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quarta-feira, 31 de julho de 2013

reminiscer

reminiscer

sempre se vai,
em voltas a locais passados,
passamos por eles,
e passar é trilha,
olhar pra trás é inventar o que se foi
não olhar é viver de afugento
tornar a caminhar é novo,
novo velho passo,
cansado de não ver
e de ver também,
filme antigo de cores novas
cores velhas e nova calçada,
sob a janela o sol continua a sair
e volta novo
mas sempre sol
depois que se ama é sempre regresso.

B.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

destino



E o destino se realizou
como de há muito havia avisado
sentado ali
à beira do passado
suicidou-se num futuro
cada um pr’um lado
na hora acertada,
vida é desviar-se...

B.
sem a hora no outono

domingo, 5 de maio de 2013

caminho



caminho

há que procurar,
da manhã ao fim da tarde,
sem pausa ou descanso,
até o fim, traduza-se,
seduza,
encontre o escuro,
ao fim, toque o abismo,
ao início, se jogue,
e quando as mãos se perderem,
pela noite toque meu corpo,
há que procurar...

B.
outono.

sábado, 8 de setembro de 2012

Sair de um lugar...

Sair de um lugar...

Sei que me deixaste ali,
com o sol, o vento, e a fumaça,
roto em sentimento, mas esperaste,
na forma do trilho sem fim, ali.

Com rota a ermo,
frio e calorento,
sentinela sem tormento,
dormente feito incenso.

Saido de minha paz,
esquecido de minha voz,
machucado e sem foz.

Uma faca modelou a face, ali,
despedida em semblante sem sombra,
antes que a estação partiste, ali.

Bernardo G.B. Nogueira
BH - inverno

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Adeus


Adeus

E agora o que vou fazer?
se há tanta distância entre seu inverno e meu outono,
métricas perdidas, passado no forno,
estrada inscrita em minha pele sem prazer.

Como vou ferver?
Se o toque da sua flor não encanta,
se a pétala de sua rosa decanta
e depois do gole que não faz derreter.

Se a face de sua boca me cala,
enquanto meu corpo reclama,
feito mar sem ressaca.

Enquanto trilha que não clama,
depois dum olhar que não sufoca,
resta a pele, que não é mais minha alma.

Bernardo G.B. Nogueira – inverno
Ponte Nova

terça-feira, 24 de julho de 2012

Por entre vias


Por entre vias

Escrever seria a salvação,
intenso retorno aos princípios,
extensos domínios feito precipícios,
eternos os destinos daquela noite, uma canção.

Às voltas com o acaso,
qual amantes em praças,
descompasso, riso, graças,
em um mar interno com quem me caso.

E de todas as selvas que me despeço
retorno suspeito de saudade,
vão sem dono, espaço e criação.

Nada há o que temer,
nem é preciso dar a mão,
meus olhos se me guiam ao seu coração.

Bernardo G.B. Nogueira
Inverno – Conselheiro Lafaiete.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

ando

ando

de costas para a vida,
vê-la não me convém,
detém meu peito a partida,
dela quero o mel,
não quero a medida
do inferno  e das coisas benditas
indiscutidas,
verdadeiras feito o sol da madrugada,
qual amor em tempo de fachadas,
qual frio em dia ensolarado.

Quero o céu e a esquina, que cria
em cada olhar e em toda trilha,
como fruto de fantasias,
real, esculpida na face do não,
contra a classe e a multidão,
esquivo do tempo e da maldição,
de olhar pra trás...

olhar pra trás!
ollhar pra trás!

Bernardo G.B. Nogueira
BH - inverno

sábado, 3 de março de 2012

Paisagens


Paisagens

Quando encontrei aquele velho pela primeira vez, nem mesmo percebi a cor de suas rugas. A estrada que escorria por entre nossos olhares retirou uma provável aproximação. Foi apenas um momento como todos esses que corriqueiramente nos envolvemos sem querer. Sem intenção. O velho olhou e eu também. A direção dos nossos olhares é que fez com que encontrássemos. Mas o calor que derretia a estrada não permitiu que dialogássemos.

A próxima esquina. Aquela mesma esquina que já era minha velha conhecida tornara-se mais distante e desconhecida. Quanto paradoxo significa dizer que uma esquina velha conhecida se torna desconhecida. Até cumprimentei o senhor que tocava flauta sempre naquela mesma esquina. Mas me parece que ele mudou o tom. Por um momento penso que esse problema que acomete as pessoas distraídas havia tomado conta de mim. Será que aquela esquina conhecida também havia sido transformada pelo calor que derretia a estrada que não permitiu o diálogo com o velho de olhar enrugado e sem cor?

Procurei não olhar para trás. Mas por mais que não mirasse o horizonte que restava, por dentro havia um cheiro do que vivi. Esse odor me transportava para a esquina conhecida e todos os maus e bons agouros que nela já vivi. Os meus passos se confundiam com o excesso de rimas dentro das minhas lembranças. Talvez devesse pausar para um café e tentar escrevinhar alguma coisa. Essa forma de terapia não cobra um aperto de mãos e um pagamento ao fim da sessão. Simplesmente posso jogar o papel no lixo. Simples como esquecer uma canção sem sentimento. Insignificante como dormir em noite sem sonho e luar.

Hesitei como um palhaço sem graça. O palco se transformou em um turbilhão de palavras imediatas e o velho sumiu de minha vista. É claro que não olhei para trás. Apenas imaginei o velho e suas rugas a se distanciarem do meu olhar interrogador e perdido entre uma esquina velha conhecida e os antigos sentimentos e cheiros desconhecidos. Todos guardados em uma caixa de coisas inéditas. Essa caixa é difícil de compreender. Assim como o olhar derretido do velho. Assim como a rua enrugada que atravesso todos os dias, mas que hoje em dia não reconheço.

Entre a fumaça do cigarro e nada, a nostalgia da esquina. Não interrompi a caminhada e quanto mais ao longe me perdia entre as pessoas, mais perto do velho eu me tornava. Despedi-me do porteiro do hotel que sempre acendia meu cigarro. Ele sempre dizia que era uma honra poder servir. Nunca entendi essa frase. Eu só queria fumar. Ele só queria acender o cigarro. Mas os olhos dele nunca acompanhavam o lume do isqueiro. Pareciam mais preocupados com a direção da fumaça. Logo que ele acendia meu cigarro, acendia também o seu. Nossas fumaças se encontravam. Eu me despedia dele.

Quando dobrei a esquina derretida pelo calor, o velho estava deitado sobre a calçada que ainda não se havia derretido. Havia um toldo a lhe cobrir do sol. Penso que ele estava à minha espera. Minha e do sol. Por certo não queria se derreter. A paisagem se transmutara e o velho já se havia incorporado à estrada disforme e à esquina conhecida.
Olhei meus olhos pelo espelho do café que já também era parte da paisagem. Nada de mais. Eram apenas meus olhos. Sem rugas. O velho, contudo, mantinha-se enrugado e sereno a me observar. A rua continuava a se derreter por causa do calor. Daqui a pouco o velho poderia descer como lava pela estrada, eu também. Caminhei apressadamente para não me confundir com aquela paisagem estranha. O velho me chamou pelo nome. Não olhei pra trás. Não queria olhar para nenhum espelho.

Bernardo G.B. Nogueira
Conselheiro Lafaiete – 26/02/2012