Atemporal
Ontem tu chegastes,
entrastes em mim,
incontrolável e profunda.
Beijo-te...hoje,
o quanto,
o tanto,
o mesmo dos sonhos.
E mesmo depois,
de já entregue o coração,
nada mais há que dispor,
amanhã também amarei você.
Bernardo G.B. Nogueira
Este blog tem como objetivo a publicação, criação e discussão d'lgumas ideias e sonhos...ideias poéticas, filosóficas, romanescas, musicais, teatrais, cinematográficas, artísticas...e de vez em quando, jurídicas...
Atemporal
Ontem tu chegastes,
entrastes em mim,
incontrolável e profunda.
Beijo-te...hoje,
o quanto,
o tanto,
o mesmo dos sonhos.
E mesmo depois,
de já entregue o coração,
nada mais há que dispor,
amanhã também amarei você.
Bernardo G.B. Nogueira
Antídoto contra "tempos secos"
pedaços, traços e desencanto
Isso e mais um pouco...
Teremos orgulho de dizer ao mundo que organizamos uma copa, mas teremos vergonha de dizer ao mundo que não organizamos nossa escola”
Cristovam Buarque
O descobrimento do Brasil
Não iria me pronunciar a respeito da greve de meus colegas professores. Por diversos motivos que vão desde o enfado que sinto das pessoas quando falamos algo diferente do que futebol, música rasteira, como diria Adorno, e/ou qualquer reclame de celebridades. Ou seja, parece que aquilo que retira as pessoas dessa massa amorfa, que retira as pessoas de seu conforto inerte, não interessa. Além disso, precisamos fazer uma mea culpa e dizer que existem profissionais que nem são dignos dessa greve, deveriam eles fazer greve eterna em relação à sua profissão, pois, não carregam em seu coração a chama que deve guiar quem se digna a chamar professor.
Contudo, e depois da fala de Cristovam Buarque, não poderia deixar de fazer coro a esse protesto. Realmente as pessoas parecem não perceber que o problema educacional é ele mesmo o início de muitos do males que nos assolam cotidianamente. Em uma entrevista deste personagem, a despeito de uma viagem sua à Irlanda, dizia que precisaria viajar, salvo melhor juízo, duzentos quilômetros de uma cidade a outra naquele país, bom, isso, no Brasil, poderia ser feito em duas ou três horas no máximo. Mas, no referido país, advertiram ao Senador que não seria interessante viajar, pois estavam já cansados de um dia de trabalho e que a viagem seria muito demorada. O Senador logo replicou: são apenas duzentos quilômetros, no entanto, as autoridades locais disseram que a estrada estava muito ruim e por isso deveriam ir apenas no outro dia. No mesmo instante o Senador então assevera: Com uma educação tão interessante como a de vocês, como têm estradas tão ruins? Daí o representante retrucou: “Exatamente por isso, precisamos investir em educação antes de investir nas estradas...”
Parece-me a mim que essa é uma clara mostra do momento em que vivemos em nosso país. A euforia com investimentos estrangeiros, a euforia com exportações exorbitantes do minério de ferro, a economia que chama os problemas mundiais de “marola” e por aí vai um sem fim de soluções imediatistas; bem à maneira massificada que não reflete sobre o existir. A sociedade de consumo agora quer a Copa do Mundo, e a questão educacional não é p’ra hoje, nem produz ibope na mídia. Mídia que para muitos se tornou o termômetro que aufere o grau de importância dos problemas. É interessante que quando viramos as costas para um problema desta monta, percebemos o quanto somos deseducados, ora, um país que não tem na ordem do dia o problema educacional, não pode ser chamado de outra coisa senão, mal educado, ou pior, por vezes nem mal nem bem educado, simplesmente, inconsciente disso, ignorante, portanto. É uma tautologia nossa existência: Somos deseducados pois não sabemos a importância da educação. Não sabemos a importância da educação por isso nos tornamos deseducados...
Poderia até fazer um discurso apologético, para satisfazer os marxistas mais revoltos, poderia dizer que o povo vai oprimido por isso, e que nesse desleixo com a educação pública, atua uma parafernália ideológica que quer manter o status quo. Assim, fazendo o povo negar a música dos Titãs, ou pior, nem entendê-la e cantar: “a gente quer só comida...”, o resto da canção não é acessível, mas não vou por esse lado, apesar de não desconhecê-lo. O problema é maior, e para que fique claro, inconstitucional. Esse descaso significa negar às pessoas aquilo que lhes é ínsito, sua possibilidade de ser projeto, uma rasa hermenêutica da tão proclamada dignidade da pessoa humana nos daria esse tom. Quando a educação não é o télos do Estado, ele está, em verdade, furtando ao ser humano aquilo que tem em seu gene, sua possibilidade, ademais, sem educação não percebemos que podemos ser mais do que aquilo que o programa do governo permite que sejamos, por isso não reivindicamos, por isso não nos preocupamos com a educação.
