sexta-feira, 26 de julho de 2013

dias e cores



dias e cores

parece você vestida, de você mesma,
em branco e preto,
sem cor,
exaurida de faces suas, nuas,
expatriada do colorido que também é seu,
natural reflexo de luz,
sem cores mais,
branco de sua negritude a fazer do ontem amanhã que é hoje,
noite sem fim,
olhar que brotou do fundo do espelho,
fez confundir o certo e o duvidoso,
noite fria com dia chuvoso,
rabisco de mentira ou cor intensa,
todas faces vestidas de sua natureza,
a embalar o céu e transformar cor em nada,
e o ontem em um eterno arco-íris de hoje...

B.

Cruzar o Cheiro



Cruzar o cheiro

Dobrou a esquina e logo aquele cheiro bom a brindar a novidação da noite que se abriu naquela virada. Logo foi necessário ficar demorando ali para sentir direitinho o cheiro que vinha de lá. Era aquela árvore que dá cheiro de noite. “Dama da noite”. Como é forte seu odor. Parece moça nova quando sai de meninice pra moça. De dia vai pra noite. De menina pra fazer meninos ficarem parados em esquinas só pra admirar.

Depois que a menina vira moça é um vai e vem danado. Por ela passam tantos olhares e querências. Desejosos daquela curva. Desejosos daquele cheiro. De noite apenas. Durante o dia é muita correria, nem sente o cheiro. Mas a noite a moça acorda. Caminha devagarinho por entre as ruas e fica ali na esquina que é só dela. Sei não se ri ou se chora. Sei que cheira. Sei que é aurora.

Porque moça é também uma mudança. É um tanto de árvore fresca que nem flor dá ainda. E também tem curva de árvore frondosa, que faz sombra e que tem tronco forte. Dá cheiro e dá medo. Na copa da árvore na esquina daquela moça é que habitavam aqueles cheiros. Cheiros que desciam pelas suas folhas, namorando os galhos, gozavam pelos poros das flores. Flor é cheiro. E dessa moça o cheiro é de flor. De noite. Moça da noite. Que alguns chamam também de dama.

Os cheiros são mesmo os caminhos que fazem perder. Sabe-se de onde vem, nunca onde vão dar. Igual ao amor, igual aos rios que saem do curso. Como essa noite em que saia um cheiro da árvore parada ali na esquina. Aí sempre se quer arrancar uma flor de lá pra sentir o cheiro de seu líquido gozoso e cheiroso. Porque amor também tem cheiro. Igual flor. Amor e flor ai se misturam em igualação. Moça, árvore e esquina dão cheiro que vai desembocar em amor. Cada vez que se ama, na verdade, se vai doando o cheiro, até que aquele que é amado sinta, encontre. Dai quando sente é só perdição. Porque é assim mesmo. Os cheiros não se dão em retas, precisam das curvas pra sentir com surpresa. Amor, cheiro e surpresa são quase sinônimos, de flor e de moça também. Porque moça é metade de plantinha e metade de árvore. E amor é metade de sorriso e metade de lágrima, senão não tem cheiro, senão não tem esquina, ai sem espantação é que não é amor mesmo.

Ficar parado ali olhando aquela imaginação. De árvore, moça, cheiro, amor e esquina. Nenhuma relação menos desapercebida do que ficar olhando pra imaginação. Porque ela é inventada e pode ser só uma paisagem mentirosa, e pode ser tão falsa como não ter na vida nenhuma contradição.

Desenhar, tirar foto ou escrever canção ou poema, talvez sejam boa solução. Pra imagem da flor em desencanto a chorar com cheiro de noite. Ou pra entender da curva da moça que fez o menino sem direção. O amor mesmo nem dava pra querer decifrar. Quando encontrava o fio, o novelo de novo se embolava em outra esquina. Começar de novo a estória é coisa que se faz todo dia que uma esquina leva seus olhos e faz criar imaginação. Na próxima vez que encontrar com esse cheiro vou dizer a ele de toda essa diversão: Do amor, da flor, da esquina, do gole de cheiro, do perfume da moça, da árvore que é dama, das folhas que não são nada, da rua deserta, que em paralelas não se encontram, que os meninos choram e que aquela árvore de onde sai o cheiro dorme o dia inteiro, que ela espera só e à noite, pra ficar fazer voar seu cheiro, e fazer encantados todos os olhos que sentem seu convite pro amor. Porque só com cheiro se cria amação. Na esquina...

noite branca



noite branca

dos dias sem cor,
resta o enlace da noite
com flor,
anterior
a todos os delírios,
conjuntos feito sinfonia
distorcida
pela cama
desarrumada de amor,
a escorrer cores de suor
pela estrada de suas sendas,
vendas retiradas
pra um sol que não brotou,
do ventre
apenas o frescor dos amores,
novos
contornos de cheiros com lua
branca a confundir seu riso,
largo
o braço sob a sombra,
cada vez que dormes
cantam as cores...

B.

verdade



verdade

já abençoava o poetinha,
não fique com coisa com a vida,
ela vai passar,
os dias
os rios e até os anos,
depois vem o que não se sabe,
ontem e até amanhã,
noite fria e dia com sol,
vai cair chuva,
vai demorar o trem,
a estação vai até chorar,
a lágrima pode ser companhia do coração,
depois vai ter sorrir também,
tarde infinita com ar de poesia,
porque a gente é toda assim
é e não
ir e voltar
samba e canção,
incertezas da nau de mim,
vagueando pelos olhos seus,
cego como a vida,
lúcido feito amor,
mesmo que sonho...

B.

poema da vida real



poema da vida real*

a gente fecha os olhos,
abre os poros
e a vida voa
com cheiros e deslizares
de sons e toques
pelas entranhas do coração,
quando o dia ficou grande
a manhã virou morada
e não havia mais tempo
tinha que haver encontro,
todas as estações foram primavera,
dentro dos seus suspiros nascia um novo mundo
meus olhos agora só poderiam chorar
pois que com chuva a chegada é mais poesia
e minhas lágrimas te recebem agora
pra um tempo que é distante
e pra uma vida que é nossa salvação,
pra chorar, rir e pra nada não...

B.

*som para ler o poema:
http://www.youtube.com/watch?v=IO7F5KojNoU&list=PL86DAF6E3B64D1869