quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

quantas horas?



quantas horas?

devia-se desnudar assim, logo cedo,
não carece esperar anoitecer,
o dia lhe pode trazer intempéries,
por isso, deixe cair o véu pela manhã,
no alvorecer é que se dão nascimentos,
esteja sob a luz refletida,
imponha teu seio contra o vento,
caminhe sólida e aérea, etérea,
prefira o não caminho, crie,
em meio à gente, cometa o crime
de invadir com olhos cálidos e versos,
não te faça concessões,
sempre o desnudar,
cedo, sem hesitação,
esqueça do tempo,
que não volta, não vai, nem será,
entregue a armadura,
ao meio do dia esteja exausta,
sonolenta, mire a tarde brotar entre o céu avermelhado,
quando a noite vem,
conte a ela que jê és pura,
magia de vida que viveu pela manhã,
nua feito a primeira rosa do deserto,
frágil como o arco-íris,
inevitável,
que só a manhã, criança, embalou e fez nascer...

Bernardo G.B. Nogueira
Conselheiro Lafaiete – verão, 2013.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

revolução 2


revolução 2

escute em primeiro, o órgão,
decante a guitarra em sua voz inaudita,
alcance a nota, transcenda,
com amor ou um gole a mais,
levante pela madrugada,
voe pela manhã noturna,
cambaleie nas nuvens,
entorpeça os sentidos contra todos,
grite feito águia que espreita,
cem cessar, cante sem melodia,
faça romper o oceano,
inunde a terra,
faça da lua amante,
beba o fel,
ame com os pecados capitais,
dos deuses, troce,
desate o nó,
navegue,
o mar? Invente,
abandone a rota,
componha um verso sem rima,
saboreie o cheiro da impureza,
seja arte,
morra pra viver,
não veja o espelho...

Bernardo G.B. Nogueira
Conselheiro Lafaiete

do que não sei

do que não sei

do que não sei é da chuva,
que não para,
que insiste em tilintar ali fora,
que tem pingos próprios,
que corre,
que molha o telhado ao lado,
do que não sei é da chuva,
que tem uma pitadinha de sal, igual a lágrima,
e que não volta atrás,
que cai sempre nova,
que floresce,
que inunda,
que depois tem arco-íris,
mas antes, trovão,
e essa chuva,
que é samba no verão,
mas que é fado também,
ela muda as estações,
brota um novo fruto e se vai,
se volta não se sabe,
sabe só que foi choro e canção,
de noite ou a tardinha,
da chuva que nasceu em seus olhos, infinitos,
deles, sei também não...

Bernardo G.B. Nogueira
Conselheiro Lafaiete

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Agora você saberá de tudo...



Agora você saberá de tudo...

Uma Canção de Amor para Bobby LongÉ realmente uma violência a necessidade de escrever um texto coerente quando acabamos por perceber a incoerência que estamos envolvidos enquanto humanos. O filme, “Uma canção de amor para Bobby Long”, nem tão novo, tampouco velho, me fez lembrar o Belchior quando se declara “muito jovem pra morrer. E velho pro rock 'n' roll!”. De fato, e inevitavelmente, uma reflexão sobre o tempo, nossa relação com ele e as circunstâncias que porventura envolvem olhar pra trás. Há também em meio a esse filme uma boa candência para pensarmos sobre o amor, suas formas de mostração, nossa parca condição de senti-lo e pior ainda, a tragédia que é quando percebemos que a única saída seria ele, mesmo que não dê mais tempo.

Nesta escrita não me irei remeter Às passagens do filme, são por demais eloquentes para uma suposta tentativa de transcrição em palavras. Tentarei apenas deixar escrito aquilo que é inevitável nesse encontro. Encontro que tinha no entorno toda a magia musical de New Orleans, suas fantasias, suas estrelas decadentes e seus sonhos. Há também de ser inevitável a literatura que é a veia do filme. No entanto, o que mais toma nosso sentimento é a verdade com que a literatura nos revela, e a menoridade com que a encaramos. Dizer que há distância entre a realidade e a literatura é viver de olhos bem fechados, alias, é quase não viver. Uma morte que respira, talvez.

