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sexta-feira, 19 de abril de 2013

acabou ontem



acabou ontem

de manhãs há que vive
cândida,
livre e som,
de Tom e vagar,
convite de orquestra,
pra falar de rio e mato,
com sede de nota limpa,
água corrente pela harmonia,
e o timbre só alegria,
Ah...
lá se vai o “chorare”,
pro mar de banho
de manhã que é fim de ontem,
do cantar que foi amor de sempre...
de manhã.

B.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

canção sem tempo



canção sem tempo

vai-se deixando pelos minutos da estrada,
cada passo é um a menos,
outro mais a cantar,
de dó em ré,
dá-se uma valsa,
pra cantar em dias sem horas,
pra amar em passos namorados,
envoltos em um tempo só,
cantado em mi e fa,
esquecidos feito mar,
ditosos,
há tempos a profanar...

B.

domingo, 31 de março de 2013

Eu não vou me adaptar!



Eu não vou me adaptar!


“Quem inventou o amor?
Me explica por favor”
Renato Russo

“Matamos quem amamos”, diria-nos Oscar Wilde. Mas qual a dimensão desta fala? Seria na mesma direção de Sartre, que entende o amor ser uma tentativa de aprisionamento do outro?  Seria então o amor esse sentimento que de maneira tirana nos toma e leva consigo, sem dizer se traz de volta? Estamos a falar de um tema em crise na contemporaneidade?

Algumas destas resposta poderíamos talvez encontrar no filme “Amor”(Amour) de Michael Haneke. Na película, dois idosos, Georges (Jean-Louis Trintignant) e Anne (Emmanuelle Riva), vivem envoltos à uma aura musical e cultural dentro de seu apartamento. O afeto mútuo resta evidente nas notas musicais trocadas pelos dois. A harmonia da idade avançada, no entanto, é balançada por um derrame sofrido por Anne. Esse episódio empresta um verniz de realidade ao filme. Isso é diretamente partilhado com o expectador, que é conduzido pra dentro do apartamento dos idosos em Paris. A partir daí, partilham suas mazelas e belezas, tudo rodeado de um cheiro, que diríamos amor. Amor, em toda sua tragidicidade, inevitabilidade e candura, mas também, em toda sua rudez, nudez e sofrimento, quase negação.

Esse paradoxo seria o que gostaríamos de refletir aqui. Em uma leitura primeira podemos dizer que Georges, ao se abster de si e dedicar-se a Anne, estava a realizar uma face bela do amor, que é a resignação de si pelo outro. Esta seria, sem dúvida, uma face do amor. No entanto, algumas questões surgem com essa percepção. Talvez essa seja a problemática que assola de realidade o filme. Na contemporaneidade “líquida” que vivemos, as relações amorosas estão afetadas pela questão do tempo, que de há muito não nos dá mais sinais de sua existência. O espaço e o tempo foram acometidos por uma parafernália técnica a nos guiar para um horizonte determinado ideologicamente. Isso, obviamente, afetaria o que chamamos amor.

Assim, viver um relacionamento em que há uma disposição para o outro. Disposição para amar, é tarefa complicadíssima nestes tristes tempos. Pois quando perdemos a dimensão do tempo, e quando a duração (no sentido dado pela psicanálise) é palavra que não cabe mais no vocabulário, restamos como dito por Zygmunt Bauman, em relações líquidas. A solidez de um sentimento se perde no ar, quando o outro não se encaixa na moldura produzida mercadologicamente e considerada a que melhor se amolda a nossas querências, de fato, carências. Como diria Cazuza em seu “Blues da piedade”: “pra quem não sabe amar, fica esperando alguém que caiba nos seus sonhos”.

Parece que o reclame do filme nos dá a dimensão do autismo que estamos a viver em relação ao amor. Ao invés de um amor que liberta, que acresce, que degenera, que faz sofrer, que aprisiona, que é paradoxo e que também faz gozar - queremos encontrar na prateleira da vida, uma peça que não nos incomode na busca por nossos próprios planos, também inventados por terceiros. Georges, em verdade, não apenas mostra essa face outra do amor. A face da doação, que é bela e que também é trágica, por isso humana. Quando se recusa a internar a esposa e cuida dela até o fim, de alguma forma cumpre sua história, faz história e não se vale daquelas prontas que as prateleiras vendem: amores perfeitos, par ideal, pessoa certa, relacionamento sem brigas, ausência de vida.

Aquele casal de idosos traz em sua face os rasgos da vida. Suas felicidades e decepções. O amor não poderia também querer ser mais que isso. É um sentimento que inventamos pra sonhar, igual à arte, que nos salva da realidade. O amor, portanto, não cabe nos moldes do apolíneo, carece do inevitável. Carece de vida. Carece de morrer pra viver de novo. Talvez por isso matamos quem amamos.

B.
Conselheiro Lafaiete – verão – 2013.


sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

ladeira



ladeira

na ausência de seu jazz,
recorro às esquinas,
que mudam caminhos,
desfazem rotas,
rodamoinhos.
Dentro das páginas dos livros, letras,
de novo, letras,
letras com frases musicais,
que vejo na rua a se estender,
perante os olhares sisudos e mudos dos relógios,
que marcam os dias em que não há canção,
só um estribilho do som de ti,
longe e arredio,
feito corredeira de rio que não sabe onde vai dar,
qual sertão,
qual a ausência de ritmo que seu jazz descompassou em mim...

