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domingo, 29 de julho de 2012

Dever de vida


Dever de vida

Eu deveria fazer um poema de ti,
para seus olhos que brilham,
para sua boca que sorri,
pra cantar sua magia em que vivi.

Deveria ser um poema gigante,
porque é seu o infinito,
porque tem em seu corpo todo o instinto,
porque em ti sou errante.

Deveria escrever para te imortalizar,
beber seu gosto e festejar,
tocar seu corpo em gozo pleno,
derramar em seus olhos meu choro ingênuo.

Deveria sonhar pra te criar,
deslizar leve e forte sobre sua face,
voar sobre ti em carícias, nosso enlace,
deitar entre seu suor, um combate.

E depois de cumprido meu martírio,
desfaleço sob o seu encanto,
sem saber do escrito ou do devaneio,
na confusão de ti que é poema vivo. 

Que é vida minha,
que é todo meu anseio!

Bernardo G.B. Nogueira
Conselheiro Lafaiete – inverno.

sábado, 31 de março de 2012

À espera do canto...


À espera do canto...

quase como uma gota de lágrima que ainda não choveu,
quase como um toque de lábios que se rompeu,
quase como um abrigo que o vento levou,
quase como um seu afago que não é meu,

qual a distância do rio que me torna mar,
qual a proximidade do rosto a se virar,
qual a faticidade do tempo a nos moldar,
qual a face da vida que a outra é morte.

a ti irei olhar,

como o filho que dá braços ao pai,
como a vela do barco que se dá ao vento,
como a palavra que se dá ao sentimento,
como a folha que se dá ao anseio do poeta.

feito um silvestre a caçar sua vida,
feito o artista a se perder no palco,
feito a criança que sente medo da noite,
feito o adulto que sente medo do amor.

estarei à espera de seu canto...

Bernardo G.B. Nogueira
Conselheiro Lafaiete

sábado, 3 de março de 2012

Paisagens


Paisagens

Quando encontrei aquele velho pela primeira vez, nem mesmo percebi a cor de suas rugas. A estrada que escorria por entre nossos olhares retirou uma provável aproximação. Foi apenas um momento como todos esses que corriqueiramente nos envolvemos sem querer. Sem intenção. O velho olhou e eu também. A direção dos nossos olhares é que fez com que encontrássemos. Mas o calor que derretia a estrada não permitiu que dialogássemos.

A próxima esquina. Aquela mesma esquina que já era minha velha conhecida tornara-se mais distante e desconhecida. Quanto paradoxo significa dizer que uma esquina velha conhecida se torna desconhecida. Até cumprimentei o senhor que tocava flauta sempre naquela mesma esquina. Mas me parece que ele mudou o tom. Por um momento penso que esse problema que acomete as pessoas distraídas havia tomado conta de mim. Será que aquela esquina conhecida também havia sido transformada pelo calor que derretia a estrada que não permitiu o diálogo com o velho de olhar enrugado e sem cor?

Procurei não olhar para trás. Mas por mais que não mirasse o horizonte que restava, por dentro havia um cheiro do que vivi. Esse odor me transportava para a esquina conhecida e todos os maus e bons agouros que nela já vivi. Os meus passos se confundiam com o excesso de rimas dentro das minhas lembranças. Talvez devesse pausar para um café e tentar escrevinhar alguma coisa. Essa forma de terapia não cobra um aperto de mãos e um pagamento ao fim da sessão. Simplesmente posso jogar o papel no lixo. Simples como esquecer uma canção sem sentimento. Insignificante como dormir em noite sem sonho e luar.

Hesitei como um palhaço sem graça. O palco se transformou em um turbilhão de palavras imediatas e o velho sumiu de minha vista. É claro que não olhei para trás. Apenas imaginei o velho e suas rugas a se distanciarem do meu olhar interrogador e perdido entre uma esquina velha conhecida e os antigos sentimentos e cheiros desconhecidos. Todos guardados em uma caixa de coisas inéditas. Essa caixa é difícil de compreender. Assim como o olhar derretido do velho. Assim como a rua enrugada que atravesso todos os dias, mas que hoje em dia não reconheço.

