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quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

quantas horas?



quantas horas?

devia-se desnudar assim, logo cedo,
não carece esperar anoitecer,
o dia lhe pode trazer intempéries,
por isso, deixe cair o véu pela manhã,
no alvorecer é que se dão nascimentos,
esteja sob a luz refletida,
imponha teu seio contra o vento,
caminhe sólida e aérea, etérea,
prefira o não caminho, crie,
em meio à gente, cometa o crime
de invadir com olhos cálidos e versos,
não te faça concessões,
sempre o desnudar,
cedo, sem hesitação,
esqueça do tempo,
que não volta, não vai, nem será,
entregue a armadura,
ao meio do dia esteja exausta,
sonolenta, mire a tarde brotar entre o céu avermelhado,
quando a noite vem,
conte a ela que jê és pura,
magia de vida que viveu pela manhã,
nua feito a primeira rosa do deserto,
frágil como o arco-íris,
inevitável,
que só a manhã, criança, embalou e fez nascer...

Bernardo G.B. Nogueira
Conselheiro Lafaiete – verão, 2013.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Daqui e de lá


Daqui e de lá

Sob o olhar atento de um peito aventureiro. Restou caído um dizer de solidão. Somadas todas as presenças ausentes de que não se conseguiu desvencilhar. Estaria ali uma pintura que fora soma de todos os passados, ou seria, na verdade, um mero rabisco de uma memória impossível, mas mesmo que sabidamente impossível, insistente em se apresentar? Eram indagações, que se de um lado cheiravam filosofia, de outro, assombravam o estreito presente que se estava a construir. Paisagens de uma imagem construída. Imaginação.
Tocar no solo talvez ajudasse a entender a medida do etéreo e do real. Solo envolvido por outras imaginações - de outras pessoas. Outros tempos e outras canções. Não haveria enfim um acorde puro. A pura imaginação é devaneio. Espírito sem carne não deixa andar. Flutuar é uma tarefa que requer apuro. Puro ar e pura intuição. A este tempo já não caberia mais reflexão. Se de alguma forma se quis ver, só a vista posta não garantiria a precisão. O corpo que reclama não deixa livre o coração. Se a vista o mar alcança, é porque longe se vai o desejo.

O invento não se faz com certeza conseguida. Da mistura que é a verdade. Porque entre viandantes é que se permitiu a criação. De dentro do um, que encontra o olhar do outro, brota o novo que é dos dois, mas que não é de ninguém não. É só marca de história. Memórias que se juntam pra coser outra canção. Ver isso é entender que o entendimento só se dá “entre’’. E agora vou escrever um parágrafo inteiro sobre as coisas que penso fazer entender.
Entre o tempo que vive e o tempo que se conta. Entre a valsa que dançamos e aquela que sentimos. Entre os olhos que miramos e aqueles que mentimos. Entre a farsa que se vive e a verdade que se fala. Entre a menina que existe e o rapaz que se sonha. Entre a avó que é sublime e a jovem impostora. Entre a mulher que se exibe e aquela que é magia. Entre a letra que se grafa e aqueloutra que apenas sonha. Entre um passado que se mede e um presente que poesia. Entre a certeza que é verdade e a criação que é vida. Entre a carta que é escrita e o choro que sente saudade. Entre lá fora que faz frio e aqui dentro que tudo queima. Entre o infinito da planície e a incerteza da montanha. Entre a consciência da tragédia e a fraude da razão. Entre a métrica do poema e a insensatez da realidade.

E por serem tantos os caminhos e de tantas cores é que a ventura da estrada faz-se plena. Oscilar como átomos. A incerteza da física nos indica quão fértil é este passeio. É só ver como passeia a bailarina. Sempre indo e vindo. Entre saltos que parecem plumas a pairar. Corpo em movimento. Movimento de todas as partículas quando baila. Desde um oriente inventado até um ocidente cansado. A bailarina é um bom arquétipo de que a imaginação que se tem é a verdade que se pode ter. Nada mais e nada menos. Só invenção. Aparição inaudita. Só a bailarina que tem. Estrela e atriz. Bailarina.

