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quarta-feira, 17 de abril de 2013

canção sem tempo



canção sem tempo

vai-se deixando pelos minutos da estrada,
cada passo é um a menos,
outro mais a cantar,
de dó em ré,
dá-se uma valsa,
pra cantar em dias sem horas,
pra amar em passos namorados,
envoltos em um tempo só,
cantado em mi e fa,
esquecidos feito mar,
ditosos,
há tempos a profanar...

B.

quarta-feira, 27 de março de 2013

poema sem nome



poema sem nome

diga onde você rabiscou,
quais as ruas pisou,
aonde andou seu cheiro,
p’ra onde voaram seus olhos,
qual cor coloriu seu sonho,
de qual altura jogou seu pensamento,
em que noite sentiu calor,
qual tarde foi ao cinema,
qual chuva regou seu amor,
qual pele sentiu seu sorriso,
em qual estação esqueceu as malas,
pra qual jardim você cantou,
pra quem mentiu?
que dis nascerá?
morrerei também...

B.

sexta-feira, 27 de julho de 2012

(...


(...

Quantas vezes já se descuidou da rima?
Por quantos minutos se esqueceu da mira?
Em quais momentos se despediu da crença?
Qual foi o dia em que permitiu a dança?
Qual estrela foi sua criança?
Em qual esquina se perdeu?
Por quantas ruas não viu as placas?
Em qual guitarra mudou a nota?
Por quantos céus esqueceu a terra?
De quantas formas encenou o falso?
Qual a cor que criou uma nova?
De qual harmonia destoou?
Qual pintura já borrou?
Qual namoro inventou?
Quantos castelos derrubou?
Quantas verdades enfrentou?
Em qual segundo se apaixonou?
Qual olhar enfeitiçou?
Qual a frequência que inventou?
Quantos precipícios se lançou?
Sob qual carícia se entregou?
Sob qual arrepio se prostrou?
Por quanto mar se lançou?
Quantas garrafas entornou?
Quanto gozo arrancou?
Qual delírio salvou?
Qual vida?
Que morte?
Qual estrada?
Qual amor?

Epitáfio)

Bernardo G.B. Nogueira
Conselheiro Lafaiete - inverno.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Andança


Andança

Cheiro de mato. De todo aquele dia que foi quase noite restou o cheiro do mato. Havia uma figueira centenária, uma estrada com buracos e poeira. Pedaços da história do que virá. Como havia também pedaços da madeira que um dia já foi árvore, foi casa e é nada agora. A poeira encobria o caminho que era construído, a paisagem se confundia comigo. Meus olhos eram a natureza e a natureza era eu mesmo. Todos os pássaros que voavam sorriam para mim e informavam o rumo a ser encontrado.

Por cada vez que toquei aquele chão senti que uma nova vida brotava. Assim como em todas as partes daquele local a vida sussurrava aos nossos olhos. Dizia de uma canção que guiava nossos corpos para cima daquelas montanhas recheadas de sonhos. Recheio bom igual ao cheiro que partia do fogão movido a lenha. Fogão que também tinha uma história que se escrevia a cada estampido das lenhas queimadas. A lenha movia o fogo que esquentava a prosa e que trazia o café pronto.

Um menino cruzou nosso caminho com olhar que também tinha cor de mato. Ele riu, atravessou a estrada e se perdeu no mato que tinha a cor dos seus olhos. Acompanhava ele uma serenata de cigarras e sons de uma água que escorria pelo caminho que não sei se começava ou se acabava ali. Cruzamos o rio e deixamos o menino. Levamos seu riso e seu olhar. O mato ficou pra trás.

Ao subir a serra ficamos mais perto do sol e o quentume dele era igualzinho ao quentume que sentimos quando a avó abraça a gente. Abraço que também íamos dando na montanha ao subi-la. É uma maneira interessante de pensar os caminhos em volta das montanhas sentindo que a estamos abraçando. A relação fica mais gostosa, a viagem resta esquecida e depois é só amor com a montanha. Engraçado, por certo, ficar apaixonado por uma montanha, mas pior deve ser não amar nada nem ninguém. Fiquei apaixonado com aquela serra mesmo. Confesso.

Falando em amor, há também outra implicação nisso tudo. Eu não amei só a serra. Confesso. Assim que topei com o menino, eu acabei por me distrair e um regato que corria do outro lado da cerca me deixou apaixonado. Alimentava tudo ao seu redor e levava em seu corpo um pedaço novo de si mesmo. Não há como não se apaixonar por aquilo que cria em nosso coração um sentimento de leveza. Interrompi a caminhada e me entreguei àquele espelho d’água. Ficamos ali durante alguns minutos. O rio lindamente indiferente. Eu perdidamente apaixonado. Voltar ao caminho depois daquela relação de amor ficou mais real. Não trai a serra com o rio. Mesmo porque não me entendia cindido dele, nem dela.

