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segunda-feira, 23 de julho de 2012

Viagem


Viagem

Na solidez do meu fim,
fica guardada toda a imaginação,
a cada repique dos sinos,
uma multidão se refaz sobre as estepes.

Malditas feito cegos no jardim
a colher as flores do esquecimento,
guardadas em caixas de nuvens,
feito céu que não se abriu,

qual casulo que não pariu.

Imaginadas em cirandas sem início,
fim ou meio,
cantigas para vistas sem receio,
espadas cravadas sob um claro devaneio.

Amanhecido de mim,
findou enquanto vivi,
em todas as labaredas criadas,
versos impuros e almas encurraladas.

Doce sabor do mistério,
de criatura que não foi criada,
do invisível na noite calada,
das frias montanhas,

da nossa doce escalada.

Bernardo G.B. Nogueira
Inverno – Conselheiro Lafaiete

Canção para embalar a leitura:
http://www.youtube.com/watch?v=TL_FEFMlzVY

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Do sonho que eu não sei


Do sonho que eu não sei

Hoje eu acordei sonhando,
a vida devia estar pulsando,
e não havia nada,
nada de significação.

O verbo desse sonho,
quero não,
as imagens sem contexto,
p’ra essas dou a mão.

É como se quisesse voltar ali,
sempre, de novo,
novo,
não uma contextualização.

Porque sonho é como visão,
daquela que sabemos,
tem menos paixão.

Do sonho que me acordou,
quero apenas saber o gosto,
do cheiro calmo e esquecido que me trouxe seu rosto.

Bernardo G.B. Nogueira
outono - Itabirito

terça-feira, 3 de abril de 2012

Da vida: o que não se pode saber




Da vida: o que não se pode saber


“Somos o que há de melhor
Somos o que dá pra fazer
O que não dá pra evitar
E não se pode escolher”
Humberto Gessinger

“Para se opor ao mundo contemporâneo pode-se atuar na política, mas estar cativado completamente por uma obra de arte ou estar profundamente enamorado é como uma rebelião secreta e pessoal contra o mundo contemporâneo.”
Alain Badiou, in,  Carta Capital 02/2012

Vamos mais uma vez ingressar nesses sentimentos que alguns filmes nos criam. Eu sempre estou a me referir a sentimentos quando escrevo sobre cinema. De um lado eu poderia pensar que é uma possibilidade de me furtar a críticas, pois estou a me referir a sentimentos, subjetividades, portanto. Contudo, de outro lado, menos que o receio da crítica, me sinto na obrigação de dizer assim. Sobretudo em dias em que as artes estão relegadas àquilo que delas faz a “Indústria Cultural” e, portanto, prefiro pensar que escrevo assim para me aliar a Badiou e me rebelar contra o status quo em que estamos imersos.

Bom, o filme que me desperta os olhos e o coração é “Medianeras - Buenos Aires na era do amor virtual”, de Gustavo Taretto. Ter a capital argentina como pano de fundo de uma filmagem já seria algo interessante por si só. Quando caminhamos por Buenos Aires somos transportados para um tempo que é contado pelas esquinas e cafés, pelas veredas e pela história sempre muito peculiar dos seus moradores. O fato dos argentinos terem se rendido ao estilo francês de construção e, de certa forma, também de relação com a cidade, faz com que a cidade seja já um cenário artístico. O cosmopolitismo de Buenos Aires confundido com o bairrismo portenho inaugura novos sentimentos e olhares a quem está por ali a sentir o cheiro dos cafés.

No entanto, não é esta Buenos Aires que o filme Medianeras retrata. O diretor capta de maneira extraordinária aquilo que não é visto pelos olhares comuns. Há uma leitura interessantíssima que conduz a uma reflexão sobre a cidade como espelho do interior humano. De certa forma, o diretor resgata o pensamento platônico acerca da organização da polis, que, para este filósofo – em proporção maior – se organizaria da mesma forma que o corpo humano.

Nesse sentido, a desordem com que a cidade cresce. A desfaçatez dos edifícios inertes e imensos. A longitude dos fios que entrelaçam relações escondidas pelo anonimato de uma sociedade que não desliga, mas que tem a sensação de estar sempre a dormir. Isso tudo está a serviço de expor o modo frenético e desalinhado com que estamos a nos relacionar. Arquitetura citadina como reflexo da arquitetura humana. Há ali, na cidade, um mar de pessoas que não escolhem sua existência e são medidas em acordo com os metros que conseguem manter para que possam se esconder da multidão lá fora. Multidão da qual têm notícia a todo momento, pelos blogs, faces, twitter e demais ferramentas de comunicação. Ferramentas. A própria nomenclatura diz a que se dão: facilitar a realização de algo, no entanto, como dizer que as relações humanas são fáceis e simplificáveis?

Esta face estranha de Buenos Aires causa uma sensação quase que claustrofóbica no expectador, uma vez que o diretor mostra que a cidade cresce sem o controle pretensamente querido pelos cidadãos. Cresce, e paradoxalmente sufoca os que nela habitam. A cidade que se vira de costas para o rio que a margeia e por aí segue uma via de crescimento antinatural. Que não aproveita o silêncio das águas do rio da Prata que de tão imenso, como diria Borges, parece nem se movimentar. Esse caos das construções, a vida virtual, mias real que o real, e a contingência dos desencontros e encontros, entremeados pela excitação da polis, são bons fios condutores para o desenvolvimento da trama.