Meus colegas professores não estão a pedir nada demais. Em um refrão de outra banda brasileira, aliás, bem a propósito, nascida em Brasília, nos diz: “até quando esperar a plebe ajoelhar, esperando a ajuda de Deus...” Parece que devem mesmo levantar as mãos aos céus, mesmo àqueles que não têm fé, parece mais fácil um ateu rezar um pai-nosso que o Brasil perceber que os professores é que deveriam mover o país, que a partir deles deveriam vir as melhores ideias e ideais a serem defendidos pelas crianças e jovens, mas, com fome ninguém sequer raciocina, e é interessante perceber como nosso país se acostumou a pensar que o professor precisa apenas comer, pois o salário que chamam base, desculpem, não dá nem para sustentar a biblioteca do professor, quiçá, investir em seu aperfeiçoamento. Daí é a bola de neve que já é de sabedoria de todos. Aliás, todos não, pois se assim fosse revoltar-nos íamos contra isso e não deixaríamos aquele que nos ensinou os primeiros passos, cambiar ao ensinar as futuras gerações. Não esqueceríamos d"a professora Adélia, a tia Edilamar e a tia Esperança..."
Bom ,está dito, haveria muito mais por dizer, contudo, me solidarizo com meus colegas, legitimo as ações deles, mas convoco os pais dos alunos a também se unirem a isso. A educação não pode ser um meio para os pais se sentirem livres de seus filhos enquanto estão na escola, precisa ser o projeto de construção da criança e do jovem e assim, por consequência, dos pais. Portanto, pais, não entreguem seus filhos ao professor, ele ficará desamparado se isso ocorrer. Seja também um seu professor. O descaso com os professores é parecido com o descaso com uma plantação em seu início, os frutos e a vivacidade da árvore são consequência da forma como foi cultivada, nesse sentido, parece que nosso solo, tão fértil, caminha para a inanição.
Desde os gregos antigos sabemos que a educação é o que distingue uma polis que se queira digna. O esporte, também seria necessário para a formação do bom cidadão. O problema é inverter a questão. O problema é colocar isso tudo na frente da educação. Não precisamos formar 100% de intelectuais, mas precisamos ao menos garantir às pessoas a possibilidade de se entenderem no mundo e não apenas receberem o mundo. Isso é uma enorme diferença. Enquanto em países como a Colômbia os governantes saem à caça de Faculdades mercantilistas, no Brasil, percebemos cada vez mais um sucateamento do ensino, mas essa é outra história e não poderá ser explorada aqui. Com esse escrito quero apenas fazer como Boff e Buarque, que acreditam na educação e se colocam ao lado dos professores em greve. Coloco-me ao lado deles para que não precisemos pedir a Brasília que acorde do sono letárgico de sua caverna e ouça em bom volume aquilo que a Legião Urbana não cansa de sussurrar em nossos ouvidos e corações: “vamos comemorar como idiotas, a cada fevereiro e feriado (...) vamos celebrar a hipocrisia é a festa da torcida campeã!”
Bernardo G.B. Nogueira – Professor.
Conselheiro Lafaiete – na greve dos professores de 2011.
Perfeição - Legião Urbana:
http://www.youtube.com/watch?v=UueCjRrQLM4&ob=av2e
Fala do Senador BUARQUE:
http://www.youtube.com/watch?v=PaDoisjnZFA
Hoje de tarde,
Impossível
“Eu amava como jamais poderia...Se soubesse como te encontrar...”
Os últimos versos da canção que a muito lhe insistia em não sair do pensamento foram o bastante para reagir diante da névoa que também insistia em cobrir seu horizonte. Estava decidido. Iria procurar. Inventar talvez...Sonhar!
As primeiras ações foram, vestir uma roupa que não despertasse nos outros qualquer fagulha do sentimento que demovia suas ações, e se despir do medo do desconhecido, precisava encontrar.
Além do cigarro que ficara por fumar, alguns rabiscos de um poema não terminado foram as últimas lembranças antes de sair.
As ruas se mostraram então indescritíveis àquela alma tomada pela busca que agora se propunha. Pareciam labirintos de um jogo que estava prestes a inventar. Os sentidos digladiavam dentro de si como numa batalha medieval, entre animal e homem.