Entre a fumaça do cigarro e nada, a nostalgia da esquina. Não interrompi a caminhada e quanto mais ao longe me perdia entre as pessoas, mais perto do velho eu me tornava. Despedi-me do porteiro do hotel que sempre acendia meu cigarro. Ele sempre dizia que era uma honra poder servir. Nunca entendi essa frase. Eu só queria fumar. Ele só queria acender o cigarro. Mas os olhos dele nunca acompanhavam o lume do isqueiro. Pareciam mais preocupados com a direção da fumaça. Logo que ele acendia meu cigarro, acendia também o seu. Nossas fumaças se encontravam. Eu me despedia dele.

Quando dobrei a esquina derretida pelo calor, o velho estava deitado sobre a calçada que ainda não se havia derretido. Havia um toldo a lhe cobrir do sol. Penso que ele estava à minha espera. Minha e do sol. Por certo não queria se derreter. A paisagem se transmutara e o velho já se havia incorporado à estrada disforme e à esquina conhecida.
Olhei meus olhos pelo espelho do café que já também era parte da paisagem. Nada de mais. Eram apenas meus olhos. Sem rugas. O velho, contudo, mantinha-se enrugado e sereno a me observar. A rua continuava a se derreter por causa do calor. Daqui a pouco o velho poderia descer como lava pela estrada, eu também. Caminhei apressadamente para não me confundir com aquela paisagem estranha. O velho me chamou pelo nome. Não olhei pra trás. Não queria olhar para nenhum espelho.

Bernardo G.B. Nogueira
Conselheiro Lafaiete – 26/02/2012

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Por um pouco de simples ser...

Por um pouco de simples ser...

e porquê não se deve perder,
ganhar,
da vida um só querer,
olhar,

Instante de amanhecer,
o mar,
pra chuva entardecer,
voltar,

De um dia tornar nascer,
tentar,
em noite de esclarecer,
sonhar,

De um tanto de te querer,
clamar,
p’ra uma vida ser só viver,
amar...

Bernardo G.B. Nogueira
Ponte Nova

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Sem Herois

Sem Heróis

Scarcéus

Algo aconteceu foi de repente, forte, um soco, bruscamente
iminente consciência.
Algo se rompeu incontinente, o lacre, um elo da corrente
expulsando a inocência.

Como um sonho brutalmente interrompido.
Como se o corpo fosse feio e proibido.

E se abriu confuso e frio um mundo sem heróis
fez do ser humano um animal vil e feroz.
Sem saber pra onde ir não há nenhum lugar seguro agora.

Algo enfureceu o universo, a boca e o verso se fartaram
de tolices e injúrias.
Algo perturbou o ambiente, fez as coisas diferentes
e ninguém se reconhece mais.

Como se tudo não fizesse mais sentido.
Como se nada se mostrasse claro e definido.

Quem são os herois?

Advirto, de pronto, que não estou aqui para explicar a história da canção e muito menos tentar restaurar dos escombros o momento da criação e de inspiração de seus autores. Seria, desde já, tarefa inglória e impossível. A criação, parece-nos, é um momento em que confluem variegados sentidos, histórias, algo de razão e um turbilhão de sentimentos que uma sua identificação é tão possível quanto fotografar um pássaro em pleno voo. No sentido de que uma canção é também o desenvolvimento que ela possui quando se coloca em encontro com o ouvinte é que gostaríamos de partir.

Há um niilismo intrínseco nos dizeres da canção que já prenuncia um momento de ruptura em seus primeiros versos, “algo aconteceu foi de repente, forte, um soco, bruscamente (...) algo se rompeu incontinente, o lacre, um elo da corrente”, e por aqui é interessante perceber que há uma interlocução entre o momento histórico vivenciado pelos homens na contemporaneidade, ora, depois que Nietzsche matou deus e após as incessantes tentativas do homem de alcançar o tempo com suas mãos, nem sempre as mais singelas, nada restaria mais a crer, e a entrega do homem à sua sorte parece-nos algo inevitável.

A ruptura é tarefa comum à história do humano desde sempre. Assim, enquanto com os gregos antigos, as tragédias foram utilizadas para evidenciar uma ruptura com as preocupações cosmológicas para uma nova ocupação com uma polis nascente, o cristianismo vem dizer a boa nova e romper com o politeísmo reinante e, dessa forma, colocar o homem à mercê de um mundo bom em um além vida – paraíso – a contrario sensu do mundo pagão e maléfico na Terra. Na modernidade, vivenciamos um pensamento entregue à sanha racional que instaura o cogito no modus do homem entender-se a si mesmo. Daí em diante, a racionalidade cartesiana se irá converter em técnica científica dentro do pensamento contemporâneo, e a partir dos fins do século XIX, o pensamento humano ruma para uma descrença nas estruturas paradigmáticas que sempre sustentaram a sua própria existência.

