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terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Oração

oração

sempre Buenos Aires restará,
pra amores esquecidos,
pra dias de sol,
tardes com chuva,
olhares novos,
também tango,
de poesia e paz,
de almas coloridas,
um idioma corrido,
que diz de mim e todas as minhas sinfonias,
sentir amor com esse timbre é como mirar o rio de la Plata,
parece que corre parado,
do mesmo jeito que estas palavras de Buenos Aires correm em meu peito,
paradas pra fora e revolução por dentro,
e foi assim que descobri o amor,
olhando as palavras e vendo-as perder na marola dos seus olhos cor de poesia...

Bernardo G.B. Nogueira
BH - verão

terça-feira, 3 de abril de 2012

Da vida: o que não se pode saber




Da vida: o que não se pode saber


“Somos o que há de melhor
Somos o que dá pra fazer
O que não dá pra evitar
E não se pode escolher”
Humberto Gessinger

“Para se opor ao mundo contemporâneo pode-se atuar na política, mas estar cativado completamente por uma obra de arte ou estar profundamente enamorado é como uma rebelião secreta e pessoal contra o mundo contemporâneo.”
Alain Badiou, in,  Carta Capital 02/2012

Vamos mais uma vez ingressar nesses sentimentos que alguns filmes nos criam. Eu sempre estou a me referir a sentimentos quando escrevo sobre cinema. De um lado eu poderia pensar que é uma possibilidade de me furtar a críticas, pois estou a me referir a sentimentos, subjetividades, portanto. Contudo, de outro lado, menos que o receio da crítica, me sinto na obrigação de dizer assim. Sobretudo em dias em que as artes estão relegadas àquilo que delas faz a “Indústria Cultural” e, portanto, prefiro pensar que escrevo assim para me aliar a Badiou e me rebelar contra o status quo em que estamos imersos.

Bom, o filme que me desperta os olhos e o coração é “Medianeras - Buenos Aires na era do amor virtual”, de Gustavo Taretto. Ter a capital argentina como pano de fundo de uma filmagem já seria algo interessante por si só. Quando caminhamos por Buenos Aires somos transportados para um tempo que é contado pelas esquinas e cafés, pelas veredas e pela história sempre muito peculiar dos seus moradores. O fato dos argentinos terem se rendido ao estilo francês de construção e, de certa forma, também de relação com a cidade, faz com que a cidade seja já um cenário artístico. O cosmopolitismo de Buenos Aires confundido com o bairrismo portenho inaugura novos sentimentos e olhares a quem está por ali a sentir o cheiro dos cafés.

No entanto, não é esta Buenos Aires que o filme Medianeras retrata. O diretor capta de maneira extraordinária aquilo que não é visto pelos olhares comuns. Há uma leitura interessantíssima que conduz a uma reflexão sobre a cidade como espelho do interior humano. De certa forma, o diretor resgata o pensamento platônico acerca da organização da polis, que, para este filósofo – em proporção maior – se organizaria da mesma forma que o corpo humano.

Nesse sentido, a desordem com que a cidade cresce. A desfaçatez dos edifícios inertes e imensos. A longitude dos fios que entrelaçam relações escondidas pelo anonimato de uma sociedade que não desliga, mas que tem a sensação de estar sempre a dormir. Isso tudo está a serviço de expor o modo frenético e desalinhado com que estamos a nos relacionar. Arquitetura citadina como reflexo da arquitetura humana. Há ali, na cidade, um mar de pessoas que não escolhem sua existência e são medidas em acordo com os metros que conseguem manter para que possam se esconder da multidão lá fora. Multidão da qual têm notícia a todo momento, pelos blogs, faces, twitter e demais ferramentas de comunicação. Ferramentas. A própria nomenclatura diz a que se dão: facilitar a realização de algo, no entanto, como dizer que as relações humanas são fáceis e simplificáveis?

Esta face estranha de Buenos Aires causa uma sensação quase que claustrofóbica no expectador, uma vez que o diretor mostra que a cidade cresce sem o controle pretensamente querido pelos cidadãos. Cresce, e paradoxalmente sufoca os que nela habitam. A cidade que se vira de costas para o rio que a margeia e por aí segue uma via de crescimento antinatural. Que não aproveita o silêncio das águas do rio da Prata que de tão imenso, como diria Borges, parece nem se movimentar. Esse caos das construções, a vida virtual, mias real que o real, e a contingência dos desencontros e encontros, entremeados pela excitação da polis, são bons fios condutores para o desenvolvimento da trama.