Assim, e por isso mesmo, é que parece quase impossível tirar do lugar o cursor para escrever isso aqui. Então, se é tão difícil, melhor escrever de mim. Pois, quando o filme se encerra, a frase que me toma é uma só: “Como pode a gente ver nossa vida passar por uma tela e ficarmos ao mesmo tempo assistindo?” Nesse instante, é necessário lembrar o que é dito sobre Long e entender a diferença entre existências que são escritas por si e existências que simplesmente se deixam escrever, inertes e mortas. Bobby Long atravessou a vida dentro de um livro imaginário. Livro que ele compunha a cada gole a mais e a cada atitude malfadada. Quase um herói trágico, que sabedor de sua tragédia, se entrega a ela para cumprir sua vida. Mas o que é instigante, é a forma como isso se dá. Ou seja, por mais que de alguma forma o cenário se mostre decadente, sobretudo para os padrões informados nos dias de hoje, que são tempos tristes, tempos em que,  por exemplo, as pessoas querem se curar de suas fantasias e não percebem que isto é a única forma de em algum momento elas poderem contar sua história. Tempos em que a entrega é permeada por regras e modelos, e por isso mesmo não existem entregas, não existem histórias. Não existe vida com literatura. O Vinícius de Moraes entenderia bem essa crítica. Digo isso por me lembrar agora que Drummond, o maior poeta para muitos, disse que o poetinha foi o único poeta que viveu como tal. Acho que Long também. E por supuesto, também Florbela Espanca.

Nessa trilha desgarrada do que seria o real, nasceram tantas coisas maravilhosas que ousaria enfrentar estes padrões e aconselhar um pouco mais de Long. A despeito de um lar perfeito e uma família estruturada, houve uma amizade inquebrantável, um sonho sem fim, um livro infinito e uma poesia que era o próprio ar. Claro que são escolhas, e entre o que virá a partir delas, o que é ocaso, e a morte, resta pouco de nós mesmos. Long sabia disso, por isso queria o rio. Queria mais uma dose e queria citar mais um escritor. Os livros guardam em alguma medida, a verdade inscrita da face mais humana. E exatamente por ser a face mais humana, é também a mais terrível e a mais poética também. Assim, ao ver-se numa vida que é narrada por escritores, e o pior, crer nela, parece quase uma profissão de fé, ingênua e linda como uma criança. Negar uma sabedoria asséptica é outro mote que nos toma nesse filme. Porque saber por saber, é como disse o poetinha: “é como amar uma mulher só bela, e daí?” De verdade mesmo é viver essa fantasia. Acreditar de maneira infantil que naquelas palavras há uma vida na qual se pode ler a sua mesma.

Viver na fantasia é uma crítica que um determinado seguimento de pessoas recebe comumente. Essa crítica vem de uma outra classe de pessoas que parece não saber a diferença entre, poesia, filosofia e arte. Aliás, diferença não, mas apenas não conseguem perceber que cada uma dessas maneiras de existir guarda sua peculiaridade, e então, a cada vez que enxergam um poeta, um filósofo ou um artista, acabam por dizer que são pessoas que vivem com a cabeça na lua, que filosofam muito. A pergunta que fica é: qual seria a diferença entre um ser humano e os animais que não têm noção de sua existência, senão a capacidade de se questionar (filosofia), a possibilidade de sentir a pulsação da realidade (poesia) e de criar essa mesma realidade (arte)? Realmente, Long nos dá bastantes lições existenciais. Sobre a finitude, o infinito, e com se portar quando as imposições artificiais perdem para o amor.

Não seria hora de falar de amor. Esse tema tão desgastado e tão necessário é difícil. Difícil talvez porque sempre acabamos por associar amor à relação entre duas pessoas. No entanto, parece que Long é uma espécie de Modigliani, ou seja, naquele, o amor se mostra enquanto persegue a vida com olhos cheios de flores e as mãos cheias de poesia e literatura, e este, persegue a mesma vida com as mãos cheias de tinta, mas não menos ávidas por amar. Então, o amor que permeia a existência, pode sim se mostrar no sorriso de uma mulher. No entanto, parece que nesse caso o amor é pela existência enquanto humano. Mas é claro que o filme nos mostra, e os livros também, que isso não se resume Às fórmulas estéticas e saudáveis que temos hoje. “Há que se cuidar da vida”, mas não imagino que esse cuidado era para Long o que se vê por ai. Esse cuidado é em saber-se menor, saber-se maior, só para poder inventar.

