Mostrando postagens com marcador Chico Buarque. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Chico Buarque. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

adeus

adeus

importa ali era captá-la feito arte,
pra isso me demorei tantas vidas,
bravo e forte.
cansado já de não ver o mar me despedi,
de mim mesmo,
não de ti.
Eras já minha dona.
Entregue e a esperar,
na soleira e na chuva,
atrás da porta.
E sem querer,
fiz choro dos pingos que caiam,
bandido, trocei dos outros que iam,
e de novo joguei fora a tela,
mudei a luz e tornei a me calar,
a arte de ti escapava-me ao ar,
e como escafandrista que não sou,
esperei até ontem, sem me afobar...

Bernardo G.B. Nogueira
BH - verão

domingo, 16 de dezembro de 2012

espera...

espera...

e de novo esperei,
como a areia o mar,
a viola o tom,
a marola a canção,
a cama o amor,
o verso o avesso,
a estrada a saudade,
o beijo o corpo,
o olhar a alma,
a sede o toque,
a noite a vida,
o sertão a chuva,
a uva o vinho,
sua boca suspiro,
como "morena dos olhos d'água"...

Bernardo G.B. Nogueira
primavera - BH

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

o que é poesia?



o que é poesia?

meu problema é sempre o próximo verso,
ela, o trem o horário, o salario e o resto,
minha noite acende a vida, balanço incerto,
a dela é calma que escuto até o barulho de seu sonho inquieto,
meus dias são  cansados de tanto sonhar,
os dela corridos feito flerte de menina juvenil,
passo pelas ruas a cantar,
ela corre tanto que nem escuta a brisa,
acordo tarde e não vejo a manha,
parece que ela também não,
eu porque durmo,
ela porque não sonha,
minha questão é de ordem metafísica,
ela questiona qual a data da próxima missa,
corro pra não perder mais um por-de-sol,
vejo seu carro fechar os vidros e esperar o verde no sinal,
na madrugada quero um tango,
ela se vira e fala do transito,
deixo o cigarro queimar e finjo um sono,
ela reclama da fumaça e fecha os olhos,
deixo um escrito na porta da geladeira,
escuto dela que acabou coisa na dispensa,
bebo um gole e canto sem tom,
ela diz que não aguenta, vai morar no exterior,
eu pergunto se poesia rima com casa vazia?

Bernardo G.B. Nogueira
Conselheiro Lafaiete - primavera

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Poesia e pedra

Morro Dois Irmãos
Chico Buarque

Dois Irmãos, quando vai alta a madrugada
E a teus pés vão-se encostar os intrumentos
Aprendi a respeitar tua prumada
E desconfiar do teu silêncio

Penso ouvir a pulsação atravessada
Do que foi e o que será noutra existência
É assim como se a rocha dilatada
Fosse uma concentração de tempos

É assim como se o ritmo do nada
Fosse, sim, todos os ritmos por dentro
Ou, então, como um música parada
Sobre um montanha em movimento


Poesia e pedra

A canção Morro Dois Irmãos de Chico Buarque nos insita a mais algumas reflexões acerca da necessidade que o sentimento musical acaba por nos acender. Assim, fazendo uso de uma figura de pensamento chamada prosopopéia ou pessoalização, que significa a atribuição de ações, sentimentos animados a seres inanimados, o escritor e músico nos transporta a uma viagem pelo morro Dois Irmãos, viajem que se alimenta de uma filosofia temporal tão real que conseguimos perceber a relação do morro com os viventes dele nele próprio. Parece uma formação conjunta em que o sentido da pedra vai sendo inscrito pelos que com ela convivem. É interessante perceber essa relação que os seres viventes têm com as coisas ditas inanimadas. Por mais que haja vida na pedra, ela não transcende. A transcendência, característica peculiar ao humano, é o que permite essa relação.  O homem vem estabelecendo desde sempre relações com os seres inanimados. Os povos antigos ao idolatrarem a natureza, de alguma forma anunciavam a possibilidade da poesia de Chico Buarque. Estamos no campo do poético, e aqui permitimo-nos sempre adorar, assim como odiar também, mesmo que uma pedra. É deveras arrogante imaginar uma vida que não adore. É absurdamente inumano não adorar.