As indagações existenciais são inevitáveis quando lançamos um olhar diferente e mais parcimonioso para qualquer objeto. Várias faces podem ser desveladas quando a pressa dos soslaios dá lugar à calmaria da admiração – palavra por certo mais romântica e adequada a uma vida menos robótica. Em Buenos Aires, há frases de Borges espalhas por muitas esquinas. Palavras que nos conduzem ao seu universo imagético. O autor de “Medianeras”, não se utilizou desse charme diretamente e nem mencionou a poesia que há no “castelhano” dos portenhos. Na película vimos uma outra face de Buenos Aires, mas, quase sem querer, de maneira inevitável, a cidade não consegue deixar esse romance inato escapar. Por isso, por entender que há algo de inevitável entre os excessos de construções, angústias, solidão e vida virtual,  nos propusemos aqui relacionar o filme a uma fala de Badiou e a uma canção de Humberto Gessinger.

Vamos a esses pensamentos ou sentimentos.

Há no filme dois personagens muito interessantes: Martin (Javier Drolas) e Mariana (Pilar López de Ayala). Eles moram na mesma rua e em prédios vizinhos. Cruzam-se em alguns momentos, mas nunca se encontram. A cidade os direciona, ora para um encontro, ora para o desencontro. Seguem, cada um sua vida, sem ter lá muito direcionamento. Ele, um produtor de sites que tenta se curar de uma fobia. Fobia do encontro com o outro. Por isso começa a fotografar a cidade. Uma forma de se relacionar novamente com as pessoas. Ela, uma arquiteta malsucedida que por enquanto trabalha montado vitrines. Cada um a sua maneira faz reflexo dos vultos que a polis cria no homem pós-moderno.

Martin se relaciona com o mundo pela internet, desde sexo até comida pronta, tudo por ali. A realidade dele é a sua ferramenta de trabalho. Forma e conteúdo se confundem. Mariana vive de maneira irreal com seus manequins. Há uma relação bastante intrigante entre ela e os manequins e entre Martin e a internet. Nenhum dos dois pessoas muito bem adaptadas. Ela tem fobia de elevadores, isto em uma cidade que cresce verticalmente torna as coisas ainda mais difíceis. Ele, abandonado pela namorada que retorna ao Estados Unidos, vive com fobia das pessoas. Isso em uma cidade que cresce sem medidas, também não ajuda muito. Ela transa com os manequins, ele com uma mulher qualquer na net. Ela escuta a música que o vizinho toca ao piano. Ele escuta uma de suas milhares músicas “baixadas” pela internet. Ela fuma cigarros enquanto se confunde com as vitrines. Ele fotografa pessoas enquanto não se confunde com nada.

Duas vidas parecidas. Absorvidas pelo frenesi da cidade e dos prédios em que vivem. Das relações fugazes. Dos abraços sem aperto. Dos cafés descafeinados. Do leite pasteurizado. Do outro sem face. Do sorriso comprado. Confundem-se entre a vida real e o personagem que encarnam para sobreviver. Nas fotos, Martin recupera a vida das pessoas. Em suas vitrines, Mariana tenta encontrar um espaço que lhe dê sentido.

Encontrar. Desencontrar. Viver. Sobreviver. Esses verbos de alguma forma nos encaminham para o enlace que gostaria de fazer em relação a Badiou e Gessinger. Na entrevista que o francês concedeu à Carta Capital, nos incitou a criar sentido para a vida a partir de uma ideia. Pois só a partir dela é que poderíamos estar de maneira autêntica no mundo. Portar-se de forma tal que sua vida tenha um sentido criado por si e não meramente dado e obrigado, como uma imposição. A ideia é aquilo que não pode ser quantificado. Que não pode ser medido pela matemática opressora da vida na cidade. Essa possibilidade, em acordo com o autor, se dá no reino da criação, da ideia, de estar enamorado por algo. Assim, “quando estamos enamorados, trata-se de uma ideia e isso é o que garante a continuidade desse amor. Para se opor ao mundo contemporâneo pode-se atuar na política, mas estar cativado completamente por uma obra de arte ou estar profundamente enamorado é como uma rebelião secreta e pessoal contra o mundo contemporâneo.”

E aqui, estas três formas de arte começam a dar as mãos. Mariana esteve sempre envolta em uma procura desafortunada, pois “se até no livro, mesmo sabendo quem está procurando, nunca consegue encontrar o "Wally" na cidade, imagina encontrar alguém na cidade de verdade, sem nem saber quem está procurando.” Martin buscava, distraído entre a internet e as fotos da cidade, encontrar-se a si mesmo, talvez na face de um outrem real fora dos sites que criava. Badiou sustenta uma saída não convencional para o caos da sociedade que tudo consome: enamorar-se. Pois estar enamorado é não estar à venda, é se furtar ao holofote mais aceso, é desviar o olhar para o rio, é não ver a cidade, os cubículos em que ela nos transforma, conforma. Gessinger propõe em sua belíssima canção 3x4, que só vale a pena aquilo que é inevitável, “o que não dá pra evitar e não se pode escolher”.

