segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Sem dizeres, nem tempo, nem dias, poesia!

Atemporal

Ontem tu chegastes,
entrastes em mim,
incontrolável e profunda.

Beijo-te...hoje,
o quanto,
o tanto,
o mesmo dos sonhos.

E mesmo depois,
de já entregue o coração,
nada mais há que dispor,
amanhã também amarei você.

Bernardo G.B. Nogueira

Àqueles que pediram mais e aos que não pediram não...

Antídoto contra "tempos secos"

hoje, mas também, e assim como ontem,
sinto uma vontade grande de te amar,
mas nem posso dizer o que fazer,
o que quero fazer, o amar deve se explicar assim, por ele mesmo, aporia...

Fica difícil tentar explicar,
e apenas com frases e palavras encontrar.
Mas a realidade é plena,
sinto uma vontade grande de te amar...

e por amar assim sem saber o que fazer,
escrevo para dizer que continuarei, no futuro, mas também agora, a te amar,
mesmo sem saber o que fazer,
mesmo só sabendo te amar.

Bernardo G.B. Nogueira Itabirito – invernos secos de 2010/2011...

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

E se foi...em forma de poema, como uma dança...

pedaços, traços e desencanto

Mais um pedaço meu pelo ar,
as suas asas cresceram no pomar lá de casa.
Tinham um pólen risonho,
uma ciranda e um sonho.

Ele se foi de mim como vai a manhã,
com luz, cheiro e sol.
Não tinha nome e nem olhou para trás,
só um rasgo em meus olhos de criança.

De mãos dadas com um gosto, lembrança,
daquelas que aos olhos toma em andanças,
passos leves, passos de dança,
e as folhas então voaram, esperança.

E se foi aquele primeiro pedaço,
acompanhado, abraçado por outros tantos,
que com pés descalços, em meu regaço ia catando,
e já era só um sonhar, sonho de amar, pedaços, traços e desencanto.

Bernardo G.B. Nogueira
Pontes Novas de andanças...

...as coisas vão para o papel né, e depois eu fico aqui tentando catar os cacos de mim mesmo, sem conseguir, pois estão todos perdidos nas palavras...

Isso e mais um pouco...

Pois quando é mulher,
é igual falou o poetinha,
é necessário um choro,
e é preciso também um monte de decoro.

Ter no rosto, um mar que é triste e é revolto,
no corpo, o rabisco perdido de um porto,
um colo quente, que é repouso,
a pele alva d’um amor puro, puro e ditoso.

Olhos de uma vida que nem é dita,
pela boca, a escorrer uma suave nota que é de sonho,
em suas mãos, amor e poesia,
cabelos e olhinhos de princesa, candura e fantasia.

E nesse céu bonito e revoltoso,
me perco em sua lágrima infinta,
e a enxugar minha vida nessa escrita,
meu tremendo amor, amor pela sua vida, bendita!

Bernardo G.B. Nogueira
Ponte Nova – 23/09/2011

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Dizeres de solidariedade e reflexão aos professores em greve...

Teremos orgulho de dizer ao mundo que organizamos uma copa, mas teremos vergonha de dizer ao mundo que não organizamos nossa escola”

Cristovam Buarque

O descobrimento do Brasil

Não iria me pronunciar a respeito da greve de meus colegas professores. Por diversos motivos que vão desde o enfado que sinto das pessoas quando falamos algo diferente do que futebol, música rasteira, como diria Adorno, e/ou qualquer reclame de celebridades. Ou seja, parece que aquilo que retira as pessoas dessa massa amorfa, que retira as pessoas de seu conforto inerte, não interessa. Além disso, precisamos fazer uma mea culpa e dizer que existem profissionais que nem são dignos dessa greve, deveriam eles fazer greve eterna em relação à sua profissão, pois, não carregam em seu coração a chama que deve guiar quem se digna a chamar professor.