O próprio Drummond já dava sinais disso em sua poesia. A relação do poeta com a pedra, a pedreira, é cena constante em seus versos, e em poemas como Sino, dentre outros, o poeta mistura vida e a relação dialética dela com as coisas que por si só não a possuem.

Paredão

Uma cidade toda paredão.
Paredão em volta das casas.
Em volta, paredão, das almas.
O paredão dos precipícios.
O paredão familial.

Ruas feitas de paredão.
O paredão é a própria rua,
onde passar ou não passar
é a mesma forma de prisão.

Paredão de umidade e sombra,
sem uma fresta para a vida.
A canivete perfurá-lo,
a unha, a dente, a bofetão?
Se do outro lado existe apenas
outro, mais outro, paredão?

Chico Buarque dá vida ao morro Dois Irmãos quando canta sua relação com o mundo da vida que nos circunda, nos forma, nos conforma, cria, mata e aprsiona, e nos liberta em forma de versos.

“Aprendi a respeitar tua prumada
e desconfiar do teu silêncio”

Estes versos desmistificam a existência animada do morro em relação aos seus admiradores, ou seja, aqui uma relação com o sublime, que para Kant, se nos evidencia a partir de uma experiência estética com o inalcançável, a imensidão do morro é tamanha, sua imponência incalculável, que torna-se inalcançável e expõe o homem ao seu limite, alcançando o sublime portanto...

Dizer do silêncio do morro seria algo também interessante, talvez aquela angústia que só aos poetas é permitido sentir, o intangível, o inalcançável com palavras, inefável diria,  mas que inflamam o coração. Isso estaria retratado no “tamanho” do silêncio que o morro impõe. O mistério por detrás do morro e por dentro do morro. A imprevisibilidade dos olhares que criam o morro. Só para depois chamá-lo pedra. A pedra já esteve também ao meio do caminho. Foi tudo e nada na criação do caminho da poesia. “No meio do caminho...”

Lançando mão à figura de pensamento anunciada, o autor da canção “pensa ouvir a pulsação atravessada”, como se pudéssemos mensurar, a partir da experiência em relação ao morro, o quanto de vida já passou por ali, em histórias de amor construídas em seu entorno e devaneios sobre sua plenitude. É o morro além de tudo um confidente surdo e mudo. Um confidente tout court.

Uma outra passagem da canção, particularmente assombra: Diria o poeta: “É assim como se a rocha dilatada fosse uma concentração de tempo”, ora, a existência histórico-cultural do homem fica clara na alusão de Chico à  forma dilatada da rocha, colocando o morro como se fosse uma prova das alterações de existência que ele está sempre a presenciar. Vê tudo e nada diz. Apenas sente. A poesia mais uma vez fala à vida. Fernando Pessoa já havia escrito que “ver claro é não agir.” A imponência inerte do morro permite a ele registrar sereno o turbilhão de vida ao se redor. Vidas que se encontram em suas voltas, mas que se perdem também. Mas nada disso passa inerte à rocha que acresce de sentido sua existência a partir dos viventes que nela descansam seus olhares.

Essa relação acaba por dar vida ao morro, coloca a natureza como parte integrante do imaginário e do real das pessoas que por ali passam, e mesmo de quem não vive por lá,. Pois sabem que há um morro em que toda a sentimentalidade se encontra gravada. Inscrição do tempo. É o existir dos homens na pulsação e no dilatar de uma rocha.

