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sexta-feira, 26 de julho de 2013

vivo



vivo

tenho ainda que dar conta da poesia em mim,
dai fico esvaído de circunstâncias,
prendido há uma sonhação,
nem de longe parece que é sonho,
pertinho sinto mesmo a palpitação,
movem-se cores que pintam quadros infinitos,
pra depois me esquecer dessa paisagem,
tocar outro canto,
é sempre assim quando acordo,
as noites viraram um azul estranho e difícil de olhar,
é no meio do verso que encontro a face viva,
virando as páginas,
deixando mudas as lágrimas...

B.

domingo, 31 de março de 2013

cuidado com a idade



cuidado com a idade

casa na árvore,
missão impossível,
beijo roubado,
frio na barriga,
chocolates e chocolates,
namoro pra sempre,
passar a noite acordado,
escrever no papel,
                            poesia,
mudar a estória,
inventar o heroi,
ser o heroi,
morrer pela moça,
caçar no escuro,
correr pela chuva,
chorar escondido,
fingir que é homem,
amar uma musa,
dormir de mãos dadas,
sonhar com gigantes,
matar os moinhos,
amar
e
sonhar...

B.

Agora você saberá de tudo...



Agora você saberá de tudo...


É realmente uma violência a necessidade de escrever um texto coerente quando percebemos a incoerência que estamos envolvidos enquanto humanos. O filme, “Uma canção de amor para Bobby Long”, de Shainee Gabel,  me fez lembrar Belchior quando se declara “muito jovem pra morrer, e velho pro rock'n roll!”. De fato, e inevitavelmente, uma reflexão sobre o tempo, nossa relação com ele e as circunstâncias que porventura envolvem olhar pra trás. Há também em meio a esse filme uma boa cadência para pensarmos sobre o amor, nossa parca condição de senti-lo e pior ainda, a tragédia que é quando percebemos que a única saída teria sido ele, mesmo que não dê mais tempo.

Nessa película há a magia musical de New Orleans, suas fantasias, suas estrelas decadentes e seus sonhos. Há também uma inevitável literatura que é a veia do filme. No entanto, o que mais toma nosso sentimento é a verdade com que a literatura nos revela e a menoridade com que a encaramos. Dizer que há distância entre a realidade e a literatura é viver de olhos bem fechados, alias, é quase não viver. Uma morte que respira talvez.

Assim, a frase que nos\toma é uma só: “Como podemos ver a nossa vida passar por uma tela e ficarmos ao mesmo tempo assistindo?” Nesse instante, é necessário lembrar o que é dito sobre Long e entender a diferença entre existências que são escritas por si e existências que simplesmente se deixam escrever, inertes e mortas. Bobby Long atravessou a vida dentro de um livro imaginário. Livro que ele compunha a cada gole a mais e a cada atitude malfadada. Quase um herói trágico, que sabedor de sua tragédia, se entrega a ela para cumprir sua vida.

O que é instigante é a forma como isso se dá. Ou seja, por mais que de alguma forma o cenário se mostre decadente em relação aos padrões informados nos dias de hoje, que são tempos tristes, tempos em que  as pessoas querem se curar de suas fantasias e não percebem que isto é a única forma de em algum momento elas poderem contar sua história. Tempos em que a entrega é permeada por regras e modelos, e por isso mesmo não existem entregas, não existem histórias. Não existe vida com literatura.

Long escreveu sua poesia. Entre versos viveu sua tragédia. E entre o ocaso da vida e a certeza da morte, restou um pouco de si. Quis mais uma dose e quis citar mais um escritor. Os livros, em alguma medida, guardam a verdade inscrita da face mais humana, mais terrível e a mais poética também. Assim, ao ver-se numa vida que é narrada por escritores, e o pior, crer nela, parece quase uma profissão de fé, ingênua e linda como uma criança. Negar uma sabedoria asséptica é outro mote que nos toma nesse filme. Porque saber por saber, é como disse o poetinha: “é como amar uma mulher só bela, e daí?” De verdade mesmo é viver essa fantasia. Realmente, Long nos dá bastantes lições existenciais. Sobre a finitude, o infinito, e com se portar quando as imposições artificiais perdem para o amor.

As mazelas virão. Mas as estações são assim também. Da mesma forma como um capítulo sucede o outro. E assim é a vida também, mesmo que tenhamos regras a priori a dizer-nos como, quando e por que. Acreditar na fantasia de um livro é sim sair da realidade. Sair de uma realidade imposta e impostora. Pois não há nada mais que nossa imaginação do que ela de fato é. Invenção, como autor de uma literatura, como compositor de uma canção ou como poeta de um verso.