Contudo, e depois da fala de Cristovam Buarque, não poderia deixar de fazer coro a esse protesto. Realmente as pessoas parecem não perceber que o problema educacional é ele mesmo o início de muitos do males que nos assolam cotidianamente. Em uma entrevista deste personagem, a despeito de uma viagem sua à Irlanda, dizia que precisaria viajar, salvo melhor juízo, duzentos quilômetros de uma cidade a outra naquele país, bom, isso, no Brasil, poderia ser feito em duas ou três horas no máximo. Mas, no referido país, advertiram ao Senador que não seria interessante viajar, pois estavam já cansados de um dia de trabalho e que a viagem seria muito demorada. O Senador logo replicou: são apenas duzentos quilômetros, no entanto, as autoridades locais disseram que a estrada estava muito ruim e por isso deveriam ir apenas no outro dia. No mesmo instante o Senador então assevera: Com uma educação tão interessante como a de vocês, como têm estradas tão ruins? Daí o representante retrucou: “Exatamente por isso, precisamos investir em educação antes de investir nas estradas...”

Parece-me a mim que essa é uma clara mostra do momento em que vivemos em nosso país. A euforia com investimentos estrangeiros, a euforia com exportações exorbitantes do minério de ferro, a economia que chama os problemas mundiais de “marola” e por aí vai um sem fim de soluções imediatistas; bem à maneira massificada que não reflete sobre o existir. A sociedade de consumo agora quer a Copa do Mundo, e a questão educacional não é p’ra hoje, nem produz ibope na mídia. Mídia que para muitos se tornou o termômetro que aufere o grau de importância dos problemas. É interessante que quando viramos as costas para um problema desta monta, percebemos o quanto somos deseducados, ora, um país que não tem na ordem do dia o problema educacional, não pode ser chamado de outra coisa senão, mal educado, ou pior, por vezes nem mal nem bem educado, simplesmente, inconsciente disso, ignorante, portanto. É uma tautologia nossa existência: Somos deseducados pois não sabemos a importância da educação. Não sabemos a importância da educação por isso nos tornamos deseducados...

Poderia até fazer um discurso apologético, para satisfazer os marxistas mais revoltos, poderia dizer que o povo vai oprimido por isso, e que nesse desleixo com a educação pública, atua uma parafernália ideológica que quer manter o status quo. Assim, fazendo o povo negar a música dos Titãs, ou pior, nem entendê-la e cantar: “a gente quer só comida...”, o resto da canção não é acessível, mas não vou por esse lado, apesar de não desconhecê-lo. O problema é maior, e para que fique claro, inconstitucional. Esse descaso significa negar às pessoas aquilo que lhes é ínsito, sua possibilidade de ser projeto, uma rasa hermenêutica da tão proclamada dignidade da pessoa humana nos daria esse tom. Quando a educação não é o télos do Estado, ele está, em verdade, furtando ao ser humano aquilo que tem em seu gene, sua possibilidade, ademais, sem educação não percebemos que podemos ser mais do que aquilo que o programa do governo permite que sejamos, por isso não reivindicamos, por isso não nos preocupamos com a educação.

Meus colegas professores não estão a pedir nada demais. Em um refrão de outra banda brasileira, aliás, bem a propósito, nascida em Brasília, nos diz: “até quando esperar a plebe ajoelhar, esperando a ajuda de Deus...” Parece que devem mesmo levantar as mãos aos céus, mesmo àqueles que não têm fé, parece mais fácil um ateu rezar um pai-nosso que o Brasil perceber que os professores é que deveriam mover o país, que a partir deles deveriam vir as melhores ideias e ideais a serem defendidos pelas crianças e jovens, mas, com fome ninguém sequer raciocina, e é interessante perceber como nosso país se acostumou a pensar que o professor precisa apenas comer, pois o salário que chamam base, desculpem, não dá nem para sustentar a biblioteca do professor, quiçá, investir em seu aperfeiçoamento. Daí é a bola de neve que já é de sabedoria de todos. Aliás, todos não, pois se assim fosse revoltar-nos íamos contra isso e não deixaríamos aquele que nos ensinou os primeiros passos, cambiar ao ensinar as futuras gerações. Não esqueceríamos d"a professora Adélia, a tia Edilamar e a tia Esperança..."

Bom ,está dito, haveria muito mais por dizer, contudo, me solidarizo com meus colegas, legitimo as ações deles, mas convoco os pais dos alunos a também se unirem a isso. A educação não pode ser um meio para os pais se sentirem livres de seus filhos enquanto estão na escola, precisa ser o projeto de construção da criança e do jovem e assim, por consequência, dos pais. Portanto, pais, não entreguem seus filhos ao professor, ele ficará desamparado se isso ocorrer. Seja também um seu professor. O descaso com os professores é parecido com o descaso com uma plantação em seu início, os frutos e a vivacidade da árvore são consequência da forma como foi cultivada, nesse sentido, parece que nosso solo, tão fértil, caminha para a inanição.

