensão do autismo que estamos a viver em relação ao amor. Ao invés de um amor que liberta, que acresce, que degenera, que faz sofrer, que aprisiona, que é paradoxo e que também faz gozar - queremos encontrar na prateleira da vida, uma peça que não nos incomode na busca por nossos próprios planos, também inventados por terceiros. Georges, em verdade, não apenas mostra essa face outra do amor. A face da doação, que é bela e que também é trágica, por isso humana. Quando se recusa a internar a esposa e cuida dela até o fim, de alguma forma cumpre sua história, faz história e não se vale daquelas prontas que as prateleiras vendem: amores perfeitos, par ideal, pessoa certa, relacionamento sem brigas, ausência de vida.

Aquele casal de idosos traz em sua face os rasgos da vida. Suas felicidades e decepções. O amor não poderia também querer ser mais que isso. É um sentimento que inventamos pra sonhar, igual à arte, que nos salva da realidade. O amor, portanto, não cabe nos moldes do apolíneo, carece do inevitável. Carece de vida. Carece de morrer pra viver de novo. Talvez por isso matamos quem amamos.

B.
Conselheiro Lafaiete – verão – 2013.


domingo, 17 de março de 2013

poema da vida real? (anti Dionísio)



um dia,
quem sabe...
quando não houver muito trabalho,
depois da chuva,
quando estiar essa maré brava,
depois que a gente se curar de tudo de ruim,
no dia em que não houver testemunhas,
porque você sabe né?
viver a dois hoje é difícil.
Então a gente espera,
enquanto isso as coisas esfriam,
fica mais fácil agir racionalmente,
afinar as finanças,
controlar os próximos projetos,
planejar, né!?
pois vida sem planejamento hoje não dá certo,
podemos até pensar em filhos, mas só depois do doutorado,
antes fica tudo emperrado,
durante a madrugada preciso responder alguns e-mails,
então não vai dar pra amamentar hoje,
escrever durante o dia não dá, tem o escritório,
quando não estivermos muito cansados a gente transa,
porque ninguém é de ferro,
não?
...

poema da vida real?
(anti Dionísio)

B.
BH – verão – Conselheiro Lafaiete

sábado, 27 de outubro de 2012

quem tem flor tem sorte...



quem tem flor tem sorte...

Quem tem flores nos jardins tem sorte,
que vê flores pela janela também,
o jardineiro vive com sorte,
tem perfume e tem verdade,
todos os dias caminha sem ansiedade,
as flores esperam felizes o sol e a chuva para alvorecer,
quando na rua nos deparamos com uma flor, ah como é melhor
o chão se colore e o céu fica mais perto,
não aquele céu de deus,
mas aquele que sentimos quando estamos em devoção,
e é assim quando a flor brota,
quando ela morre, mesmo assim é linda a floridão
pois o enterro de uma flor é um bouquet,
e o choro da flor é perfume,
e flor triste é poesia,
e o poeta é o namorado eterno da flor,
até a última pétala,
até o último verso.

Bernardo G.B. Nogueira
BH