O lirismo acaba por tomar conta da última estrofe da canção e o autor brinca com as palavras ao questionar sobre se a movimentação ocorreria dentro da rocha ou se os homens a partir de figuras como a aqui empregada é que distinguiam vida humana ao morro, proporcionando que o mesmo tenha até sentimentos e lembranças. Seríamos nós a criar o ritmo da rocha? Ou seria ela a embalar a existência no entorno de si? Seria o homem inspirado a narrar-se nela? Ou ela quem impunha ao homem a submissão a seu ritmo?

Essa entrega à natureza, para além de mostrar o gênio de Chico, diz muito sobre o sentir poético que por vezes necessita de relações como essas para fazerem o poesia eclodir de dentro dos morros sentimentais que habitam. “Como se o ritmo do nada, fosse, sim, todos os ritmos por dentro.”

Bernardo G.B. Nogueira
BH – inverno - 2012

Link para a canção:
http://www.youtube.com/watch?v=59vF4s89QZI&feature=related

sábado, 18 de agosto de 2012

Mentiras sinceras


Mentiras sinceras


“Não sei se preguiçoso ou se covarde debaixo do meu cobertor de lã”
Chico Buarque

As pessoas estão com uma mania interessante de dizer que querem o mínimo para sobreviver. De alguma forma o fato de dizerem que querem sobreviver já anuncia algo. Só viver? Viver só? Ou apenas viver sobre a vida? Ou ainda, viver algo sobre a vida? Em cima de sua vida? Será que dá pra viver outra vida? E tem ainda a face piorada da coisa: Sobreviver denota certo dissabor com a própria vida. É também interessante perceber o quanto de vida do outro admiramos. Pois, sobreviver é apenas resistir a um fardo. E nesse caso quando olhamos para o jardim ao lado. Lá está o oasis que gostaríamos de habitar. Isso porque não falamos com o vizinho. Que por sua vez, já até criou um buraco no muro para espiar como é nossa vida. Quão boa ela supostamente seria.

Mas o caso aqui não é de analisar os descontentamentos com as ervas daninhas que existem em nosso jardim ou as flores sempre lindas que florescem lá no jardim do outro. Vamos rumar para a coisa do mínimo que está na ordem do dia e que também tem seu charme e falsidade. Caminhando pelas ruas não é difícil perceber as pessoas que tentam desesperadamente se dispor do muito e encontrar esse mínimo para ser feliz.
Um motorista que se dispõe do máximo de desprazer que possui ao enfrentar o trânsito estranho da cidade e vê o mínimo de beleza ao seu redor enquanto espera o engarrafamento. O vendedor de quinquilharias deixa pra trás a certeza de que não irá convencer a todos que seus badulaques são bons e sorri para o transeunte que diz a ele: “volto depois”. Tragédia e comédia encenadas em um ato só. Sozinho o vendedor encena toda uma vida. Mas não importa, ele quer só o mínimo. A mulher loira preferiu se dispor do seu cabelo preto e se rendeu ao mínimo de tinta para estar mais adequada aos ditames estéticos. Mas pode ser mínimo aquilo que quase todos fazem igual? O professor deixa os livros em casa e entra em sala certo de que precisa do mínimo de inspiração para criar uma boa aula. Pobre. Diante da mínima interpelação de um aluno que pesquisa ao máximo na internet esquece que iria se esquecer dos clássicos e cita um sem fim de autores para justificar sua ideia primeira de não carregar sob as pestanas toda a história de um lado do globo. Normalmente é o Ocidente. Esse mesmo que criamos e esse mesmo que agora pensa no mínimo.

Enquanto essas personagens tentam encontrar o mínimo, corre um boato pela internet que há um mantra oriental que equilibra as energias. Logo nos valemos da canção/mantra entoado pelo Nando Reis e nos sentimos pesados. Por vezes a relação física é real, estamos mesmo cheios de comidas enlatadas e prontas. Pronto. Lá se vai a tal possibilidade do mínimo. Entregamo-nos ao máximo de culpa possível. A sensação é quase paralisante. O mínimo de locomoção cansaria. Enfim, alcançamos o mínimo. Dormimos. Mas ao dormir ficamos cansados com o excesso de sonhos irrealizados. Talvez de alguma forma seja melhor nem sonhar. São tantas as coisas que nos oferecem para sonhar que ao menor sinal de ir buscar essas coisas uma sensação clara de impossibilidade de realização cai sobre nossos ombros. E como os ombros estão carregados de coisas. Inclusive da curiosidade que alerta para não descuidarmos do jardim vizinho. Lá é bom, não tem peso e só tem o mínimo.