Desde os gregos antigos sabemos que a educação é o que distingue uma polis que se queira digna. O esporte, também seria necessário para a formação do bom cidadão. O problema é inverter a questão. O problema é colocar isso tudo na frente da educação. Não precisamos formar 100% de intelectuais, mas precisamos ao menos garantir às pessoas a possibilidade de se entenderem no mundo e não apenas receberem o mundo. Isso é uma enorme diferença. Enquanto em países como a Colômbia os governantes saem à caça de Faculdades mercantilistas, no Brasil, percebemos cada vez mais um sucateamento do ensino, mas essa é outra história e não poderá ser explorada aqui. Com esse escrito quero apenas fazer como Boff e Buarque, que acreditam na educação e se colocam ao lado dos professores em greve. Coloco-me ao lado deles para que não precisemos pedir a Brasília que acorde do sono letárgico de sua caverna e ouça em bom volume aquilo que a Legião Urbana não cansa de sussurrar em nossos ouvidos e corações: “vamos comemorar como idiotas, a cada fevereiro e feriado (...) vamos celebrar a hipocrisia é a festa da torcida campeã!”

Bernardo G.B. Nogueira – Professor.

Conselheiro Lafaiete – na greve dos professores de 2011.

Perfeição - Legião Urbana:

http://www.youtube.com/watch?v=UueCjRrQLM4&ob=av2e

Fala do Senador BUARQUE:

http://www.youtube.com/watch?v=PaDoisjnZFA

sábado, 17 de setembro de 2011

À tardinha, como queria Florbela, ou mesmo..."de madrugada"


de madrugada...

precisei voltar e descansar,
deitei meus olhos em teu seio,
um colo eterno de mil faces,
com um arfar divino, quase um ultraje.

Esse regresso fora minha oração,
verso entoado como sopros de canção.
Amores ao vento, de mãos dadas, união.

Tinha uma lágrima que descia,
um suspiro contido em uma  falsa harmonia,
e os olhares, muito de perto, não se viam.

Regressar é mesmo assim,
o porto sempre ali, os amores não.
A alma, resta perdida,
e ao acaso, exausto, o coração.  

Bernardo G.B. Nogueira
Conselheiro Lafaiete – inverno – 2011.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Poeminha, em dias que se iniciam de tarde...

Hoje de tarde,

não queria o dia tão azul,
nem precisava de uma noite com tantas estrelas.
Os pardais poderiam se dispor de sua sinfonia,
e as nuvens no céu, disformes se dariam.

não queria um som tão afinado,
a mim bastava tocar o chão molhado,
no recanto de minh’alma,
eu, e minha mágoa, be e mol, e mais nada.

os olhares deveriam ser desviados,
o rosto inerte já seria meu resguardo.
O vento frio que chega daquela fresta entre os prédios, seria ele meu regato,
choro de criança, choro soluçado.

poderia ser menos que ontem,
um amanhã de silêncio por entre um presente tão animado,
de resto, poderíamos decidir pelo abraço,
escolher um silêncio e um sorriso não forçado.

poderia ser sempre,
sempre amor e sempre paz,
sempre sorriso e sempre abraço,
sem céus e sem sons, sempre um olhar leve e encantado.

Bernardo G.B. Nogueira 11/09/2011 – Conselheiro Lafaiete

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Sonhar é amar?

Impossível

“Eu amava como jamais poderia...Se soubesse como te encontrar...”

Os últimos versos da canção que a muito lhe insistia em não sair do pensamento foram o bastante para reagir diante da névoa que também insistia em cobrir seu horizonte. Estava decidido. Iria procurar. Inventar talvez...Sonhar!

As primeiras ações foram, vestir uma roupa que não despertasse nos outros qualquer fagulha do sentimento que demovia suas ações, e se despir do medo do desconhecido, precisava encontrar.

Além do cigarro que ficara por fumar, alguns rabiscos de um poema não terminado foram as últimas lembranças antes de sair.

As ruas se mostraram então indescritíveis àquela alma tomada pela busca que agora se propunha. Pareciam labirintos de um jogo que estava prestes a inventar. Os sentidos digladiavam dentro de si como numa batalha medieval, entre animal e homem.