Da imaginação e da realidade o que se tem é a réstia entre o dito e o vem a ser. É sempre nesta tensão que podemos estar. Salvo se de alguma forma nos assemelhemos à bailarina. Pois ela pode tudo. Até não ser bailarina. Restariam choros a solicitar que retorne. Que dance. Que voe. Que flutue e faça flutuar. Que destrua a gravidade e também a falsidade. Que borre a maquiagem de quem assiste. A dela não. Porque nela não há tensão. Isso só pra dizer que pra saber do peito aventureiro, do presente, do passado, da filosofia ou da invenção, talvez se deva esquecer de todo conceito, da coisas certas, da rima pronta e da exatidão, da história que se conta e do relógio que mata. Errar feito a bailarina que faz da vida arte. Que encerra em um passo e um flerte toda a ode de amor, de ódio e de humano.

Todos passaram, ‘o passarinho’ não. Isso só porque ele avoa como a bailarina, porque enquanto quedamos aqui cheios de explicação, com dois mundos, um de verdade e outro que é invenção. Nada de atrito para a bailarina que em seu voo é sublime, esquece que é palco e se apresenta na vida, esquece que é vida e inventa no palco. E quedamos lançados nesta dúvida que parece rio turvo depois da inundação. Menos a bailarina, que passa sem ao menos ver ‘seu vigia catando a poesia que entorna no chão’.

Bernardo G.B. Nogueira
Itabirito – verão e bailarina.

sábado, 8 de dezembro de 2012

promessas...

promessas...

aí vais me dizer
que prometo,
prometo,
prometo.
Nada faço, e prometo.
De novo, só te escrevo.
Só te beijo, e nada.
Uma vez mais, destrói suas pegadas,
mas volta sorrateiro e desnuda sua morada.
Mas ainda ouço-te dizer,
que prometo,
prometo e mais nada não.
Uso de belos versos,
contos boas estórias,
canto choro e samba canção,
deixo flores na mesa,
gole na garrafa e cigarro pelo chão,
e sem barulho escorro pela soleira,
e diz que me perco pelas ruas,
que de noite nem sinal,
mas que de madrugada tem lual, serenata e tal.
E diz também que sou assim, assado,
toada de amor,
e que até deixo cheiro de flor,
mas tem hora, parece faca na carne, sem dó.
E vais falar pra todos que não vou voltar,
que tem vida nova,
que tem novo amor.
É, vais falar,
mas quando e sempre que falar,
é da presença ausente que se vai lembrar,
e ai, só pra maltratar,
porque matreiro é o coração,
o trilho do trem vai errar,
e mesmo que já vá longe sua nova vocação,
a promessa minha vai bater em sua cara,
e se não deixar entrar, invado seu coração,
com promessas,
promessas e invenção!

Bernardo G.B. Nogueira
Conselheiro Lafaiete

carta de mulher com medo de amar...



carta de mulher com medo de amar...

ri de mim não,
sabe não o que tem aqui,
um turbilhão.
Demais da conta que parece erupção.
Nenhuma fresta
 resta sem canção.
Vai embora sem calma e volta sem anunciação,
o seu olhar que me ria, foi só minha invenção,
e se ficar a rir desse jeito que faz,
vai acabar fazendo coisas nesse campo que jaz.
Porque tem o Chico cantando e flor no sonho,
porque assim parece que tem amor,
pra depois dormir e viver com verdade esse ardor,
saído de dentro das letras que vão nascendo e procuram te compor,
tipo a hora em que a música encontra e letra,
do jeito que a fome encontra a boca,
da mesma forma que o gole concebe a louca,
igual quando o corpo sedento se entrega em cor,
 vivo de vontade, sem pudor,
e por causa dessa coisa que acaba por inventar,
chamo a chama pra encontrar,
na verdade, clamo!
És vício e és maldade,
fel e bondade,
e por dentro destes olhos que me riem em tom único a inundar,
fazes hora de rir,
já tens o arreio, agora é só cavalgar...

Bernardo G.B. Nogueira
Conselheiro Lafaiete...

domingo, 16 de setembro de 2012

Homem e mulher...



Homem e mulher

Mas quem disse que quero a ti preso a mim?
Podes ir.
À praia,
aos amigos,
ao chopp,
à ressaca e ao que é bom.
Depois de mim,
vais.
Dá-se ao mundo,
podes se perder.
Tenho amor inteiro.
Cheio de saudade para esperar.
Todo feito de olhares, afagos a te abraçar.
Vais!
Deixa-me.
Amante e desalmado,
louco a te inventar,
Vais!

