sábado, 16 de fevereiro de 2013

esquerda



esquerda

Queria que fosse com revolução,
sem falta de sentido ou direção,
qual flecha de índio a guerrear,
como febre de picada de serpente,
feito o dia que o sol inflamou o peito
e a noite sangrou o coração.

Na mesma sanha que as lavas do vulcão,
pesadelo de vida real,
ataque de fera faminta,
sonho infinito e perdição,
parecido com despedida em dia de chuva.
Improvável como o poema,
implacável qual tragédia,
inevitável como o olhar.

Banhado de sangue e poesia,
com vinho a bailar,
esquecido ao mar,
solto e sem covardia.

Contra o exército e de mãos vazias,
acompanhado da fantasia,
amparado pelo impossível,
vida plena de galhardia.

Contra qualquer regra,
a favor da imaginação,
beijo demorado e sorriso de paixão,
queria que fosse revolução,
                                               sempre...
e nunca mais.

B.
Conselheiro Lafaiete – verão - 2013

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

do dever...

do dever

não deveria,
o dever realmente é algo que não deveria,
dever é frio e comporta repetida ausência de alegoria,
deveria era não dever,
pra não ficar à mingua de ninguém,
sem dever a gente avoa,
deveria haver então um dever de voar,
ai sim valeria dever,
deveria assim por prazer,
cumpriria o voo e não o dever,
ai quando pousasse,
deveria amar de novo,
só pra voar,
isso seria meu dever, amar...

B.
Conselheiro Pena - verão-2013.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

cantar pra quê?

cantar pra quê?

foi bom estar ali consigo,
de mãos dadas, um cheiro só,
o peito apertado,
uma aflição adolescente,
como adolescentes são as misturas,
as mãos suadas,
o vento frio,
os olhos em vão à procura,
caçada vespertina,
toada de café e só uma paisagem,
o silêncio e a poesia da sua ausência...

B.
BH - verão - 2013.

o artista

de tudo o amor rebenta,
filho livre
do ventre divino,
filho pagão,
acaso rebenta,
a face e o corpo flagela,
em alma impura congela,
faz os olhos inundar,
qual destino
de trágico heroi,
rebenta,
rebento,
é deus sem gênero,
fantasia e inferno,
o instante eterno que te pariu.

B.
BH - verão - 2013

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Entre o delírio e a vertigem do real



 Entre o delírio e a vertigem do real

Existem diversas formas de circundar a existência humana. A arte apresenta-se talvez como uma das mais bem conseguidas. Na temulência de Guimarães Rosa e na embriaguez apolínea de Nietzsche inscrevemo-nos. A construção sempre inacabada do humano passa por uma sua transcendência que tem no movimento artístico, morada privilegiada. Em nosso caso, a arte é a que vem do palco, o teatro, com direção de Rita Clemente, textos de Jô Bilac e encenados a partir do já conhecido Oficinão Galpão Cine Horto.

Os espetáculos “Delirio e Vertigem” conduzem exatamente para o que no humano é inevitável: suas facetas de tragédia e comédia. E nesse caso, os textos, ornados por uma direção sutil e precisa, deixaram com que os atores levassem o público pra dentro da peça, ou o que é mais interessante, pra dentro de si mesmos. Desse modo, é necessário dizer dos textos, que exatamente por não guardarem uma linearidade, deram um tom real sobre a existência humana. A inexatidão dos encontros, que em sua maioria são ajustados segundo regras de condutas morais, religiosas e costumeiras, resta clara nos diálogos, e ganha cor de vida na pele dos artistas. Assim, pode-se ver em um mesmo rosto a comicidade da tragédia e a sutileza da comédia. Andaram juntos, direção, texto e atores, sintonia fina necessária para uma narrativa desta monta.

A peça gravita entre situações peculiares do cotidiano e seus desdobramentos. São encontros que lêem de maneira peculiar o cotidiano. Se coube ao Chico Buarque cantar “todo dia ela faz tudo sempre igual”, do lócus privilegiado que a peça nos permite falar, essa cotidianidade, por mais que simbolize quase que uma sedimentação de costumes e modos de existir, assim como a mulher na canção de Chico, os estereótipos e os locais predeterminados são abordados sob uma perspectiva em que nem sempre isso dá certo - isso se algum dia já deu. O espetáculo desnuda o humano. Essa seria uma boa frase pra dizer dessa interlocução: delírio-vertigem. Toda a pré-disposição, toda a fórmula e toda a orquestração entram em cena pra serem desnudadas. Os duplos são bem explorados, e na exposição dos papeis planejados da sociedade penso estar um ponto alto do espetáculo: pois que desde um estereótipo de família burguesa, até um namorado convencional, o que o espetáculo nos remete é para as entranhas das relações. Os aficcionamentos, paranóias, tão afins na contemporaneidade, são colocados às claras, na cara da platéia que desde então já está envolvida por estas entranhas. Tão estranhas, tão reais.