Aqueles passos à deriva de uma busca contumaz o levavam cada vez mais para o labirinto que acabara de inventar. Não queria ir, mas a guerra dos sentidos estava a ser vencida pela possibilidade que agora o movia. Não poderia mais parar.
Os transeuntes, tais como os moinhos de vento, pareciam obstáculos a serem vencidos, não poderia perder nem um segundo com o palavrório trivial dos dias que antecediam àquele surto.
Aquela caminhada não fora pré-definida em nenhum momento. Talvez nem existisse. Por isso, a necessidade de não perder o momento, a ideia, o sonho, o sentimento.
Diante das vitrines das lojas que vendiam histórias mil, nada retirava dele o instante que estava por vir, realmente era o dia mais especial de sua existência, outrora tão vazia entre tantas outras da mesma forma.
Parou diante de alguns automóveis, poderia ser mais uma dentre tantas vezes que parava ante os automóveis. A sensação daquela caçada consumia suas entranhas com a força de um roedor astuto, era preciso fazer algo.
Aqueles automóveis se foram, levando pessoas que, como ele, também viviam a fugacidade do dia-a-dia. No entanto, algo se modificou com a partida daqueles carros. Do outro lado da rua, não havia mais aquele neon comum às vitrines, havia um espelho.
Esse encontro “narcísico” fora o bastante para interromper sua caminhada pelo labirinto que estava a criar. E num espasmo da razão vencendo a emoção, uma triste realidade se mostrara.
Agora, já ouvia os transeuntes a reclamarem, as buzinas dos automóveis a soar, o apito do policial que insistia em silvar, o latido do cachorro que insistia em lhe chamar.
Acordou (!), junto com os sons da rua, o do despertador velho herdado da mãe. Eram sete da manhã e os afazeres de mais um dia de trabalho lhe esperavam.
Não havia a namorada, não havia o amor, não havia a busca. Restava apenas, o rosto envelhecido pela decepção, os sentidos apagados por tão cruel revelação, o corpo abatido pela exaustão e a esperança encerrada por um dia ter sonhado encontrar um amor que não se pôde criar.
Amou apenas, mas, sonhou...
Bernardo G.B. Nogueira
Como amava algum cantor
De qualquer clichê
De cabaré, de lua e flor...
E sonhava como a feia
Na vitrine
Como carta
Que se assina em vão...
Eu amava
Como amava um sonhador
Sem saber porquê
E amava ter no coração
A certeza ventilada de poesia
De que o dia, amanhece não...
Eu amava
Como amava um pescador
Que se encanta mais
Com a rede que com o mar
Eu amava, como jamais poderia
Se soubesse como te encontrar...
Eu amava
Como amava algum cantor
De qualquer clichê
De cabaré, de lua e flor...
Eu sonhava como a feia
Na vitrine
Como carta
Que se assina em vão...
http://www.youtube.com/watch?v=FOcPfSbtQWs
DESMAYARSE, ATREVERSE, ESTAR FURIOSO
SONETO DE REPENTE
Desistiu de ser escritor
Desistiu de ser escritor. Agora já não mais interessava toda aquela parafernália de obras póstumas de autores consagrados. Nem foram consagrados por ele mesmo.
Decidido, caiu em um mar de certezas. Certeza de que sua escrita não mais seria criticada. Certeza de que sua vida não mais seria destrinchada. Certeza de que aqueles elogios vagos de seus leitores não mais iriam comovê-lo. Decidiu-se por sua vida, pelo menos assim pensou.
Nessa batida do coração, foi ao encontro da nova vida que agora lhe esperava. Que alívio(!), não precisaria mais se perder ao observar os casais apaixonados e dizer sobre o amor, ou a falta dele. A natureza, que por vezes lhe fazia suspirar em poemas inspirados, agora serviria apenas para agradar o olfato dentro da cidade poluída. E a angústia, «ah»(!), esta seria a melhor parte, nem seria percebida, ora, a partir de então, ela não mais seria sua cúmplice na tentativa de desvendar o que fazia seu coração e corpo palpitarem, dançarem músicas antes não escutadas...adeus à estrela bailarina nietzschiana!
Parecia que naquele dia estaria a re-viver. Sentimento estranho a alguém que estava acostumado aos clarões da noite. O dia passava inerte enquanto esperava o novo laivo de torpor para tornar-se escritor e todo aquele processo lhe tomar os sentidos: Sentir, quase transpirar... medo, angústia, e depois, a folha em branco a rir de sua face tresloucada pelo susto que as novas ideias lhe trariam.
Que privilégio(!), pensou. Agora eu posso passar pelas ruas sem que as virtualidades de cada sujeito se transformem em uma história épica em minha larga imaginação. Poderia me concentrar em viver. Viver sem que cada momento pudesse ser fotografado pela lente do escritor e depois revelado em um texto qualquer.
