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sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

o que nasce e não sei não

o que nasce e não sei não

...
se inventou com falas de dentro de mim,
da água do sertão,
e de toda sua profundeza,
                                   sem fim.

pois lá na sua superfície,
que a mim se apresentara forte como o sol,
inundou minha presença quando se abriste,
e foi queda em precipício,
                                         houve cheiro de lírio.

e sob o véu de seus olhos,
houve um tempo novo,
feito broto de rosa,
                               que é flor e não é,

do mesmo jeito que é sem fim todo o sertão,
foste pra mim profundidade e torrente de rio,
também passado e presente,
                                            enfim,

de tanto a água correr e nascer sertão aqui,
apaixonei de ti, por seu mistério,
agora é primavera que não cessa,
morte d’uma e outra anunciação
                                                    agora é Diadorim.

Bernardo G.B. Nogueira
BH – verão - sertão

sábado, 8 de dezembro de 2012

ridículo

ridículo

 
e como é bom ser rídículo nesse caso,
todas as falas sem prender,
ao acaso,
rir e chorar ao mesmo tempo,
sem hora pra voltar, chegar atrasado sem tormento,
não ter uma roupa que se adeque
e bailar feito tonto sobre as regras,
límpidos e bêbados,
infantis e eternos,
com todas as horas perdidas,
ridículo como o palhaço,
ridículo com o cansaço,
entregue, a esmo, sem cessar,
a todo momento cirandar,
partir e não voltar,
isso porque voltar é o mesmo que se vai,
mesmo que voltemos diferentes,
deve-se ir, ir, rir, rir,
soltar a algema e prender pelo olhar,
escrever sem rimas e rimar com a pele,
cantar em um ritmo que não tem,
de maneira que sejamos cada vez mais ridículos,
e quando chegarmos ao cume da montanha,
que saibamos mirar o horizonte e inventá-lo,
descer rolando feito pedras que cortam o vento,
e com toda essa força que quebra qualquer tipo de ornamentação,
beijar enamorados e cândidos sob o aplauso frêmito de ninguém,
pois beijar, amar e ser rídículo são quase sinônimos...

Bernardo G.B. Nogueira
BH...horizontes

quarta-feira, 18 de julho de 2012

da invenção...


da invenção...

“Ai” como eu queria que me surpreendesse,
como seria bom um dia transformado em noite,
descer dos montes flutuando,
sem ver qualquer rastro de atrito do mundo,
subvertê-lo e transformá-lo em meu, e seu,
sem ninguém mais a opinar,
da verdade ou da razão daquele encanto,
do canto composto apenas para nos saudar,
e deixado de lado para nos esquecer,
pra de novo recordar daquilo que irá aparecer,
novo igual a primavera e feliz feito outono,
sem essas coisas já traçadas e possíves de serem vistas,
um espetáculo novo,
arte moderna a tornar ruínas o velho decoro,
como seria feliz meu sorriso,
sem vestígio algum de algo que já foi,
pura criação,
de efeito mágico e sem antepassados
forma ou direção,
como eu queria que me surpreendesse,
nascido feito criança e vivido feito montanha,
pra escalar meus versos e me ensinar o anverso,
como eu queria...

Bernardo G.B. Nogueira
Conselheiro Lafaiete - inverno

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Enquanto isso, fora do espelho...


Enquanto isso, fora do espelho...

Há um conto do escritor argentino Jorge Luís Borges em que ele narra a relação do mundo dos homens com o mundo do espelho. Diz Borges em seu conto que em um tempo muito distante, as criaturas do espelho viviam em paz com os humanos, entrava-se e saia-se do espelho sem problemas. Contudo, em uma noite, as criaturas do espelho invadiram a terra e mesmo que seus poderes fossem manifestamente fortes, o Imperador Amarelo conseguiu vencer as criaturas especulares e lançou um feitiço que as condenou a uma vida presa às formas dos humanos e que as obrigava a repetir tudo que estes fizessem. Mas Borges advertia, um dia as criaturas especulares insurgiriam do fundo dos espelhos e se rebelariam contra os humanos. É, sem dúvida, um conto intrigante que pode ser lido sob vários aspectos.