Depois que a serra ficou pra trás o cheiro do café ficou mais intenso, e a chaminé que levava a fumaça branca embora, dizia que era hora de chegar. Chegar porque aqui ninguém avisa a hora. Porque não tem telefone. Menos ainda smartphone. Apeamos ao fim da tarde. O café estava à mesa. Tinham umas rosquinhas que o leite da vaca que estava ao meio da estrada havia fornecido. O riso do menino estava agora explicado. Ele sempre se servia ali naquela mesa. O rio ainda brandia lá fora dando continuidade ao seu curso infinito. Meus olhos se perderam adentro das palavras baixas que ebuliam de dentro da história da serra, do rio e da janela por onde todos os sonhos entravam em meus olhos. Janela que recebeu os raios do sol, as gotas do orvalho, a fumaça do fogão, e que recebia agora todo o cheiro que me criou, cheiro de vida, cheiro de mato.
Bernardo G.B. Nogueira
Inverno – Conselheiro Pena

Canção para ler o texto:
http://www.youtube.com/watch?v=O6CQsOI2qMg

sábado, 3 de março de 2012

Paisagens


Paisagens

Quando encontrei aquele velho pela primeira vez, nem mesmo percebi a cor de suas rugas. A estrada que escorria por entre nossos olhares retirou uma provável aproximação. Foi apenas um momento como todos esses que corriqueiramente nos envolvemos sem querer. Sem intenção. O velho olhou e eu também. A direção dos nossos olhares é que fez com que encontrássemos. Mas o calor que derretia a estrada não permitiu que dialogássemos.

A próxima esquina. Aquela mesma esquina que já era minha velha conhecida tornara-se mais distante e desconhecida. Quanto paradoxo significa dizer que uma esquina velha conhecida se torna desconhecida. Até cumprimentei o senhor que tocava flauta sempre naquela mesma esquina. Mas me parece que ele mudou o tom. Por um momento penso que esse problema que acomete as pessoas distraídas havia tomado conta de mim. Será que aquela esquina conhecida também havia sido transformada pelo calor que derretia a estrada que não permitiu o diálogo com o velho de olhar enrugado e sem cor?

Procurei não olhar para trás. Mas por mais que não mirasse o horizonte que restava, por dentro havia um cheiro do que vivi. Esse odor me transportava para a esquina conhecida e todos os maus e bons agouros que nela já vivi. Os meus passos se confundiam com o excesso de rimas dentro das minhas lembranças. Talvez devesse pausar para um café e tentar escrevinhar alguma coisa. Essa forma de terapia não cobra um aperto de mãos e um pagamento ao fim da sessão. Simplesmente posso jogar o papel no lixo. Simples como esquecer uma canção sem sentimento. Insignificante como dormir em noite sem sonho e luar.

Hesitei como um palhaço sem graça. O palco se transformou em um turbilhão de palavras imediatas e o velho sumiu de minha vista. É claro que não olhei para trás. Apenas imaginei o velho e suas rugas a se distanciarem do meu olhar interrogador e perdido entre uma esquina velha conhecida e os antigos sentimentos e cheiros desconhecidos. Todos guardados em uma caixa de coisas inéditas. Essa caixa é difícil de compreender. Assim como o olhar derretido do velho. Assim como a rua enrugada que atravesso todos os dias, mas que hoje em dia não reconheço.

Entre a fumaça do cigarro e nada, a nostalgia da esquina. Não interrompi a caminhada e quanto mais ao longe me perdia entre as pessoas, mais perto do velho eu me tornava. Despedi-me do porteiro do hotel que sempre acendia meu cigarro. Ele sempre dizia que era uma honra poder servir. Nunca entendi essa frase. Eu só queria fumar. Ele só queria acender o cigarro. Mas os olhos dele nunca acompanhavam o lume do isqueiro. Pareciam mais preocupados com a direção da fumaça. Logo que ele acendia meu cigarro, acendia também o seu. Nossas fumaças se encontravam. Eu me despedia dele.

Quando dobrei a esquina derretida pelo calor, o velho estava deitado sobre a calçada que ainda não se havia derretido. Havia um toldo a lhe cobrir do sol. Penso que ele estava à minha espera. Minha e do sol. Por certo não queria se derreter. A paisagem se transmutara e o velho já se havia incorporado à estrada disforme e à esquina conhecida.
Olhei meus olhos pelo espelho do café que já também era parte da paisagem. Nada de mais. Eram apenas meus olhos. Sem rugas. O velho, contudo, mantinha-se enrugado e sereno a me observar. A rua continuava a se derreter por causa do calor. Daqui a pouco o velho poderia descer como lava pela estrada, eu também. Caminhei apressadamente para não me confundir com aquela paisagem estranha. O velho me chamou pelo nome. Não olhei pra trás. Não queria olhar para nenhum espelho.

Bernardo G.B. Nogueira
Conselheiro Lafaiete – 26/02/2012

domingo, 22 de janeiro de 2012

Trem...

Trem

Esperei,
até o último silvo do trem,
passaredos e pessoas e ninguém.

Pessoas,
passaram pelo meus olhos em desdem,
acenos felizes ao encontro de alguém.

Olhares sinceros e mentirosos também.
Sol que não aquecia meu porém.

Lágrimas,
até o último abraço esperei,
fui tragédia de um trilho, de trem.

As borboletas continuaram em silêncio,
e de novo ia embora, o trem.

Bernardo G.B. Nogueira
Conselheiro Lafaiete