Aqueles passos à deriva de uma busca contumaz o levavam cada vez mais para o labirinto que acabara de inventar. Não queria ir, mas a guerra dos sentidos estava a ser vencida pela possibilidade que agora o movia. Não poderia mais parar.

Os transeuntes, tais como os moinhos de vento, pareciam obstáculos a serem vencidos, não poderia perder nem um segundo com o palavrório trivial dos dias que antecediam àquele surto.

Aquela caminhada não fora pré-definida em nenhum momento. Talvez nem existisse. Por isso, a necessidade de não perder o momento, a ideia, o sonho, o sentimento.

Diante das vitrines das lojas que vendiam histórias mil, nada retirava dele o instante que estava por vir, realmente era o dia mais especial de sua existência, outrora tão vazia entre tantas outras da mesma forma.

Parou diante de alguns automóveis, poderia ser mais uma dentre tantas vezes que parava ante os automóveis. A sensação daquela caçada consumia suas entranhas com a força de um roedor astuto, era preciso fazer algo.

Aqueles automóveis se foram, levando pessoas que, como ele, também viviam a fugacidade do dia-a-dia. No entanto, algo se modificou com a partida daqueles carros. Do outro lado da rua, não havia mais aquele neon comum às vitrines, havia um espelho.

Esse encontro “narcísico” fora o bastante para interromper sua caminhada pelo labirinto que estava a criar. E num espasmo da razão vencendo a emoção, uma triste realidade se mostrara.

Agora, já ouvia os transeuntes a reclamarem, as buzinas dos automóveis a soar, o apito do policial que insistia em silvar, o latido do cachorro que insistia em lhe chamar.

Acordou (!), junto com os sons da rua, o do despertador velho herdado da mãe. Eram sete da manhã e os afazeres de mais um dia de trabalho lhe esperavam.

Não havia a namorada, não havia o amor, não havia a busca. Restava apenas, o rosto envelhecido pela decepção, os sentidos apagados por tão cruel revelação, o corpo abatido pela exaustão e a esperança encerrada por um dia ter sonhado encontrar um amor que não se pôde criar.

Amou apenas, mas, sonhou...

Bernardo G.B. Nogueira


Oswaldo Montenegro

Lua e Flor

Eu amava

Como amava algum cantor
De qualquer clichê
De cabaré, de lua e flor...

E sonhava como a feia
Na vitrine
Como carta
Que se assina em vão...

Eu amava
Como amava um sonhador
Sem saber porquê
E amava ter no coração
A certeza ventilada de poesia
De que o dia, amanhece não...

Eu amava
Como amava um pescador
Que se encanta mais
Com a rede que com o mar
Eu amava, como jamais poderia
Se soubesse como te encontrar...

Eu amava
Como amava algum cantor
De qualquer clichê
De cabaré, de lua e flor...

Eu sonhava como a feia
Na vitrine
Como carta
Que se assina em vão...

Eu amava
Como amava um pescador
Que se encanta mais
Com a rede que com o mar
Eu amava como jamais poderia
Se soubesse como te encontrar...

http://www.youtube.com/watch?v=FOcPfSbtQWs

domingo, 31 de julho de 2011

LOPE DE VEGA

Rendo aqui minha tardia homenagem a Lope de Vega. Poeta que tive acesso a poucos dias e que, de pronto, encantou.
Fantástico!!!

Файл:Lope de Vega (M. Fuxà) Madrid 01.jpg

DESMAYARSE, ATREVERSE, ESTAR FURIOSO

"Desmayarse, atreverse, estar furioso,
áspero, tierno, liberal, esquivo,
alentado, mortal, difunto, vivo,
leal, traidor, cobarde, animoso,

no hallar, fuera del bien, centro y reposo,
mostrarse alegre, triste, humilde, altivo,
enojado, valiente, fugitivo,
satisfecho, ofendido, receloso.

Huir el rostro al claro desengaño,
beber veneno por licor süave,
olvidar el provecho, amar el daño;

creer que un cielo en un infierno cabe,
dar la vida y el alma a un desengaño:
esto es amor. Quien lo probó lo sabe."