As indagações existenciais são inevitáveis quando lançamos um olhar diferente e mais parcimonioso para qualquer objeto. Várias faces podem ser desveladas quando a pressa dos soslaios dá lugar à calmaria da admiração – palavra por certo mais romântica e adequada a uma vida menos robótica. Em Buenos Aires, há frases de Borges espalhas por muitas esquinas. Palavras que nos conduzem ao seu universo imagético. O autor de “Medianeras”, não se utilizou desse charme diretamente e nem mencionou a poesia que há no “castelhano” dos portenhos. Na película vimos uma outra face de Buenos Aires, mas, quase sem querer, de maneira inevitável, a cidade não consegue deixar esse romance inato escapar. Por isso, por entender que há algo de inevitável entre os excessos de construções, angústias, solidão e vida virtual,  nos propusemos aqui relacionar o filme a uma fala de Badiou e a uma canção de Humberto Gessinger.

Vamos a esses pensamentos ou sentimentos.

Há no filme dois personagens muito interessantes: Martin (Javier Drolas) e Mariana (Pilar López de Ayala). Eles moram na mesma rua e em prédios vizinhos. Cruzam-se em alguns momentos, mas nunca se encontram. A cidade os direciona, ora para um encontro, ora para o desencontro. Seguem, cada um sua vida, sem ter lá muito direcionamento. Ele, um produtor de sites que tenta se curar de uma fobia. Fobia do encontro com o outro. Por isso começa a fotografar a cidade. Uma forma de se relacionar novamente com as pessoas. Ela, uma arquiteta malsucedida que por enquanto trabalha montado vitrines. Cada um a sua maneira faz reflexo dos vultos que a polis cria no homem pós-moderno.

Martin se relaciona com o mundo pela internet, desde sexo até comida pronta, tudo por ali. A realidade dele é a sua ferramenta de trabalho. Forma e conteúdo se confundem. Mariana vive de maneira irreal com seus manequins. Há uma relação bastante intrigante entre ela e os manequins e entre Martin e a internet. Nenhum dos dois pessoas muito bem adaptadas. Ela tem fobia de elevadores, isto em uma cidade que cresce verticalmente torna as coisas ainda mais difíceis. Ele, abandonado pela namorada que retorna ao Estados Unidos, vive com fobia das pessoas. Isso em uma cidade que cresce sem medidas, também não ajuda muito. Ela transa com os manequins, ele com uma mulher qualquer na net. Ela escuta a música que o vizinho toca ao piano. Ele escuta uma de suas milhares músicas “baixadas” pela internet. Ela fuma cigarros enquanto se confunde com as vitrines. Ele fotografa pessoas enquanto não se confunde com nada.

Duas vidas parecidas. Absorvidas pelo frenesi da cidade e dos prédios em que vivem. Das relações fugazes. Dos abraços sem aperto. Dos cafés descafeinados. Do leite pasteurizado. Do outro sem face. Do sorriso comprado. Confundem-se entre a vida real e o personagem que encarnam para sobreviver. Nas fotos, Martin recupera a vida das pessoas. Em suas vitrines, Mariana tenta encontrar um espaço que lhe dê sentido.

Encontrar. Desencontrar. Viver. Sobreviver. Esses verbos de alguma forma nos encaminham para o enlace que gostaria de fazer em relação a Badiou e Gessinger. Na entrevista que o francês concedeu à Carta Capital, nos incitou a criar sentido para a vida a partir de uma ideia. Pois só a partir dela é que poderíamos estar de maneira autêntica no mundo. Portar-se de forma tal que sua vida tenha um sentido criado por si e não meramente dado e obrigado, como uma imposição. A ideia é aquilo que não pode ser quantificado. Que não pode ser medido pela matemática opressora da vida na cidade. Essa possibilidade, em acordo com o autor, se dá no reino da criação, da ideia, de estar enamorado por algo. Assim, “quando estamos enamorados, trata-se de uma ideia e isso é o que garante a continuidade desse amor. Para se opor ao mundo contemporâneo pode-se atuar na política, mas estar cativado completamente por uma obra de arte ou estar profundamente enamorado é como uma rebelião secreta e pessoal contra o mundo contemporâneo.”

