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segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Conceber

conceber

Nasce em tom de chuva,
se são deslizes não sei,

tem apenas um gosto de primavera,
e um cheiro de um dia de espera.

Tem o arfar de-vagar do seu corpo,
e um líquido bom que bebi em teu enleio,
que desliza inerte dentro de mim,
e que sai pela mata e defunto ri-se sem fim,

é sempre assim quando chove,
há uma invasão do meu interior,
da sua pele escorre o mais puro cheiro,
e da sua face o olhar mais rico, mais faceiro.

Ah,
como são chuvas essas sensações,
como são enternas essas invasões,

de que modo se vive sem um choro?
sem canções,
sem chuvas,
criações.

Bernardo G.B. Nogueira
Conselheiro Lafaiete

domingo, 15 de janeiro de 2012

Paradoxo sou

Paradoxo sou

Sou tão paradoxo que sinto o frio no sol,
sou tão paradoxo que a lua me trás calor,
sou tão paradoxo que vinho me torna lúcido,
sou tão paradoxo que a lucidez me faz esquecido.

Sou tão paradoxo que estar sozinho é qual um diálogo,
sou tão paradoxo que a comunhão me retira a alma,
sou tão paradoxo que o chão me causa incerteza,
sou tão paradoxo que o céu me parece canção.

Sou tão paradoxo que os pingos da chuva esquentam minh’alma,
sou tão paradoxo que a falta deles me trás lágrimas molhadas,
sou tão paradoxo que a secura dos dias me transborda o olhar.

Sou tão paradoxo que de dia sou amante seu e a noite me dá o mundo,
sou tão paradoxo que declamo meus sentimentos, p’ra depois sofrer o arrependimento,
sou tão paradoxo que escrevo para dizer, quando o silêncio é o dito de maior prazer.

Bernardo G.B. Nogueira
Buenos Aires

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Tormenta

Tormenta

Aqui já chove em quantia enorme,
meus pés estão molhados, sem sentimentos,
minhas mãos frias em prantos e tormentos,
os sentidos a darem sinais de sucumbência e fome.

Afagos de ventos gélidos a tomar minha visão,
claro e escuro de mim mesmo em batalha,
sai de meu peito um ar quente e de fora me vem uma navalha,
defende-se o espírito com cifras de versos e uma canção.

Gotas perdidas em rios solitários, rios cálidos,
andares distraídos por entre vozes correntes,
solidão pungente em calafrios ardentes.

Gritos desmedidos e ruído interno que não se acalma,
rimas afogadas pelo precipício de um adeus,
mas por enquanto, ainda chove forte em minha alma.

Bernardo G.B. Nogueira
Conselheiro Lafaiete

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Chuva infinita

Chuva infinita

Não é simples ouvir o mundo em versos,
em uma hora se cala e em outro, universo.
De um lado o campo, para sempre silvestre,
arroubos de sonhos e rimas agrestes.

Uma rua cheirosa e um olhar inerte,
lugares novos e palavras em cor,
romance em traços e estrofes doces,
um beijo lançado, ar, cheiro, agridoce.

Torpor entre os passos, visadas sem traços,
caminhada perene, gole, vinho, embaraço.
De tanto poema, barulho e cansaço,
descanso na chuva, imensa, meu infinito regaço.

Bernardo G.B. Nogueira

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Por entre, sentir...

Por entre, sentir...

Nascia um sentimento por entre as frestas da neblina,
a montanha recebeu a escuridão com a leveza de uma mãe,
tomou nos braços seus sentimentos e se embeveceu sem visão,
esguios destinos deambularam sob um céu não visto.

Uma montanha sem som que distanciava os sentidos,
fugiam do peito, ferozes feito lava.
Rufos de tambor e uma queda alucinada,
descompasso de sons se esbatiam ante uma rocha invisível.

Soprava um vento de assobios indistintos,
respingos de uma chuva que foi canção,
rajadas de olhares e uma visão míope,
ao longe sentiu-se o cheiro das palavras repetidas.

Um rasgo no coração deixou espiar a noite,
fugidio, o sentimento esgueirou-se por entre meus eus.
Calafrios diziam d’uma batalha: frio e fogo.
Senti minh’alma se ir, depois de vivo, não há mais fuga, nem morte.