"Desmaiar-se, atrever-se, estar furioso,
áspero, terno, liberal, esquivo,
alentado, mortal, defunto, vivo,
leal, traidor, covarde e valoroso;


não ver, fora do bem, centro e repouso,
mostrar-se alegre, triste, humilde, altivo,
enfadado, valente, fugitivo,
satisfeito, ofendido, receoso;


furtar o rosto ao claro desengano,
beber veneno qual licor suave,
esquecer o proveito, amar o dano;


acreditar que o céu no inferno cabe,
doar sua vida e alma a um desengano,
isto é amor; quem o provou bem sabe."


SONETO DE REPENTE

"Um soneto me pede Violante,
nunca na vida estive em tal aperto;
quatorze versos dizem que é soneto:
brinca brincando lá vão três avante.

Não pensei que encontrasse consoante,
e na metade estou de outro quarteto;
mas, se me vem o início de um terceto,
cá nos quartetos nada há que me espante.

No primeiro terceto vou entrando,
e parece que entrei com o pé direito,
pois fim com este verso lhe vou dando.

Estou já no segundo, e ainda suspeito
que vou os treze versos acabando;
contai se são quatorze, e ei-lo: está feito."


domingo, 24 de julho de 2011

É possível não ser escritor?

Desistiu de ser escritor

Desistiu de ser escritor. Agora já não mais interessava toda aquela parafernália de obras póstumas de autores consagrados. Nem foram consagrados por ele mesmo.

Aquela bagunça de pensamentos que envolve o sem fim de ideias que ao escritor não cansam de tirar o sono, nunca mais! Não queria mais decifrar os olhares, se apaixonar pelos perfumes, enxergar o não visto, não. Ser sutil, nunca mais.

Decidido, caiu em um mar de certezas. Certeza de que sua escrita não mais seria criticada. Certeza de que sua vida não mais seria destrinchada. Certeza de que aqueles elogios vagos de seus leitores não mais iriam comovê-lo. Decidiu-se por sua vida, pelo menos assim pensou.

Nessa batida do coração, foi ao encontro da nova vida que agora lhe esperava. Que alívio(!), não precisaria mais se perder ao observar os casais apaixonados e dizer sobre o amor, ou a falta dele. A natureza, que por vezes lhe fazia suspirar em poemas inspirados, agora serviria apenas para agradar o olfato dentro da cidade poluída. E a angústia, «ah»(!), esta seria a melhor parte, nem seria percebida, ora, a partir de então, ela não mais seria sua cúmplice na tentativa de desvendar o que fazia seu coração e corpo palpitarem, dançarem músicas antes não escutadas...adeus à estrela bailarina nietzschiana!

Parecia que naquele dia estaria a re-viver. Sentimento estranho a alguém que estava acostumado aos clarões da noite. O dia passava inerte enquanto esperava o novo laivo de torpor para tornar-se escritor e todo aquele processo lhe tomar os sentidos: Sentir, quase transpirar... medo, angústia, e depois, a folha em branco a rir de sua face tresloucada pelo susto que as novas ideias lhe trariam.

Sentiu um enorme conforto com essa decisão. O humor não mais seria um ponto de partida para nenhum escrito. Seria apenas humor, ou mau humor. O gosto, tantas vezes elogiado ao referir-se a cousas interessantes em seus escritos, não mais seria notado, poderia apenas não pratica-lo. E aquilo que chamavam sensibilidade de poeta, poderia agora até mesmo fazer chacota, poderia ser uma pedra! Aquele olhar “clínico” que só escritor tem, «hahaha», deixaria agora para os doutores...decidiu não ser mais escritor. E as belas palavras que compunham seu vasto repertório lírico de poemas, agora poderiam ser usadas para preencher uma sopa de letrinhas que compraria na banca que só vendia o jornal que só falava de coisas triviais. Não precisaria mais criticar aquele jornal trivial, agora não era mais escritor.

Que privilégio(!), pensou. Agora eu posso passar pelas ruas sem que as virtualidades de cada sujeito se transformem em uma história épica em minha larga imaginação. Poderia me concentrar em viver. Viver sem que cada momento pudesse ser fotografado pela lente do escritor e depois revelado em um texto qualquer.

Depois de haver se decidido por não mais ser escritor sentiu a liberdade que antes as palavras lhe roubavam. Sentiu a paz que os brados dos pensamentos não lhe davam.

