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domingo, 31 de março de 2013

cuidado com a idade



cuidado com a idade

casa na árvore,
missão impossível,
beijo roubado,
frio na barriga,
chocolates e chocolates,
namoro pra sempre,
passar a noite acordado,
escrever no papel,
                            poesia,
mudar a estória,
inventar o heroi,
ser o heroi,
morrer pela moça,
caçar no escuro,
correr pela chuva,
chorar escondido,
fingir que é homem,
amar uma musa,
dormir de mãos dadas,
sonhar com gigantes,
matar os moinhos,
amar
e
sonhar...

B.

sábado, 3 de março de 2012

Paisagens


Paisagens

Quando encontrei aquele velho pela primeira vez, nem mesmo percebi a cor de suas rugas. A estrada que escorria por entre nossos olhares retirou uma provável aproximação. Foi apenas um momento como todos esses que corriqueiramente nos envolvemos sem querer. Sem intenção. O velho olhou e eu também. A direção dos nossos olhares é que fez com que encontrássemos. Mas o calor que derretia a estrada não permitiu que dialogássemos.

A próxima esquina. Aquela mesma esquina que já era minha velha conhecida tornara-se mais distante e desconhecida. Quanto paradoxo significa dizer que uma esquina velha conhecida se torna desconhecida. Até cumprimentei o senhor que tocava flauta sempre naquela mesma esquina. Mas me parece que ele mudou o tom. Por um momento penso que esse problema que acomete as pessoas distraídas havia tomado conta de mim. Será que aquela esquina conhecida também havia sido transformada pelo calor que derretia a estrada que não permitiu o diálogo com o velho de olhar enrugado e sem cor?

Procurei não olhar para trás. Mas por mais que não mirasse o horizonte que restava, por dentro havia um cheiro do que vivi. Esse odor me transportava para a esquina conhecida e todos os maus e bons agouros que nela já vivi. Os meus passos se confundiam com o excesso de rimas dentro das minhas lembranças. Talvez devesse pausar para um café e tentar escrevinhar alguma coisa. Essa forma de terapia não cobra um aperto de mãos e um pagamento ao fim da sessão. Simplesmente posso jogar o papel no lixo. Simples como esquecer uma canção sem sentimento. Insignificante como dormir em noite sem sonho e luar.

Hesitei como um palhaço sem graça. O palco se transformou em um turbilhão de palavras imediatas e o velho sumiu de minha vista. É claro que não olhei para trás. Apenas imaginei o velho e suas rugas a se distanciarem do meu olhar interrogador e perdido entre uma esquina velha conhecida e os antigos sentimentos e cheiros desconhecidos. Todos guardados em uma caixa de coisas inéditas. Essa caixa é difícil de compreender. Assim como o olhar derretido do velho. Assim como a rua enrugada que atravesso todos os dias, mas que hoje em dia não reconheço.

Entre a fumaça do cigarro e nada, a nostalgia da esquina. Não interrompi a caminhada e quanto mais ao longe me perdia entre as pessoas, mais perto do velho eu me tornava. Despedi-me do porteiro do hotel que sempre acendia meu cigarro. Ele sempre dizia que era uma honra poder servir. Nunca entendi essa frase. Eu só queria fumar. Ele só queria acender o cigarro. Mas os olhos dele nunca acompanhavam o lume do isqueiro. Pareciam mais preocupados com a direção da fumaça. Logo que ele acendia meu cigarro, acendia também o seu. Nossas fumaças se encontravam. Eu me despedia dele.