Depois de haver se decidido por não mais ser escritor sentiu a liberdade que antes as palavras lhe roubavam. Sentiu a paz que os brados dos pensamentos não lhe davam.
Sentiu também, saudade do tempo que perdeu a escrever. Sentiu vontade de escrever que não deveria ter escrito nada. Percebeu que não podia deixar de sentir. Percebeu que quando voltasse ali não seria mais ele. Não seria escritor. Sentiu vontade de estar ali novamente. Sentiu vontade de novo. Sentiu vontade de escrever sobre quem ele havia se tornado quando deixou de ser escritor.
Sentiu vontade de escrever...
Bernardo G.B. Nogueira
vida perdida...
Falar de Pessoa
Falar de Pessoa...
Falar de Pessoa é já se obrigar a não falar dele mesmo. É admitir falar de outro sabendo que o outro é ele, e assim, igual. Saber que em um se encontram mil, mas saber que esse mil, é já, um só. Um só que se admite entre aqueles vários, que se cria em diversos, e encontra nos outros o traço fundamental de si, ser um, a constituir todos, portanto, sempre a ser mais, e maior.
O fingimento da existência é natural a quem se dá às criações, e mais ainda(!), a quem de sua vida faz ela mesma sua maior obra de arte. Seja em prosa, seja em verso, fica maior a cada “penada” que é dada, a cada rascunhar de si, refletido na ausência de um corpo que é só criação, invenção, portanto. Alienar sua existência na escrita, mas ao mesmo tempo criá-la...sempre!
E a imaginar, de tanto imaginar (!), um só não dá mais para sustentar tanto dizer que sai dali. É preciso o outro para que a imaginação não fique paralisada naquele primeiro pensamento que surgiu daquele primeiro um. É no outro que a imaginação faz florir sua semente, é por ali que ela se vai completar, mesmo que não se acabe, mesmo que sem cessar...
Daí, depois que imagino, já não há mais como controlar...agora já são pessoas e pessoas a me povoar, e preciso delas me libertar, preciso com elas partilhar, pois se não o fizer, fico com uma sensação angustiosa que se assemelha a um artista a interpretar sempre para o mesmo público, sempre com a mesma máscara.
Os sentimentos são tantos, que quando estou a criar nessa minha imaginação fingidora e fantasiosa, as pessoas acabam por se encontrar nesses meus devaneios, e me rio delas quando interpelam como conseguira a elas traduzir tão fielmente..? Ora pessoas!. Não há sentimentos quando estou a escrever ou a poetar, “simplesmente sinto
com a imaginação” e por não me prender a uma pessoa ou a um sentimento, é que acabo por transcender a mim e encontrar você. Por isso preciso de tantas pessoas a me auxiliar...
Mas eu preciso confessar uma cousa...
Tem sempre um momento nesses instantes de imaginação que algo me é ocultado. Pois, enquanto estou poeta e começo a fingir em meio a minhas criações, por vezes, acabo nelas a me perder. Poderia ser um instante de medo, por estar a perder as rédeas de minhas sensações - e a confundir vida e criação – e há não mais saber onde andaria o verdadeiro chão. Mas, não há medo, ora, a existência, aliás, como diria outro poeta também, está à altura do que posso enquanto pensar... ”numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo...” Daí, me deixo ir, ora em companhia de uma pessoa, ora de outra... “Sentir? Sinta quem lê...”
Ah! Já ia me esquecer! Essas pessoas nem existem. E agora me pego a lembrar de que há a necessidade da falta de algo para que ele possa então existir. Verdade! Essas pessoas não existem! Mas é claro! Se existissem, nem poderiam ter sido criadas, pois, quando o pensar se realiza, deixa mesmo de existir. E o poeta, quando realiza seus sentimentos, perde o sentido de seu perquirir. Por isso, pessoas são necessárias, não ao existir, mas enquanto possibilidades de inventar sentimentos ainda não descritos; para neles viver, para deles se nutrir e sobre eles escrever... mesmo que não existam, mesmo que sejam mentira ou fingimento, mesmo que sejam imaginações.
”Dizem que finjo ou minto tudo que escrevo. Não. O poeta é um fingidor.”
Bernardo G.B. Nogueira
Outono frio e real – Itabirito – 2011.
ISTO
Dizem que finjo ou minto
Tudo que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio
Do que não está de pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é.
Sentir? Sinta quem lê!
Fernando Pessoa
AUTOPSICOGRAFIA
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.
Fernando Pessoa