Convém, quem sabe, encontrar na internet um atalho para encontrar esse tal mínimo. Aliás, a internet hoje é um pouco sinal de atalhos. Inclusive, isso é bom para percebemos o quanto estamos, de certa maneira, a conseguir o mínimo. Mínimo de trabalho para encontrar uma informação. E, em consequência, mínimo de tempo perdido com conhecimentos novos, e assim, mínimo de profundidade, máximo de superfície, mínimo de lucidez, máximo de conhecimento falso, mínimo de alcance teórico e crítico, máximo de massificação, mínimo de homem. Sinal dos tempos. Tempos de mínimo e de atalhos. Até encontramos um atalho para o mínimo. Aí ele vem junto com uma satisfação tão real quanto o tempo que dura uma relação sexual sem amor. Inversamente proporcional ao gozo que antecede, sucede e concebe o amor com amor. Liquidez, diriam uns, fugacidade diriam outros. Correria, diriam aqueles com senso mais prático. Esses últimos bem adequados com a relativização dos termos máximo e mínimo. Máximo quando tem que ser máximo. Mínimo quando também convém que assim seja. E mais uma vez a ciranda volta girar. E imagine se ainda “os tubarões fossem homens.” Nem quero pesar.

De grão em grão enchemos nosso papo com esse papo de máximo e de mínimo. Ditos que nem importam tanto assim. Pois a coisa hoje está mais simples do que nunca. Como já dito, máximo quando solicitarem, mínimo, da mesma forma. O que são? Não importa. É filosofia demais. E filosofia hoje só a de buteco mesmo. Pois lá é que as pessoas gostam de criar teorias como as do máximo e a do mínimo. Tem uma solução mágica para o amor e outra para a política. O melhor time escalado de pronto e o máximo de certeza. Vivemos tempos de certezas. Discutir gera desavenças, e isso não é bom para o network. Não dá mesmo pra saber qual o mínimo e qual o máximo. Não dá pra perceber ao certo se estão certos o motorista que vê o máximo de beleza na flor que ele passou por cima com o ônibus, ou mesmo a loira que não é loira e não é ninguém além da próxima cor do cabelo. Tem também o vendedor de badulaques que ri de sua vida e que enxerga no mínimo de farsa do transeunte que não irá voltar, seu máximo de felicidade. E ainda o professor que se esquece que não levou os livros e comenta todos os que leu para convencer o aluno.

Motorista, vendedor, mulher loira e professor. Todos envolvidos na busca pelo seu mínimo. Uma busca falsa que causa uma preguiça imensa. Proporcional a buscar o meu mínimo. Isso porque o motorista está extenuado com sua profissão, o vendedor irá pedir trocados para interar seu prato, a mulher loira irá tentar encontrar um companheiro que a realize já que ela não pode sem uma tinta, e o professor, que irá voltar para sua casa e se entregar a mais estudos. Deve ser também sinal dos tempos mentir para parecer adaptado. Deve ser um sinal dos tempos perceber como somos irritantes e iguais. Admiramos o jardim do vizinho, gastamos o máximo de dinheiro para comprar o mínimo, não estamos contentes com nossa situação, mas insistimos em dizer que não temos preguiça e que o melhor não é ficar debaixo do cobertor, com o máximo de preguiça e o máximo de samba, quiçá com o máximo de amor até mais tarde...

Bernardo G.B. Nogueira
Belo Horizonte – inverno.