Como a filosofia nietzschiana põe fim às metafísicas que tentavam dar conta da existência humana, e, “como um sonho brutalmente interrompido”, o homem toma as rédeas do novo mundo em que a técnica torna-se a própria metafísica e a relação entre estes mesmo homens se dá a partir dela, o que vem anular qualquer sentido, ora, é evidente que o pensamento capitalista, que hoje se transveste de um consumismo quase alucinógeno, acaba por anestesiar a sensibilidade humana e precisamos recorrer a mais técnica para que mantenhamos o sonho de que ainda somos humanos.

Não é difícil entender que “algo enfureceu o universo, a boca e o verso se fartaram de tolices e injúrias, que algo perturbou o ambiente, fez as coisas diferentes e ninguém se reconhece mais”, uma vez que inseridos em um orbe capital e consumeirista, as relações humanas não mais existem em verdade. Estar diante do outro, não é estar diante do outro – humano – é colocar-se diante daquele que tratado como meio poderá trazer alguma benesse, quase sempre a alimentar a gana consumista: seja do corpo, seja dos bens materiais, seja do espírito, seja da alma. Não vendemos a alma para o diabo como os antigos diriam. Em verdade, transformamo-nos nele mesmo quando furtamos uns dos outros a possibilidade de sermos crianças: “expulsando a inocência”.

O retrato dessa imersão em uma inércia de sua própria vida é facilmente manejado pelo mercado capital – desde as inocentes criações chinesas até as mais letais armas de destruição em massa. O sentido é fabricado a cada dia, a cada hora ou a cada segundo. Estamos sempre à beira da obsolescência, que já lembrada por Gessinger, é sempre programada. Estamos sempre à beira de uma depressão, à beira de mais um carnê de compras, à beira de uma solidão em meio à multidão, à beira de um precipício que na verdade nem existe, mas que as formas líquidas de relacionamento humano acabam por inventar. Estamos à beira de mais uma igreja, que amanhã será um bar, mas que por ora resolve o problema: seja de um vício, o fim de um romance ou mesmo por perder um emprego. Nesse tempo, também não podemos deixar passar o mercado dos remédios psiquiátricos, que também percebeu bem o momento de uma “histeria” generalizada e está pronto a receitar um sono mais tranquilo ou um dia sem melancolia ou tristeza. Não podemos mais ser tristes, ditam os deuses da auto ajuda. Nossa(!), são tantas as possibilidades de sermos herois: podemos também tornarmo-nos eterna e pateticamente jovens, haja vista as pessoas que insistem em lutar contra o tempo e não assumirem uma fase da vida em que deveriam partilhar com os jovens suas histórias e criarem juntos, mas não o fazem, estão preocupados com a próxima toxina botulínica que irão injetar no rosto. Heroi não envelhece, ora!

Que o mundo está “confuso” é algo evidente. Mas como o homem vive sem seus herois? Na verdade, não vive. É de nossa própria característica inata a possibilidade de prometer, de transcender e de criar, precisamos de um esteio, de um terceiro garante. Ele já foi deus, já foi o estado, mas e agora, “e agora José”? Bom, agora que a “festa acabou” e “se abriu um confuso e frio mundo sem herois”, cabe ao homem sua própria capacidade inventiva. Assim, penso em apenas algumas advertências para o cerne desta bela canção: Não é que o mundo de hoje esteja sem a benção de seus herois, parece-me que não. Parece-me que diante de um tempo cada vez mais fugaz, estamos preguiçosos e pouco reflexivos, talvez reflexo do cansaço que nosso status de consumidor causa.

Os herois estão aí, como sempre estiveram. O problema é que ficamos tão “espertos” e tão “competitivos”, que não conseguimos mais acreditar neles. A sensibilidade para aquilo que não é tangível economicamente tornou-se impossível. Não posso investir naquilo que não me trás retorno financeiro, e por aí vai a nossa torpe racionalidade atual. Contudo, assumir esse paradigma, é também aceitar que de alguma forma sua existência, em algum momento, será alvo desse tratamento funcional. Não podemos nos espantar se em alguma esquina estivermos a servir para alguma coisa, assim como podemos amanhã não servir mais. “Sem saber onde ir”.