E aqui, estas três formas de arte começam a dar as mãos. Mariana esteve sempre envolta em uma procura desafortunada, pois “se até no livro, mesmo sabendo quem está procurando, nunca consegue encontrar o "Wally" na cidade, imagina encontrar alguém na cidade de verdade, sem nem saber quem está procurando.” Martin buscava, distraído entre a internet e as fotos da cidade, encontrar-se a si mesmo, talvez na face de um outrem real fora dos sites que criava. Badiou sustenta uma saída não convencional para o caos da sociedade que tudo consome: enamorar-se. Pois estar enamorado é não estar à venda, é se furtar ao holofote mais aceso, é desviar o olhar para o rio, é não ver a cidade, os cubículos em que ela nos transforma, conforma. Gessinger propõe em sua belíssima canção 3x4, que só vale a pena aquilo que é inevitável, “o que não dá pra evitar e não se pode escolher”.

Tudo isso está inserido no enredo do filme que tem como título “Medianeras”, palavra que foi traduzida pelo diretor a partir do seu olhar próprio sobre Buenos Aires. Medianeras, como as partes dos prédios que não têm nenhum sentido e que quase sempre são utilizadas como local de venda de anúncios. Local inóspito e sem vida, que compõe a paisagem da cidade habitada pela desordem exterior diametralmente parelha com a interior. Nesse sentido, o fato dos personagens Mariana e Martin, subverterem a “ordem” das construções e abrirem janelas em seus cubículos, traz o sopro de vida que o inevitável precisa para submergir. Os raios de sol apontam a possibilidade de o novo habitar o cinza de sempre. Da primavera. Do extra, do não ordinário colorir seus olhos e ouvidos. Essa atitude de rebeldia talvez seja o que antecede o inesperado, que não se pode prever, mas que se pode estar sensível para receber. Sem luz, como simbolizado no filme, os olhares não se podem entrecruzar, e a vida parece uma des-ordem sucessiva e disforme de fatos que sucedem os outros infinitamente. E a cidade parece sem vida e sem nenhuma cor. Conformada.

Daí que imaginamos esses enredos a se encontrar. Pois o cantor propõe um enlace a partir daquilo que não fora projetado, assim como a Buenos Aires do filme também não fora. Assim como Mariana não poderia prever que o Wally na cidade seria tão difícil encontrar. Assim como Martin não pudera prever que não captaria o que procurava com sua lente. Do contrário, ele seria capturado pelo inevitável que sempre foi a procura de Mariana. A procura por algo que fizesse sentido e a retirasse da vitrine, algo pelo qual ela pudesse se enamorar, algo que a fizesse encontrar o “Wally na cidade”, nesse caso, inevitável, como o amor de Badiou, como a esposa de Humberto Gessinger, como a distração de Martin perante a excitação da cidade.

Bernardo G.B. Nogueira
Outono – Itabirito.  

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Tango

Tango

Além do tanto, de amor,
além do pranto, nasceste flor,
além do dia, noite sem dor,
além do frio, cadente astro em calor.

Além do sonho, vida e torpor,
além das cifras, improviso que passou,
além de mim, me passaste como que sonhou,
além das sombras, me levaste a escuridão.

Além do palco, foste poesia e canção,
além de toda magia, fizeste em mim, criação,
além de todas as notas, cantaste em mim, coração.

Além de todo o bailar, encantaste meus olhos em aparição,
além de toda a vida, fizeste de mim encenação,
além de todo o tango, bailaste em meu espírito, agora sou só paixão.

Bernardo G.B. Nogueira
Buenos Aires – tango e amor.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

En Tortoni

En Tortoni

Ah, belo Tortoni,
canto a ti, os melhores sabores,
canto a ti, seus fantasmas e dores,
canto a ti, fantasias, olhos encantadores.

Sinto aqui os mais antigos sentimentos,
encrostados no ar que emoldura movimentos,
sinto aqui toda a desfaçatez dos tempos,
em passado e presente, em futuro nos veremos.

Ah, velho Tortoni,
senhor das artes errantes,
maior que Buenos Aires, gigante.

Declaro aqui, entre vida pulsante,
poesia nascida, versos,
que fazem de mim seu amante.

Bernardo G.B. Nogueira
Café Tortoni - Buenos Aires
(poema a ser publicado na revista Buenos Aires Cultural - editada pelo Café)

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Ah, uma poesia em espanhol!