A democracia, conceito criado pelos gregos antigos, recebe hoje os maiores louros enquanto forma de condução política de um país. É uma ideia solidificada no imaginário dos cidadãos. Ideia que se coloca como garantidora de um tratamento isonômico em relação aos indivíduos dentro do estado. Por óbvio, isso não pode ser visto sem cuidado, sem um olhar crítico. Ora, o fechar de olhos dos cidadãos deixa a polis órfã e mina com qualquer possibilidade de manutenção e realização dos direitos fundamentais que alicerçam a democracia e que devem ser garantidos a todos indistintamente. Essa atenção à práxis da cidade, leia-se, à vida política, é uma forma do homem se reconhecer enquanto tal, pois, como nos adverte Aristóteles, o homem é um zoon politikon. Quer dizer o filósofo, que o homem só se considera enquanto tal, quando participa da polis, quando é cidadão. Frise-se, essa democracia realizada no momento do voto não é nem de longe o bastante para dizer que temos todos os princípios democráticos realizados. É o voto, um dos momentos da democracia, não o único, menos ainda o derradeiro. A perpetuação da democracia se dá quando a imagem do espelho não destoa da imagem do mundo dos humanos.

A relação de quem é votado com quem vota, sustém a ideia de democracia, ou seja, essa relação serve para dizer se há uma democracia real ou uma democracia especular. Partirei nesse momento para o objetivo deste texto.

Vivemos em tempos em que algumas criaturas dos espelhos estão a se rebelar contra os Imperadores Amarelos. Desde o movimento de ocupação de Wall Street, manifestações de estudantes em Bogotá, levantes em uma França discriminadora e racista, até à evidenciação de que o capitalismo financeiro é um “modo de vida” excludente e opressor - todos estes indícios de que os povos do espelho não mais se contentam com a maneira inerte e disforme que lhes é imposta. Nesse sentido, parece que o feitiço da democracia especular anda a ser dissipado por uma nuvem de verdade que ronda a caverna de Platão. Quando me refiro à democracia especular, estou a dizer que por vezes a forma de atuação dos representantes se dá na medida do feitiço que o Imperador Amarelo lançou sobre os povos do espelho. Manuseiam suas armas para instalar a inércia e o silêncio, e furtar a vida mesma dos cidadãos. Querem-nos assemelhados a imagens, apenas a refletir – interessante o uso que esse termo pode possuir - absortos pelo seu feitiço, enquanto passeiam, se equilibrando com a ajuda do seu exército, que tenta garantir que nunca serão incomodados e/ou ter sua legitimidade - obtida nas urnas - colocada em questão. Em uma imagem sugerida por Zizek, enquanto nos colocamos em frente à tela do cinema e nos entretemos com uma realidade criada e facilitada pelo 3D, por trás da tela há uma festa bacante da qual não somos convidados, mas que estamos a patrocinar.

E como se tudo fosse mesmo real, me deparo com o dia doze de maio do ano de dois mil e doze. Dentre outras coisas, essa data já estava a me tocar, uma vez que um dia antes fora meu aniversário de vinte e nove anos. E como não mais estou a morar em Conselheiro Lafaiete, nem pude comemorar meu aniversário com minha família que se radica aqui. Mas, já nos diz a canção, “aos vinte e nove, com retorno de Saturno, decidi começar a viver”. Portanto, meu primeiro dia com esta ideia de vinte e nove parece também ter sido o dia de nascimento de vários outros cidadãos, e mais ainda, da saída definitiva do espelho de algumas criaturas que estavam lá.