A ruptura é sempre marca que acompanha a história do ser humano, isso é inevitável dada nossa essência criadora. O vazio parece instaurar-se por vários motivos além de alguns que aqui cuidamos. Mas falemos da grande questão dos heróis: Eles não podem ser criados por imagens, sons ou moldes fabricados pela mídia mentirosa e volátil, é fácil perceber o quanto isso é falacioso, pois a história destas criações se encerra com a criação de outra fantasia e assim por diante. Parece que a encruzilhada nos aponta dois caminhos: o do turista e o do peregrino. Aquele, tem sempre intenções finalistas de chegar mais rápido a um local: sem ser importunado, sem amassar a roupa, sem contratempos, sempre com o máximo de gozo e prazer. Ao peregrino, o local de chegada é apenas uma parte de sua jornada; jornada que é muito mais que um caminho. Trata-se do momento em que constitui sentido à sua existência: as paisagens, os contratempos, os descaminhos, os erros, a roupa suja, os sorrisos e as mágoas, são todos componentes desse peregrino, que não se furta às mazelas da existência humana, pois, elas também são parte daquilo que chamamos humano.

Podemos ilustrar essa ideia com uma lenda dos aborígenes australianos, que, nômades que eram, sempre que chegavam à porta de uma caverna, sentavam-se à espera de sua alma. Da alma de heroi que haviam se tornado a cada jornada vencida. Heroi que o turista não poderia se tornar, pois, ele não carrega bagagens, não sente o sol no rosto, não é tocado pela brisa da manhã e nem sonha com o outro lado da montanha, ele não as enxerga de dentro do avião. Está anestesiado pela hipótese de frear o tempo com mais uma dose de felicidade comprada em um consultório ou em uma boca de fumo.

Os herois de hoje, depois que perdemos a crença nas metafísicas, não precisam ser grandes, inacessíveis ou impiedosos. Não precisamos mais deles. Carecemos de herois com olhares, sentidos e sentimentos bastantes para perceber, que a cada gesto de amor, em verdade, temos um gesto heroico. Este sim, o único heroi do qual nunca nos devemos dispor em nossa jornada de peregrinos, mesmo que difícil, mesmo que distante, mesmo que sozinhos, pois, mirar o horizonte é permitido a todo ser humano, mas, construir esse horizonte e ser construído por ele a partir de uma visada de amor, é, sem dúvida, um ato de heroísmo.

“É só o amor, que conhece o que é verdade...”

Bernardo G.B. Nogueira - Conselheiro Lafaiete

terça-feira, 1 de novembro de 2011

A escrita e o limite

A escrita e o limite

Não escrevo para aqueles sem voz,
para os que se dispuseram de todo grito.
Não escrevo para os que silenciam,
não escrevo para os que temem seu algoz.

Não escrevo para quem se distrai,
para os que se esquivam da onda.
Não escrevo para os que baixam os olhos,
não escrevo para aquele que não vai.

Não escrevo para os que vão só ao meio,
para os que não se perdem noutro enleio.
Não escrevo para os que não se afogam,
não escrevo para a superfície que não é inteiro.

Não escrevo para os que creem,
para os que insistem na verdade.
Não escrevo para os que não se embriagam,
não escrevo para o alcance e a vaidade.

Não escrevo para quem promete, se compromete,
para os que vivem e não esquecem.
Não escrevo para os que se eximem,
não escrevo para os que reprimem.

Não escrevo para aqueles que não têm sangue,
para os que não miram o horizonte.
Não escrevo para o que é constante,
não escrevo para quem diz ser distante.

Não escrevo apenas para dizer palavras,
para contar e maldizer vontades.
Não escrevo para frear sentidos,
não escrevo para criar desígnios.

Não escrevo, porque não tem princípios,
para contar estórias, que têm meio e início.
Não escrevo com domínio,
não escrevo, ao invés das palavras, o acaso, amor e destino.

Conselheiro Lafaiete – frio e noite
Bernardo G.B. Nogueira