Ah, uma poesia em espanhol!

Queria muito ter escrito um poema na língua espanhola. É um jeito mais afetivo de encontrar-se com o outro, esse jeito apressado e carinhoso de dizer. Não estava em suas intenções escrevê-lo, mas uma mirada de olhos em meio à efusão de pessoas com sotaques variados acabou por criar uma vontade que não cabia em seu verbo maldito. Em sua boca fechada. Em seus olhos de procura.

Bastaria um dicionário e as coisas estariam resolvidas. O poeta estava agora entregue a um mar de leitores que se estendia para além da língua portuguesa que Camões cantou e Fernando Pessoa eternizou em suas criações. Contudo, ela não havia sido compartida em tantas bocas como o lastro do pensamento em língua dita por Garcia Marquez e poetada intensamente por Lope de Vega.

Por suposto, não há como medrar em intensidade se tal ou qual expressão alcança mais ou menos o coração. É certo apenas que a inquietude da língua espanhola, adocicada com um sem fim de afagos de timbres, acabara por despertar um sentimento ainda antes não presenciado. Como seria amar em língua espanhola? O poema que se queria escrito variava por entre a dúvida que empalidecera seu português bem escrito. Talvez a ideia da novidade, e, por conseguinte, da fugacidade do momento, pudessem explicar essa querência insistente. Mas, depois de averiguar o porão de seu espírito, acabara por encontrar um coração que pulsava agora em outra margem, outra língua.

Foi em dúvidas a bailar por entre sua tentativa que parecia corroer internamente como uma doença que mata sem avisar. Daí que outro sentimento aparecera, medo. Será que medo é sentido assim também em outra língua? Foram tantos os goles de uma bebida não portuguesa que as perguntas lhe apareciam como os raios do sol em um dia de verão, não no Rio de Janeiro, mas em solo de língua espanhola. Quantas questões, e o par de olhos já se havia ido embora. Sem um dizer, sem um querer. Apenas um afago sem sentido que tomou o leme de toda a sentimentalidade.

E se as rimas não conversarem? E se rimar em português for mais fácil porque a língua é mais presa? Mas seria Drummond um cara simples? Se fosse assim, como Florbela saira de Matozinhos para ganhar o mundo? Será que é por isso que não temos muitos filósofos em língua portuguesa? O alemão também é preso, aliás, ele não se solta em nenhuma ocasião! É, os amantes não são bons alemães, ou melhor, era para dizer o contrário, mas parece que está claro.

Clareza, essa palavra tão bendita em detrimento daquilo que é oculto. Como um irmão mais bem sucedido em face do outro intelectual e pobre. No entanto, com que autoridade essa clareza do português, que me explica tão claramente as coisas pode-se sobrepor à minha ignorância em face do espanhol? Já é outra questão que o próximo gole não me irá explicar, penso.

Daí que a vontade de escrever o poema em língua espanhola se via esvaindo à medida que me encontro com minhas tão queridas palavras em língua portuguesa. Saudade. Tomara que não seja aquele respeito que nossa história nos impõe normalmente o que está por trás desta trama que me deixa à vontade com a língua materna. Espero que não seja por lembrar dos nacionalistas enfadonhos que querem nos roubar a possibilidade de repensá-los e criar algo que os supere, mesmo que em língua portuguesa. E o português, não é belo? Sim, é belíssimo, sobretudo quando se dispõe dos mecanismos que des-aprendemos na escola. Como é bom se comunicar com um silêncio em português!

Acho que minha escrita em português está fincando longa. Depois dizem que as pessoas que escrevem nesta língua são prolixas. Aliás, que palavras feia essa tal de prolixa. A intenção era escrever um poema em língua espanhola, para armar – amar - com toda a pureza o sentimento que aquele par de olhos tornou. Mas de que serve a língua espanhola ou portuguesa? - se o amor não compor sem rimas a incerteza que o faz um deus?

O poema em espanhol não haverá! Não há conhecimento para tanto. Contudo, mesmo “depois que a festa acabou”, e que a língua espanhola não foi alcançada, farei fogueira do dicionário para cantar sob a luz de suas labaredas todos os amores que senti, sejam eles em língua portuguesa, sejam eles em silêncio de ignorância espanhola.

Bernardo G.B. Nogueira
Buenos Aires