A passeata contra a corrupção em Conselheiro Lafaiete é uma mostra aos Imperadores Amarelos, que nós sabemos que por trás da tela do cinema há uma realidade que não chega até o grande público. É uma forma de os cidadãos lafaietenses se portarem de maneira autêntica perante sua existência, e firmar-se como cidadãos, como zoon politikon. Tornarem-se pessoas a partir do que diz Aristóteles. No entanto, aqui não é o momento para tentar descarar os desmandos realizados por detrás da tela. Mas é o momento de enviar um aviso aos humanos de fora do espelho:

As criaturas do espelho estão aqui, e que elas não sejam subjulgadas. As tropas dos Imperadores Amarelos hão de ser vencidas pela ação dos seres do espelho que, ademais, no conto de Borges, serão ajudados pelas criaturas das águas e vencerão os humanos. Assim, para os humanos que não entendem o que são as criaturas do espelho e as criaturas das águas, devem agora se acostumar a uma nova forma de vida. Uma existência que não seja mesquinha, inerte, aproveitadora e individualista, pois, unir-se contra os Imperadores Amarelos, é, desde já, uma forma de parir um novo espécime ainda desconhecido porque há muito adormecido dentro do espelho. Adormecido e amordaçado pelos Imperadores Amarelos.

Doze de maio de dois mil e doze. Data para marcar uma parturiência coletiva em Conselheiro Lafaiete. Dia em que novos cidadãos nasceram. Dia em que a democracia especular deu lugar à democracia real. Dia em que a tela do cinema foi derrubada e as criaturas que viviam lá atrás ficaram receosas de se verem expostas. Dia em que “o rei ficou nu”. Dia em que Conselheiro Lafaiete pode marcar como uma nova emancipação, pois foi nessa data que “aprendemos a viver”, porque foi nesta data que o povo do espelho deixou de ser imagem e tornou-se a cena viva da cidade.

Bernardo G.B. Nogueira
Conselheiro Lafaiete
outono – 12/05/2012

quinta-feira, 3 de maio de 2012

aurora


aurora

pura e crença,
iminência,
dos olhos de ti,
das frestas de mim,

para um vale sem fim,
se esvai em tom,
ausência da voz,
fragrância em pétalas,
e vento que distrai a noite,

vivência
de ninfas intensas,
em balé de cor,
de sempre dizer da flor,

acalenta a seu jeito,
rebenta,

por romper o som,
silência,

toda cor, todo o bom,
inventa.

GB Nogueira
Belo Horizonte – outono, 2012.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Poesia versus poema



Poesia versus poema

Estou diante de ti,
sou eu uma criação sua,
voz que carrega sua trama,
leito que suporta sua lama.

Deito sobre ti
meu seio de sonhos e frustrações,
dizeres malditos sobre suas transformações,
me dou ao seu timbre sem direção,

mais uma vez sou sua,
sem medos,
muda, mundo,
entregue, sem ambição,

Me quero apenas em ti,
sorver seu cheiro e te perder em mim,
labirinto intocado de deus fantasioso,
és cria do impossível, filho desditoso.

Adeus poema,
tens em ti rimas,
métricas e dorso,
sou herói bandido, destruo seu porto.

Bernardo G.B. Nogueira
Conselheiro Lafaiete – quando os sinos dobram

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Sagrado


Sagrado

Me tiraste de mim
como quem rouba o sol,
da flor tenra que espera calor,
do corpo gélido que sucumbe de dor,

deixaste a sombra de um grande arvoredo,
em mata densa me perdeste sem descanso,
de-clamar seu tom, que em mim fizeste manso,
mas foste pela noite em madrugada de pranto.

Levaste sem perdão todo o acalento,
esqueceste por perto todo o tormento,
de não abrires a porta feito céu cinzento

em primavera me vestiste,
para sorveres meu cheiro pleno,

depois me devolveste,
tão selvagem quanto virgem.

Bernardo G.B. Nogueira
Conselheiro Lafaiete

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Conceber

conceber

Nasce em tom de chuva,
se são deslizes não sei,

tem apenas um gosto de primavera,
e um cheiro de um dia de espera.

Tem o arfar de-vagar do seu corpo,
e um líquido bom que bebi em teu enleio,
que desliza inerte dentro de mim,
e que sai pela mata e defunto ri-se sem fim,

é sempre assim quando chove,
há uma invasão do meu interior,
da sua pele escorre o mais puro cheiro,
e da sua face o olhar mais rico, mais faceiro.

Ah,
como são chuvas essas sensações,
como são enternas essas invasões,

de que modo se vive sem um choro?
sem canções,
sem chuvas,
criações.

Bernardo G.B. Nogueira
Conselheiro Lafaiete