Tudo isso está inserido no enredo do filme que tem como título “Medianeras”, palavra que foi traduzida pelo diretor a partir do seu olhar próprio sobre Buenos Aires. Medianeras, como as partes dos prédios que não têm nenhum sentido e que quase sempre são utilizadas como local de venda de anúncios. Local inóspito e sem vida, que compõe a paisagem da cidade habitada pela desordem exterior diametralmente parelha com a interior. Nesse sentido, o fato dos personagens Mariana e Martin, subverterem a “ordem” das construções e abrirem janelas em seus cubículos, traz o sopro de vida que o inevitável precisa para submergir. Os raios de sol apontam a possibilidade de o novo habitar o cinza de sempre. Da primavera. Do extra, do não ordinário colorir seus olhos e ouvidos. Essa atitude de rebeldia talvez seja o que antecede o inesperado, que não se pode prever, mas que se pode estar sensível para receber. Sem luz, como simbolizado no filme, os olhares não se podem entrecruzar, e a vida parece uma des-ordem sucessiva e disforme de fatos que sucedem os outros infinitamente. E a cidade parece sem vida e sem nenhuma cor. Conformada.

Daí que imaginamos esses enredos a se encontrar. Pois o cantor propõe um enlace a partir daquilo que não fora projetado, assim como a Buenos Aires do filme também não fora. Assim como Mariana não poderia prever que o Wally na cidade seria tão difícil encontrar. Assim como Martin não pudera prever que não captaria o que procurava com sua lente. Do contrário, ele seria capturado pelo inevitável que sempre foi a procura de Mariana. A procura por algo que fizesse sentido e a retirasse da vitrine, algo pelo qual ela pudesse se enamorar, algo que a fizesse encontrar o “Wally na cidade”, nesse caso, inevitável, como o amor de Badiou, como a esposa de Humberto Gessinger, como a distração de Martin perante a excitação da cidade.

Bernardo G.B. Nogueira
Outono – Itabirito.  

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Para que não se esqueça de mim...

Para que não se esqueça de mim,

pinto em seus olhos, cor de jasmim,
debruço em seu seio, tarde sem fim,
feitiço de magia, fantasia de mim,
som de canção a despertar do sonho,
refaço o tempo, para nele encontrar-me a ti,
modelo a morte, para uma vida por si,
me encontro com a noite, para um dia que vivi,
escrevo sua história, em imaginário de deus,
invado seu delírio e o sonho para mim,
recrio sua origem, para que renasça em mim,
me confundo consigo, para uma unidade e um fim.

Bernardo G.B. Nogueira
Conselheiro Lafaiete

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Depois

Depois

depois podemos pisar no mato,
depois podemos deitar no ar,
depois podemos voar no deserto,
depois podemos olhar a chuva,
depois podemos tocar na noite,
depois podemos soltar as mãos,
depois podemos fechar os olhos,
depois podemos acariciar o traço,
depois podemos beijar as gotas,
depois podemos cantar aos deuses,
depois podemos derramar o vinho,
depois podemos despertar o dia,
depois podemos derramar a tinta,
depois podemos esquecer os sonhos,
...
mas só depois, porque agora só podemos amar.

Bernardo G.B. Nogueira

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Dividir a lua

Dividir a lua

Mãos dadas a sorver o amanhecer,
porque sem partilhar não é amor,
porque sem entrega o olhar não há ardor,
pois em cada aurora é preciso alvorecer.

A boca amainada e deixo meu peito entreter,
toque aveludado qual um vinho demorado,
corpo entregue, traço lindo e enamorado,
vento torpe cheiro longe de mata a arder.

Sonhos vívidos com tons cor de lírio,
campos leves voz tocada em mi menor,
almas cadentes pingos de sol em desvario.

D’uma noite despedida ornada e bendita,
miradas intensas doação entrega e chegada,
partilha da lua, vida e madrugada amanhecida.

Bernardo G.B. Nogueira
Conselheiro Lafaiete

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

E se foi...em forma de poema, como uma dança...

pedaços, traços e desencanto

Mais um pedaço meu pelo ar,
as suas asas cresceram no pomar lá de casa.
Tinham um pólen risonho,
uma ciranda e um sonho.

Ele se foi de mim como vai a manhã,
com luz, cheiro e sol.
Não tinha nome e nem olhou para trás,
só um rasgo em meus olhos de criança.

De mãos dadas com um gosto, lembrança,
daquelas que aos olhos toma em andanças,
passos leves, passos de dança,
e as folhas então voaram, esperança.

E se foi aquele primeiro pedaço,
acompanhado, abraçado por outros tantos,
que com pés descalços, em meu regaço ia catando,
e já era só um sonhar, sonho de amar, pedaços, traços e desencanto.

Bernardo G.B. Nogueira
Pontes Novas de andanças...