Parece que a cada situação cotidiana e supostamente simplória, o espetáculo nos conduz a uma espécie de análise. A epiderme das relações é evidenciada e vemos o humano de dentro pra fora. Isso é um mote espetacular da peça, pois, uma vez que mudamos a direção do olhar, além de percebermos outras perspectivas, vemos nascer um humano nu, que ainda preso às convenções se manifesta como comédia ou tragédia. Assim, a todo  momento as relações são mostradas em seu limite, tanto de absurdo quanto de realidade. O que a obra mostra é que, de fato, gravitamos ai nesse cosmo. Entre o absurdo que é criado pelas convenções e que elimina – quer eliminar – algumas pulsões, e o outro absurdo que pulsa dentro de cada um. E nesse encontro, quando alguém cede, acaba por se tornar o convencional, talvez o que a maioria chama de real, de outro lado, quando não há concessões, chama-se absurdo, ou loucura. Delírio?

Uma outra palavra que seria bem vinda nesta peça seria desejo. Vimos em nossa volta a todo momento projeções de desejo. Aliás, na sociedade de consumo e de máscaras, tão necessárias quanto fugazes, essa relação torna-se doentia. Pois a mesma razão para o consumo de um objeto desejado, podemos auscultar nas relações humanas. O consumo do outro é transformada na possibilidade de realização dos desejos. Desejos que são superficiais em duas vertentes: em primeiro, quando vemos as pessoas falecerem em vida na vã tentativa de adequação a modelos variados, e de outro, os desejos, em verdade, são invenções que transformam os sonhos em mercadoria, e o humano, nessa relação mercadológica, em um enorme joguete, sem inspiração, preso ao próximo modelo. Por aqui temos alguns desdobramentos do texto, pois a questão do desejo povoa o imaginário da peça quando percebemos que dentro de cada relação há um sem fim de possibilidades a partir das expectativas dos convivas. Isso tudo, somando às convenções que são claramente desnudadas, transformam por vezes os personagens em seres paradoxais, humanos, portanto. Paradoxo que faz com que alguns personagens vivam em sua morte e morram a cada dia de viventes. Mesmo que o verde manifeste alguma esperança, que é delírio, que é vertigem ou uma real confiança na vida? Uma saída comum a quem se perde?

“Só a bailarina que não tem”. Quando o mesmo Chico Buarque de Cotidiano canta sobre a bailarina, percebemos o quanto o real não existe de fato. Sobretudo se observado sob o prisma de padrões pré-concebidos, ou seja, se como nos ensina Slavoj Zizek,o real inexiste, na medida que é aquilo que nele projetamos, então, esse ideário que marca locais e institui modelos, é apenas uma construção daquilo que se quis chamar realidade. Assim, delírio e vertigem se misturam na incompletude que é o humano. Ora a mostrar uma face mais real, de vida, ora, a se manifestar apenas por intermédio de uma construção de cenas a ele imposta, portanto, as duas formas tão reais e tão irreais ao mesmo tempo.

Depois de sabermos que o real não há. A questão que se coloca é: como distinguir essa impossibilidade daquilo que seria seu contrário, ou seja, o irreal, o delírio?. De alguma maneira penso que a resposta estaria localizada na vertigem. Pois se Nietzsche nos ensinara que o homem é sempre um animal incompleto e inacabado, em pleno estado de potência, temos a ideia de que na vertigem da criação estaria localizado o momento em que a questão do real se localiza. Pois se com Heidegger podemos pensar que o dizer poético é o dizer que diz do Ser, não poderíamos deixar de perceber que entre o delírio e o real existe a arte, que na angústia, na vertigem de sua criação, constrói o homem, com desejos, com limites, absurdo na maioria das vezes, porém, nada menos que infinito, como a arte, como o teatro, e como um delírio!

Bernardo G.B. Nogueira
BH – verão - 2013

sábado, 2 de fevereiro de 2013

pequeno passeio sem fim

pequeno passeio sem fim

há dias em que se acorda contra,
contra a luz,
contra a parede,
contrário e contrariamente,
sentido inverso,
ante o horário,
extremo e ácido,
não triste, impávido,
vazio de direções,
mar adentro,
de dentro do sonho,
pra fora do outono,
na primavera que cheira,
choveu quando brotou o dia,
longe demais pra ser tocado,
presente demais pra não ser notado,
pra dentro do peito a viagem é sempre sem retorno...

B.
verão – 2013.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

tom



tom

para um outro tempo
levaste a poesia e o sol,
com chuvas infintas molhaste o solo de meu leito,
regaço seco qual sertão sem sonho,
da noite em que calaste,
as notas esvoaçaram pra outras paragens,
nenhum tom saboreou minh’alma,
bailarinas dançaram em sonata de despedida,
tarde e noite se misturaram em fantasia,
e o crepúsculo despertou o sonho,
naquela manhã de sinfonia íngrime,
ausentou a flauta doce,
além dos montes um frio devagar assoviou,
era canto do dia em que seu olhar, como pétala, voou...

B.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

do tempo e das coisas



do tempo e das coisas

Lua cheia pra alumiar,
cheia do rio pra nadar,
sol à tardinha
vinho tinto depois do amor,
manhã fria pra abraçar,
texto lido pra chorar,
canção de rock pra enfeitiçar,
filme com bandido pra imitar,
estrada vazia indo até lá,
vela acesa meio ao luar,
toda a serenata do silêncio,
vento sorrateiro, arrepiar
dia inteiro,
noite a fio,
tarde afora,
todas as madrugas,
prontas a esperar...

Bernardo G.B. Nogueira
Conselheiro Lafaiete – verão - 2013