A ciranda da vida quis que Long deixasse esse tempo. Assim como todos os outros pecadores um dia deixarão. No entanto, se “o coração é um caçador solitário”, quiçá nos livros ele encontrará algo, penso que não. Long então estaria equivocado ao utilizar-se de tantas citações. Mas de outro lado, penso que a história não vai bem por aí. As citações incessantes eram apenas um aporte para aquilo que estava a construir a cada passo, a cada deslize, cada pranto e cada decepção. Escrevia com sua errância o livro de sua vida, e como fora uma vida de verdade sem cortes e sem cenas dignas de narrativas espetaculares, precisava citar, pois entendemos o que fazemos só depois que olhamos pra trás, e se acaso nossa fantasia não se realizar, não enxergamos nada. Salvo se alguém cantar “uma canção de amor para Bobby Long”.

quinta-feira, 21 de março de 2013

ode a Marinaleda...



ode a Marinaleda...

para que o sonho não seja sonho,
para que o mundo não seja imundo,
para que a certeza não vença a criação,
para que o cinza não descolora a flor,
para que o dia não seja apenas pós noite,
para que o caminho possa ser desviado,
para que a reta seja invertida,
para que haja sempre nova investida,
para que o tempo não fique no relógio,
para que o acorde não seja escolhido,
para que o poema não tenha rima,
para que o gênero seja não,
para que a opção seja real,
para que o trabalho dê o pão,
para que amanhã não seja outro dia,
para que a invenção seja bendita,
para que o horizonte acolha a vida,
para que a diferença voe bandida,
para que não haja tanto contrato, tanta dívida,
para que tenha menos compromisso,
para que as pétalas caiam sobre a vida,
para que ocupemos a terra esquecida,
para que plantemos sementes divididas,
para que lutemos pelo sangue compartido,
para que a realidade seja de verdade,
escolha sincera e não fábula mentida...

B.

domingo, 17 de março de 2013

Viver é invenção



Viver é invenção

“Hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamás”
Che

Dentre a infinitude de variáveis que constituem a ontologia do humano, uma das mais aprazíveis, sem dúvida, é a inconstante da imaginação. As crianças têm nessa realidade fantástica da imaginação seu local natural de vivência. A existência da criança é constituída por um mundo sempre inventado, incessantemente novo, a cada piscada, a cada nova descoberta. Sobre essa realidade imaginária e seus desenvolvimentos se desenrola a trama de “Indomável Sonhadora”. Filme que trouxe como atriz principal uma talentosíssima criança (Quvenzhané Wallis), que dentro de um cenário com fotografias que oscilam entre o selvagem e o belo, narra uma estória de fantasia e resistência, imaginação e autenticidade. Um realismo fantástico, que mistura natureza e questões existenciais, contribui para aumentar a carga reflexiva trazida no filme.

Esses são os elementos que o filme do jovem diretor (Benh Zeitlin) nos leva a refletir. Hushpuppy, a personagem principal, vive com seu pai Wink (Dwight Henry) de maneira pobre, hostil, suja, com hábitos praticamente selvagens e uma constante lembrança da mãe que desaparece de maneira inexplicável e deixa na memória da criança um espaço aberto para construções fantasiosas. A dificuldade para suportar as investidas da natureza contra o solo em que vivem, o amor pela terra, o amor e a vontade de se inscreverem na história, criam uma existência trágica para os dois.

De alguma forma podemos reconhecer no filme um pouco dos elementos dionisíacos que compõem o trágico para o filósofo Nietzsche, ora, a selvageria, a inevitabilidade, a agressividade e as entranhas do humano são momentos trazidos para dentro do expectador. A face mais despida da existência é mostrada nas relações do pai com a filha. A maneira como enxergam a sua condição e a maneira como reagem a ela, parece-nos exatamente a força que move o dionisíaco, aquilo que não é controlado e nem pode ser formatado. Os dois não abandonam o local hostil em que vivem. Essa seria a tragédia de sua existência, mas, ao mesmo tempo, uma única forma de estar no mundo. O herói trágico é aquele que caminha para sua destruição. Quando o pai não abandona a “banheira”, mesmo sob a possibilidade de perecer ali, mostra autenticidade, mostra vontade de inscrever-se, mostra disposição para a vida, e também para a morte. Mostra, portanto, que é vida o que é inevitável.

A relação direta da criança com a natureza, simbolizada em suas falas com os animais, nos faz pensar necessariamente como as trocas humanas que hoje se tornaram deveras plastificadas, quase irreais, cada vez mais formais, distantes da tragédia que é a aventura do homem. Distantes da imaginação, distantes, portanto, do real. Assim, Hushpuppy nos carrega por um mundo seu: lindo e aterrorizante, de amor, de ódio e de saudade. Mostra o quão rasos tornamo-nos quando deixamos de sonhar. O quão pequenos e medrosos quando deixamos de lutar. E o mais interessante, mistura em seus olhos, a leveza da criança e a fortaleza para viver em sua própria fantasia.

Assim, quando os dois se relacionam com o “mundo real”, afastado de sua realidade fantástica, a criança descobre um mundo em que “quando as pessoas ficam doentes são ligadas na parede”. Aliás, essa fala é uma das que simboliza as reflexões que quisemos trazer aqui. Em primeiro a criança, livre de todo o peso da idade adulta, cria sem peias, portanto, desloca-se de uma possível realidade imposta. Na verdade, quando ela e o pai opõem-se a deixar o local mesmo sob o risco de morrerem afogados pelas cheias, estão a inventar uma existência própria. O sonho de escreverem sua história e não serem escritos por ela. O sonho de não rendição, de oposição ao que supostamente seria o normal. Coisas de quem faz revolução. Coisa de quem imagina. Coisas de quem peleia pela vida, mas que “sente com inteligência e pensa com emoção”