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quarta-feira, 11 de julho de 2012

um...


um...

Pensei que havia um ar em comum
Como flores que nascem da mesma primavera
Feito copo que mata a garrafa
Qual um gole que toma a lucidez
Enquanto cigarro que queima sob uma vista incerta
Depois que a água deixa o leito e deserta
Como a face depois do choro pela fresta
Da janela aberta em chuva insana
Igual palavras de poema que se completa
Em rimas cadentes depois da pele tocada
De jeito que o corpo se entrega
Sem aviso nem conversa
Pelo estranho acaso que se completa
Em notas que se criam em trilhas incompletas
Infante como conquista inédita
Perdido como cheiro que faz festa
De alguma paralela que ao longe espreita
Escondidas fazem seresta
Para surdos de amor em noite mestra
Que nos cria como farrapo que resta
Pelo tempo liberta
Pela falta dele que desespera
Pensei que havia uma vida em comum
Havia vida, mas havia só um...

Bernardo G.B. Nogueira
Ponte Nova - inverníssimo

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Convite


Convite

Vamos viver nosso tempo, cândidos,
mansos e amanhecidos,
pelo fim da noite tardia,
sair ao regaço de nós, lânguidos,
feito dois esquecidos entre amanhãs,
deixados de lado todos os bravos,
tristes e alegres feito par,
de mãos dadas em pleno voo,
entre nossos olhares uma paisagem inventada,
imaginemos que somos só
dois e todos pelo mar adentro, ou afora,
com apenas um compromisso,
o de nunca e sempre,
soltar o peito feito cinza e fumaça,
enternecidos de todos os acordes,
sem distinguir nenhuma oração,
deitados sobre o tempo,
e que nos carregue como preferir,
eu, você e nossas invenções,
mas leves e com mais silêncio que ações,
e assim, quem sabe um dia, o amor venha nos visitar,
e se não vier,
que soltemos de novo do penhasco que não existe,
só para sentir de novo o vento que tinha cheiro de flor,
cheiro que trouxe a manhã e que criou em nossos olhos barulho de canção,
do amor que fecundou essa viagem e que foi e vem como cada estação.

Bernardo G.B. Nogueira
Outono - Itabirito

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Espera


Espera

Eu vou te esperar,
sempre vou estar aqui,
ali ou acolá,
mas a sua espera vou ficar.

Eu vou te esperar,
mesmo que a chuva não caia,
que o sol não saia,
independente de ser uma cilada.

Eu vou te esperar,
inclusive quando chorares,
a cada sorriso e nos dias sem tardes,
ainda que sua mão sem mim se distraia.

Eu vou te esperar,
depois da noite e pela madrugada,
a cada manhã, acordada,
mesmo que a solidão esteja minha enamorada.

Eu vou te esperar,
antes e ainda que se despeça sem uma última mirada,
com toda a fornalha do alvorecer, estarei sua finada,
de maneira que seja livre sua estada.

Eu vou te esperar,
por mais que outros olhos te levem,
leve permanecerei como sentinela, de guarda,
como um gato apaixonado pela sua empregada.

Eu vou te esperar,
mesmo sabendo que irá se demorar,
ainda que tenha sorte em sua escapada,
mesmo que seja outra a sua morada.

Eu vou te esperar,
mesmo que em ti, outro corpo tenha se esgueirado,
de um jeito que seja mais que o esperado, mais que pecado,
porque esperar mesmo é maior que o tempo contado.

Eu vou te esperar,
por toda tarde desaquecida pelo vão de ti,
e ainda que saiba que não voltarás,
irei esperar.

Pois foste sempre aquele que me fez esquecer,
aquele que a vida fez aparecer,
aquele que me mostrou que o tempo não existe,
e que há apenas o amor, arte da espera, arte do viver.

Bernardo G.B. Nogueira
Outono – Itabirito.