As mazelas virão. Mas as estações são assim também. Da mesma forma como um capítulo sucede o outro, e aquela tragédia pode se transformar por inteiro. E assim é a vida também, mesmo que tenhamos regras a priori a dizer-nos como, quando e porquê, Acreditar na fantasia de um livro é sim sair da realidade. Sair de uma realidade imposta e impostora. Pois não há nada mais que nossa imaginação do que ela de fato é. Criar na vida é maneira simples de existir. Criar como o autor de uma literatura, como o compositor de uma canção ou como o poeta de um verso. De outro lado, há uma outra maneira, que se diz mais convencional e muito menos dizível de humanidade. Digo aqui sobre a previsibilidade com que queremos tocar o tempo e a vida. Tentativas vãs, claro, mas sempre tentadas. Pois uma vez que não acreditamos em nossa fantasia, deixamos nos entreter por uma fantasia criada pelo outro, e ai, uma existência sim, contudo, decaída. Falaciosa. Fantoche.

A ciranda da vida quis que Long deixasse esse tempo. Assim como todos os outros pecadores um dia deixarão. No entanto, se “o coração é um caçador solitário”, quiçá nos livros ele encontrará algo, penso que não. Long então estaria equivocado ao utilizar-se de tantas citações. Mas de outro lado, penso que a história não vai bem por aí. As citações incessantes eram apenas um aporte para aquilo que estava a construir a cada passo, a cada deslize, cada pranto e cada decepção. Escrevia com sua errÂncia o livro de sua vida, e como fora uma vida de verdade, sem cortes e sem cenas dignas de narrativas espetaculares, precisava citar, pois entendemos o que fizemos só depois que olhamos pra trás, e se acaso nossa fantasia não se realizar, não enxergamos nada. Salvo se alguém cantar “uma canção de amor para Bobby Long”.

Bernardo G.B. Nogueira
Conselheiro Lafaiete – verão

Palavras



Palavras


“Eu só vou falar, na hora de falar, então eu escuto”
Secos e Molhados

Por ora meu coração se reduz a um grão de um pequeno fruto que dá em um momento do ano em que as pessoas ainda não conseguiram desvendar. É um tempo entre a primavera florida e as folhas secas que caem na avenida longa e escura que me leva ao bosque onde nascem esses frutos. Lá tem um monte de plantas que conversam apenas entre si e que não se importam com os humanos que transitam entre elas. Por serem plantas que os humanos consideram milenares, eles dizem ter respeito por elas. Mas as árvores cochicham, aquando das madrugadas, que a qualquer momento podem cair em cima deles, umas por prepotência de seu tamanho, outras por já estarem cansadas.

É certo que nesse intervalo, em que os conceitos de estações do ano não alcança, fica mesmo difícil compreender. Aliás, é uma boa reflexão essa sobre coisas que não conseguimos criar conceitos. Certa vez, uma criança ao observar um homem fumando aquilo que ficou acordado chamar cachimbo, voltou-se ao adulto que a acompanhava e exclamou: “- Veja! Um homem com aquilo que o Saci-Pererê usa na boca!” Esse dizer é apenas para ilustrar como é excepcional a existência em que o conceito ainda não tomou conta. É um pouco isso que parece atender à criança nietzschiana, a surpresa, o evento, a novidade, tomam conta da existência que é pura criação, a cada instante, sem cessar. Ai as amarras conceituais nem existem, talvez essa ingenuidade, em sentido positivo, puro diria, seja um caminho para a criação artística. A confusão entre a existência humana e a arte que se faz ou não dela, parece-nos estar colocada à medida desse tipo de relação. De alguma maneira, poderia dizer que o acúmulo de informações entulha a relação com o mundo, tornando-o sem mistérios e ao mesmo tempo, cinza e cabendo nos prazos e nos ponteiros dos relógios. Talvez essa ideia de conhecimento devesse ser medida na proporção da abertura que os poros da pele têm para ele. Não seria então, como por vezes pensamos, um puro conhecer, mas sim, deixar-se, estar no conhecimento, nada havendo entre o que é conhecido e o que somos. Conhecer seria estar sensível ao conhecimento, uma coisa só, portanto.