Bernardo G.B. Nogueira
Conselheiro Lafaiete – inverno.

terça-feira, 31 de julho de 2012

verdade...


verdade...

nua no olhar,
nua no cantar,
nua no mar,
nua no falar,
nua no beijar,
nua no luar,
nua ao vagar,
nua ao voltar,
nua no altar,
nua ao se deitar,
nua ao se levantar,
nua ao chorar,
nua ao declamar,
nua ao reclamar,
nua ao instigar,
nua ao me deixar,
nua ao flutuar,
nua ao afundar,
nua ao trafegar,
nua ao inventar,
nua ao me apaixonar,
nua ao me amar,
nua de matar!

...nua e crua.

Bernardo G.B. Nogueira
Conselheiro Lafaiete – inverno.

sábado, 23 de junho de 2012

Tocar e mulher


Tocar e mulher

Me tenha como mulher,
sua mulher,
me toque feito mulher,
detenha-me quando nao mais puder,
sem pudor esteja a meus pés,
recline-se sob meu viés.
Não se pretenda menor que reis,
não me entenda, não és,
escreva nada, esvaeço logo,
depois dos olhos, antes do amor,
ante eles todos sou torpor.
Precedo a ti e a tudo,
me torno sua condição,
me pedes, não concedo não.
Crias, ordeno-te!
sob pena de viver em reclusão,
de minha vida e de minha imensidão.
Me toma como mulher,
feito bicho sem explicação,
qual pétala que flutua em admiração,
trata minha pele como tela de pintar,
rabisque nela sua vida e toda minha perdição.
Do menor gesto faça canção,
de grande ato, precisa não,
que mulher é como arte
precisa ser sutil, leve, vem, e não avisa não.
É como aquela fresta que tornamos paixão,
feito verso que se torna samba,
como rima que é canção.

Bernardo G.B. Nogueira
Itabirito – inverno.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Doação


Doação

Ao acordar amava-te mais,
mais e sempre, estranho e mais,
desnudo e crente,
pele, carne e mais.

Depois do sonho tornaste manhã,
em meus poros de criança, maçã,

Pura e mistério, proibida,
minha e estranha, cativa.

Doaste em sonho, um parir,
viveste o encanto, partir,

Em tom silente, foste em mim,
mais bela que o dia em que nasceste
nas notas turvas do porvir,
sua pose infinita, crua, ao longe,

de perto, me fez sorrir.

GB Nogueira – Ponte Nova, outono.

terça-feira, 15 de maio de 2012

Do lado de quê?


Do lado de quê?

Contra o explícito
o verídico
e o fatídico,

contra o machismo,
o revanchismo
e o chauvinismo,

contra o correto,
o sempre ereto
e o que não é incerto,

contra a reta,
sempre certa,
parcimoniosa e discreta,

contra a tendência,
a essência
e toda a coerência,

contra o esforço,
o excesso do gozo,
mentiroso e que é forçoso,

contra a gramática,
do macho,
não máquina.

pelo amor,
pelo poeta,

pelo erro,

pela mulher,
talvez o homem.

GB Nogueira
Outono – Itabirito 2012.

quinta-feira, 8 de março de 2012

De todas as coisas


De todas as coisas

De todas as coisas,
foste a mais simples,
a mais tenra e a mais triste,
uma flor pequena e tantas fantasias.

De todas as coisas,
tiveste a maior candura,
a melhor de todas, formosura,
deixaste pelo caminho sabor de noites, longínquas.

De todas as coisas,
andaste solta pelas pedras,

sem peias, sem metas,

com ar de flores, quimeras,
firme feito sonhos, sinceras.

De todas as coisas,
houveste seu olhar lacrimoso,
teu braço afável e ardoroso,
um ventre que doa vidas, choroso.

De todas as coisas,
houveste sua voz, triste e dengosa,
admirada com as rosas, tuas irmãs,
entremeada de amores feito as manhãs.

De todas as coisas,
tocaste o mundo com os teus passos,
tornaste em cor todos os traços,
obra de arte, deuses em descompassos.

De todas as coisas,
te inventaste,

singular e mulher!
Plural e mulher!
Amada e mulher!

Bernardo G.B. Nogueira
Itabirito – no dia da mulher!