B.
BH – verão – 2013.

sábado, 21 de julho de 2012

One day, one life


One day, one life

Eu queria contar pra alguém o que aconteceu comigo na noite de ontem. Pela primeira vez eu falei com uma pessoa que eu considerava um ídolo. Essa palavra deve servir para dizer que uma pessoa sente que a outra é transcendental em relação a ela e ao redor. Não, muito filosófico. Muito mesmo! Bom, mas é bacana ver como nem sempre a gente é necessariamente apanhado por essa coisa do desejo criado e do desejo irrealizado e criado e irrealizado e nós por essa ciranda afora, sem nós e sem os outros ao mesmo tempo. Todos e cada um a seu tempo, tentando achar essa cosia de simetria. Mas só queria dizer que depois disso descobri que tenho muito mais ídolos do que imaginava. E ao mesmo tempo, muito menos ídolos. Isso porque o HG na verdade não é um ídolo que tenho. Não mesmo. Eu respeito demais a arte dele para dizer isso. Essa coisa de ídolo é magia pura. Ao menos pra meu coração de menino. Na real cara, o que senti ante ele é bem menor do que tudo que suas canções e palavras já me haviam dado. O cara estava lá diante de mim e com o meu livro e o dele nas mãos. Era lá um artista e seu ofício. Eu estava diante de parte de minha história. Por isso que falei essa coisa de magia. Porque transformamos o cara em algo bem além do que ele é, sobretudo do que o que ele acha de si mesmo. Isso é que chamei de transcendental, o cara é superado pela sua arte e nós superamos a sua existência real com aquilo que levamos de nós para a vida dele, mesmo sem ele saber e claro, sem mesmo ele querer. É claro que agora posso dizer que o cara tem meu último livro nas mãos e que talvez eu tenha um cara famoso lendo minhas palavras. Que engraçado isso. Eu escuto o cara, leio os lances dele, me crio e recrio e depois ele poderá me ler, vai acabar encontrando com um pouco dele lá. Ah, mas a ideia aqui é escrever sobre ídolos. Impossível né! O 1berto, aliás, como ele assinou meu exemplar, sempre foi pra mim bem mais do que um all star, um cabelo grande,  um contrabaixo e um palco barulhento de rock. Tem um lance que eu acho que explica melhor a coisa do ídolo. E essa cosia, é a coisa da transcendência. Estou usando essa palavra filosófica porque não tenho um vocabulário menos chato. Deve ser resultado de minha chatice peculiar. É isso aí, talvez ontem eu tenha me tornado de novo e como sempre uma criança que ouvia os Engenheiros no som do carro do meu pai e que achava que saber o que aquele cara estava dizendo me daria a chave para sair daquela infância e me tornar adulto. Hoje, depois de tantos anos, tantas canções, poucas vogais e tudo o mais, vejo que na verdade o que rola é mesmo essa onda filosófica da criança que transcende. O 1berto não é meu ídolo não. Talvez ele seja um cara com cabelo grande que eu achava que nem existia mesmo vendo ele lá no palco, mesmo apertando a mão dele e encerrando nossos olhares de adultos em uma foto de fã, coisa de fã para ídolo.

Bernardo G.B. Nogueira

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

a ti

a ti

Decerto seria bom falar baixinho,
no mesmo tom de seus olhos pequenos,
da mesma métrica que tem sua boca,
em sintonia com a altura de seus sonhos.

Querer devagar como que faz um bordado,
sem fim e com todos os nós atados,
na mesma cadência daquele sol que custa dormir,
com a força que a brisa pousa na flor.

Em tudo estar atento,
desde a cor de seu cheiro,
até o brilho de seus passos.

Ter neste instante um luar infinito,
e com olhos esquecidos perder da vida,
para em sua música me encantar, desmedida.

Bernardo G.B. Nogueira
Conselheiro Lafaiete

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Tango

Tango

Além do tanto, de amor,
além do pranto, nasceste flor,
além do dia, noite sem dor,
além do frio, cadente astro em calor.

Além do sonho, vida e torpor,
além das cifras, improviso que passou,
além de mim, me passaste como que sonhou,
além das sombras, me levaste a escuridão.

Além do palco, foste poesia e canção,
além de toda magia, fizeste em mim, criação,
além de todas as notas, cantaste em mim, coração.

Além de todo o bailar, encantaste meus olhos em aparição,
além de toda a vida, fizeste de mim encenação,
além de todo o tango, bailaste em meu espírito, agora sou só paixão.

Bernardo G.B. Nogueira
Buenos Aires – tango e amor.

sábado, 17 de dezembro de 2011

Poema ao rock'n rool

Poema ao rock'n rool

Acordes infinitos e sons do coração,
olhares perdidos, um sorriso, canção,
vida e morte em atrito, encenação,
do palco, guitarras, letras, pulsação.

Do meu peito sentido, vibração,
mãos se enlaçam em ovação,
amores perfeitos e desilusão,
ode de deuses, revolução.

Nesta noite esguia, uma paixão,
adeus do mundo, transcensão,
d'um beijo eterno, realização,
baixo e bateria, visão de mundo, libertação.

Bernardo G.B. Nogueira
canção...