Sentiu também, saudade do tempo que perdeu a escrever. Sentiu vontade de escrever que não deveria ter escrito nada. Percebeu que não podia deixar de sentir. Percebeu que quando voltasse ali não seria mais ele. Não seria escritor. Sentiu vontade de estar ali novamente. Sentiu vontade de novo. Sentiu vontade de escrever sobre quem ele havia se tornado quando deixou de ser escritor.

Sentiu vontade de escrever...

Bernardo G.B. Nogueira

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Nunca as palavras de Pessoa me foram tão reais: "Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade. Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer"



O livro "Dois olhares sobre Florbela Espanca" acaba de ficar pronto...agora são aquelas fases das quais prefiro me manter bem distante, talvez pelo excesso de "ãos"... revisão, diagramação...impressão.

É um projeto em que ganhei de várias formas: Primeiro um amigo, que foi meu parceiro no livro, o músico, poeta Marcos Assumpção. Depois, ganho o sentimento de Florbela em mim, e que tentei deixar sair em minhas palavras, claro que não consegui. Mas, como considero esse livro um ponto de partida, está tudo certo. Mantenho minha parceria com meu amigo Ramon Mapa da Silva, que escreveu uma apresentação da qual minhas palavras não são dignas, vocês verão. Tem ainda um retorno ao Portugal que ainda me enche de saudades. Noites em que renasci. Noites de insônia, regadas a música, poesia, romance, sonhos, amores, palavras, palavras, palavras... e algumas boas doses de vinhos e uísque. Tem, principalmente, as pessoas que escreveram esse livro comigo, com seus olhares, seus sentimentos, suas críticas, aliás, essa construção do projeto, e do outro, é o mais importante ao fim de tudo.

Vejam esse link, dá acesso ao site do Marcos Assumpção. Lá poderão ver o cd "A flor de Florbela" - que deu origem à nossa saga por entre Florbela Espanca:
http://www.marcosassumpcao.com.br/


Em Agosto o livro sai publicado com palestras e lançamentos a serem divulgados a contento. O que senti quando encerrei o livro está aí nesse pequeno poema:

o FIM...

está aí,
a réstia de inspiração,
a réstia de Florbela,
a réstia de sonhos,
a réstia de coração.

está aí,
o fardo de minha vida,
minha vida de ilusão,
o fogo do meu corpo,
meu corpo de paixão.

está aí,
o cadáver do meu coração,
o cadáver da minha paixão,
o cadáver que me fez pó,
o cadáver de minha inspiração.

está aí,
a morte de minhas letras,
a vida d'outra canção,
a morte dos pensamentos,
a vida viva, um turbilhão.

está aí,
bem na sua frente,minha vida em mostração,
bem na sua frente, meu peito ávido de emoção,
bem na sua frente, minha maldita entonação,
bem na sua frente, todo meu amor, em forma de canção.

Bernardo G.B. Nogueira - inverno - Conselheiro Lafaiete

terça-feira, 21 de junho de 2011

E agora que o outono se foi...que o inverno "saiba cuidar de nós..."

Talvez

Talvez você não se lembre,
você não tenha coragem...
você não seja imperfeita,
você não escreva, não diga...
você não encontre perguntas.

Talvez eu não me lembre,
eu não tenha coragem...
eu não seja imperfeito,
eu não escreva, não diga...
eu não encontre perguntas.

Talvez...
nós tenhamos que construir...para lembrarmos,
nós nos tornemos heróis destemidos,
para nós, a imperfeição seja essa busca,
nós estejamos já escritos, o dizer, é fato,
nós não devamos mais perguntar...

Talvez não, juntos..."

Bernardo G.B. Nogueira

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Para viver um grande amor

Do momento que antecede...

"...antes
antes que me diga algo,
tento lhe roubar mais um suspiro,
antes que seja minha,
tento lhe roubar mais um sorriso,
antes que olhe para o lado,
tento lhe trazer mais um quadro,
antes que não me escute mais,
tento lhe escrever uma canção,
antes que o mar nos afaste,
tento lhe construir um navio,
antes que sua boca não fale a mim,
tento lhe furtar mais um beijo,
antes que não leia esse poema,
tento lhe escrever que amo você..."