Quando dobrei a esquina derretida pelo calor, o velho estava deitado sobre a calçada que ainda não se havia derretido. Havia um toldo a lhe cobrir do sol. Penso que ele estava à minha espera. Minha e do sol. Por certo não queria se derreter. A paisagem se transmutara e o velho já se havia incorporado à estrada disforme e à esquina conhecida.
Olhei meus olhos pelo espelho do café que já também era parte da paisagem. Nada de mais. Eram apenas meus olhos. Sem rugas. O velho, contudo, mantinha-se enrugado e sereno a me observar. A rua continuava a se derreter por causa do calor. Daqui a pouco o velho poderia descer como lava pela estrada, eu também. Caminhei apressadamente para não me confundir com aquela paisagem estranha. O velho me chamou pelo nome. Não olhei pra trás. Não queria olhar para nenhum espelho.

Bernardo G.B. Nogueira
Conselheiro Lafaiete – 26/02/2012

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Não estava ali


Não estava ali

Sempre eram tardes de luz povoadas de raios e sol. Um fel escorria do peito do homem que não queria morrer. Apenas uma vontade de estar ali e não perder nem um dos traços da mulher que acenava com a mão e que tinha sempre os cabelos presos em jeito de menina. O dom de olhar p’ra trás assolava seus olhares futuros. Tal qual som de harpas antigas, eram os flertes com que conseguia respirar, nem ousava falar alto. Isso para não acordar as ninfas que escreviam a história com acordes alucinantes.

Do outro lado da rua também havia uma outra espécie de vida. Até parecia que os raios daquele sol eram os mesmo para todos, assim como as gotas da chuva e o mato que esvoaça com o vento. Mas na outra margem, a mulher tinha os cabelos soltos e havia até um sorriso, sem nenhum vestígio de melancolia ou vontade de passado. Quanta vida há escondida por trás daqueles que não sorriem. O marido da mulher que tem os cabelos soltos sempre acaba de chegar. É prudente não observar seus cabelos quando ele chega. O homem sequer olha para os cabelos dela, tampouco meus olhos de cor desbotada.

As crianças que assoviam canções mentirosas eram a realidade mais bonita deste regaço. Seus pinotes em direção a qualquer coisa não podiam ser entendidos nem pelo homem que chega afoito do trabalho, nem pela mulher que só olha para o futuro e mantém sempre o cabelos soltos. Ficam sempre presos pelo sol que não chega a dormir. Enquanto ele está alto no céu a vida nem corre. O vizinho joga o lixo fora e com ele todas as coisas que não ousou criar. A vida dele devia ser bem organizada.

Há também um homem que tem sempre as janelas abertas e olha para o presente. Parece que suas mãos não se cansam de agradecer seu dom de trabalhar incessantemente - com ou sem sol. Parece que ele não vê nenhum estranhamento entre as mulheres da rua. Uma com os cabelos soltos, a outra com os cabelos sempre presos. Ele não as observa por detrás das máquinas com as quais dialoga todos os dias. Dia e noite. Desce as escadas olhando com um sorriso cor de certeza. Quase mentiroso. Ele não escuta os pinotes das crianças. Ele vive no presente.

Em um momento o casal de idosos parece entrever todos os acontecimentos da rua. Eles nunca se surpreendem e sempre têm frases do tipo – “A vida é assim mesmo. – Quando crescerem, em outro tempo, irão mudar de atitude.” E isso lhes confere um grande crédito em relação aos olhares – tanto da mulher sempre com os cabelos soltos, como daquela que tem os cabelos sempre presos. O marido da mulher com o cabelo solto não sabe da existência dos velhos. As crianças fazem troça da calmaria deles. Mas eles olham para um direção que ainda não consegui descobrir. Os olhos deles pareciam não ter fim.

Depois de sentir todos esses olhos, fiquei preso no muro que divisa minha casa e a rua. Meu olhar saia de dentro de minha imaginação. Olhar para trás era uma forma de buscar inspiração para a próxima paisagem que eu criaria dentro de minhas fantasias. Todas aquelas ações eu precisei inventar, pois nunca morei naquela rua e nunca conheci aquelas pessoas. Só precisava ver algo, do passado, do futuro e do presente, talvez. Mas minha casa nem sequer tem muro. 

Bernardo G.B. Nogueira
Itabirito – 18/02/2012