Sentimentos...

Bernardo G.B. Nogueira
Conselheiro Lafaiete – noite e chuva.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Pode até não ser, mas...

Pode até não ser, mas...

talvez seja bom não estar aqui,
um infortúnio de sonhos sem fim,
cadências distintas sob um céu cada minuto mais vistoso,
dentro de uma cidade, num olhar, outra distinta...

realidade.
O tempo entremeia ideias reais,
saudade da noite durante o dia,
amor pelo dia quando se ia a noite.

Uma badalada dos sinos e as ruas pareciam sem fim,
caminhadas por entre meu amor,
cada esquina uma antiga paixão que nascia de novo,
encontros eternos com diálogos suspirantes.

Os beijos foram transporte para uma sinfonia radiante,
insatisfeitos, sempre buscavam lábios mais profundos,
enlouquecida, a saudade de novo clamava
pela fresta daquelas vidas, encontro e romance.

Descobrir, caminhar e criar.
Não haveria mesmo nada de passado,
o vinho do dia acariciava meu presente,
em cada página já escrita, um novo rabisco.

Nem sempre com as palavras temos o tempo,
suas fugas revelam o oculto da madrugada,
cada olhar é uma criação,
é assim também com o amor, novo e velho em um instante.

As chuvas são ótimas para tudo isso,
têm pingos que são férteis,
pingos para almas quentes que enfrentam os leões,
de dentro do peito saem as mais lindas ideias.

A pintura e a arte de outro dia são sempre o suficiente,
o cheiro das vidas que não vivenciamos de perto,
tomam o olfato das almas sensíveis que levitam pelo presente,
o passado é o amor que não podemos mais viver

...a menos que todo dia seja uma meia noite.

Bernardo G.B. Nogueira
Itabirito – 03:32...

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Quando saí pela cidade de mim...

Quando saí pela cidade de mim...

Precisei ir um pouco ali fora,
ali adiante, decerto trocar apenas alguns passos não distantes,
ouvir um marulho de pingos, e vozes, e risos,
colher alguns olhares por detrás de silhuetas malvestidas, invertidas.

Tem um sentido todo diferente por ali afora,
ali aonde colho algumas rosas, duas ou três, mais não.
As mãos não sustentam muito tempo mais do que podem,
fingir não dá mais, ali fora as cores das rosas não são frígidas, nítidas.

Os passos são jogados contra o vento que diz coisas estranhas,
um passo mais e outro, e tantos outros, diferentes e imprecisos,
cambaleantes, sucedem uma digestão de pensamentos,
trocadilhos mal feitos de uma avenida sem limite, ouvinte.

Afora minha pretensiosa distinção das noites,
há um desenho complexo por entre estas vidas entrelaçadas e embaçadas.
Sentimentos, luzes, fumaças, uivos de ventos e algumas vozes, até placas.
Formas distintas, variações de uma mesma percepção, emoção.

Truques desvairados ostentam essa visão,
dão-se ao corpo, e sem direção, se entregam,
as flores que tiveram um cheiro agora são tapetes,
almas de poetas, embriaguez pela cidade, amores, vida e sensação, desrazão.

Bernardo G.B. Nogueira
Conselheiro Lafaiete – chuva.

sábado, 22 de outubro de 2011

A propósito do sentimento em dias de chuva...

Chuvas...chuvas

Para os dias de chuva, uma reflexão,
para as noites de chuva, vinho.
Por entre suas horas, solidão,
por entre seu frio, um carinho.

Em um minuto, seria só,
noutro segundo, intenção.
Um tempo era meu, o outro, divisão,
naquelas gotas: sonhos, uma canção.

Depois da noite, nascimento,
flores, cheiros e invenção.
Do amor de noite, desespero,
manhã que nasce, oração.

Chuva no dia, visão, de noite, inspiração,
marulho bendito, ouvidos e paixão.
Entrou por ali, por longe de mim,
em meu peito um arroubo, chuvas, sonhos e o coração...

Bernardo G.B. Nogueira - dia e noite de pingos.