De certa forma, quando as árvores milenares falam entre si, pois não havia dito, mas elas apenas podem conversar nessa época em que o homem ainda não criou conceito. Então, elas aproveitam para traçar todos os planos até a próxima prosa. Assim, ingenuamente achamos que podemos olhar para elas e dizer: “- Agora estamos em tal ou qual estação.” Puro engano, foram elas próprias que determinaram. E se de alguma maneira as estações se confundem. Também não seria apenas pela ação funesta do homem em relação às plantas, ali elas também namoram. Portanto, se em um belo dia de outono aparecer uma chuva torrencial, é causa de um desamor entre elas. É importante dizer que elas se relacionam em silêncio. Essa coisa de palavras é muito difícil de decifração, e como entre estas plantas milenares não há mentira, elas não precisam ficar falando muito. A comunicação se dá pelas relações que elas travam entre os olhares que trocam e pelos encontros subterrâneos que têm suas raízes. Também é um dado necessário saber que os romanos diziam que Ceres seria a deusa das plantas. No entanto, estas plantas milenares existiam antes mesmo de haver uma deusa para elas. Essa estória confirma a questão de que não há no tempo delas a possibilidade de conceitos. Pois se aceitassem Ceres como sua deusa, estariam fadadas a ela, e ai seria o fim de suas relações por vezes incestuosas por debaixo do solo.

Assim, dessa devassidão toda, ou seja, da ausência de conceitos que as predigam. Da inexistência de condições estruturais para sua existência é que nascem as artes e nascem também os frutos destas árvores milenares. Chamo de furto por fraqueza adulta de imaginação. Aliás, é sempre uma redução e mostração de rudeza imensa um diálogo por conceitos. Imaginem se a criança já houvesse sido colonizada, ela diria cachimbo. Não iria fabular dentro de sua cabecinha um sem fim de possibilidades para aquilo que o Saci-Pererê carrega na sua boca. Como são inférteis os conceitos. E estas plantas milenares que carregam essa impossibilidade conceitual são o oposto da infertilidade. Delas brotam aquilo que entre nós, convencionou chamar de sentimentos. Foi por isso que quando comecei a escrever eu disse que meu coração estava do tamanho de um grão, de um pequeno fruto, que dá em um momento do ano em que as pessoas ainda não conseguiram desvendar.

Na verdade, esse sentimento não é mesmo da ordem do conceito. De alguma forma as crianças poderiam desvendar essas coisas e o fazem de maneira espetacular quando dizem, por exemplo, que aquilo que chamamos de lágrima, em verdade, são “aguinhas” de tristeza. Mesmo que elas não saibam o que é a tristeza, ou melhor, não possam explicá-la de maneira racional e conceitual e, portanto, distante do real. Na verdade, nem esse tal de real existe, a escrita de Slavoj Zizek nos ajuda a compreender isso. Mas esse tema não caberia aqui. Senão estaria a negar aquilo que aqui eu quis contar, a história de um dia em que meu coração esteve pequeno como um grão, e como eu não sabia desvendar o que era aquele sentimento, eu quis pensar que ele era uma coisa nova que aparece de vez em quando, em um momento que nossas marcações temporais perdem todo o sentido e que também estas coisas de estar alegre e estar triste também não poderiam explicar.

Dessa forma, esse sentimento restou para mim, como o filho primogênito de duas árvores, que durante uma relação misteriosa, em um tempo que não tem estação definida, mas que se compreende entre a primavera e o outono - porque são estações lindas e porque o que eu sentia tinha o cheiro da flor e o infinito do outono. Por isso, se um dia eu descobrir o que é isso, eu vou chamar: sentimento de coração do tamanho de um grão de um pequeno fruto, filho de árvores milenares, que cochicham na madrugada, em um tempo em que as pessoas ainda não conseguiram desvendar. Quando eu souber, não vou falar.

Bernardo G.B. Nogueira
Conselheiro Lafaiete – verão - 2013