Bernardo G.B. Nogueira
Itabirito, em um outono inspirador e necessário como a poesia..."para viver um grande amor..."

terça-feira, 14 de junho de 2011

Não vivo, inspiro-me...

vida perdida...

e assim, de tanto poetar,
acabei da vida a me desvencilhar,
criei um mar, e por lá fui navegar,
com versos, todos eles para lho desbravar...

e foi assim,
sem mais, nem menos.
Um bailar, ora, só me restava a mim poetizar,
e nisso estava a me alimentar...

e não vivia, enfim,
inspirava-me!
Ora ao mar, por vezes na brisa,
sempre em busca de seu perdido olhar...

Bernardo G. B. Nogueira Itabirito – outono – 2011.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Em homenagem ao aniversário de Pessoa...


Falar de Pessoa

Falar de Pessoa...

Falar de Pessoa é já se obrigar a não falar dele mesmo. É admitir falar de outro sabendo que o outro é ele, e assim, igual. Saber que em um se encontram mil, mas saber que esse mil, é já, um só. Um só que se admite entre aqueles vários, que se cria em diversos, e encontra nos outros o traço fundamental de si, ser um, a constituir todos, portanto, sempre a ser mais, e maior.

O fingimento da existência é natural a quem se dá às criações, e mais ainda(!), a quem de sua vida faz ela mesma sua maior obra de arte. Seja em prosa, seja em verso, fica maior a cada “penada” que é dada, a cada rascunhar de si, refletido na ausência de um corpo que é só criação, invenção, portanto. Alienar sua existência na escrita, mas ao mesmo tempo criá-la...sempre!

E a imaginar, de tanto imaginar (!), um só não dá mais para sustentar tanto dizer que sai dali. É preciso o outro para que a imaginação não fique paralisada naquele primeiro pensamento que surgiu daquele primeiro um. É no outro que a imaginação faz florir sua semente, é por ali que ela se vai completar, mesmo que não se acabe, mesmo que sem cessar...

Daí, depois que imagino, já não há mais como controlar...agora já são pessoas e pessoas a me povoar, e preciso delas me libertar, preciso com elas partilhar, pois se não o fizer, fico com uma sensação angustiosa que se assemelha a um artista a interpretar sempre para o mesmo público, sempre com a mesma máscara.

Os sentimentos são tantos, que quando estou a criar nessa minha imaginação fingidora e fantasiosa, as pessoas acabam por se encontrar nesses meus devaneios, e me rio delas quando interpelam como conseguira a elas traduzir tão fielmente..? Ora pessoas!. Não há sentimentos quando estou a escrever ou a poetar, “simplesmente sinto
com a imaginação” e por não me prender a uma pessoa ou a um sentimento, é que acabo por transcender a mim e encontrar você. Por isso preciso de tantas pessoas a me auxiliar...

Mas eu preciso confessar uma cousa...

Tem sempre um momento nesses instantes de imaginação que algo me é ocultado. Pois, enquanto estou poeta e começo a fingir em meio a minhas criações, por vezes, acabo nelas a me perder. Poderia ser um instante de medo, por estar a perder as rédeas de minhas sensações - e a confundir vida e criação – e há não mais saber onde andaria o verdadeiro chão. Mas, não há medo, ora, a existência, aliás, como diria outro poeta também, está à altura do que posso enquanto pensar... ”numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo...” Daí, me deixo ir, ora em companhia de uma pessoa, ora de outra... “Sentir? Sinta quem lê...”

Ah! Já ia me esquecer! Essas pessoas nem existem. E agora me pego a lembrar de que há a necessidade da falta de algo para que ele possa então existir. Verdade! Essas pessoas não existem! Mas é claro! Se existissem, nem poderiam ter sido criadas, pois, quando o pensar se realiza, deixa mesmo de existir. E o poeta, quando realiza seus sentimentos, perde o sentido de seu perquirir. Por isso, pessoas são necessárias, não ao existir, mas enquanto possibilidades de inventar sentimentos ainda não descritos; para neles viver, para deles se nutrir e sobre eles escrever... mesmo que não existam, mesmo que sejam mentira ou fingimento, mesmo que sejam imaginações.

”Dizem que finjo ou minto tudo que escrevo. Não. O poeta é um fingidor.”

Bernardo G.B. Nogueira

Outono frio e real – Itabirito – 2011.


ISTO

Dizem que finjo ou minto
Tudo que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.

Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.

Por isso escrevo em meio
Do que não está de pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é.
Sentir? Sinta quem lê!

Fernando Pessoa

AUTOPSICOGRAFIA

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

Fernando Pessoa