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sábado, 18 de agosto de 2012

Mentiras sinceras


Mentiras sinceras


“Não sei se preguiçoso ou se covarde debaixo do meu cobertor de lã”
Chico Buarque

As pessoas estão com uma mania interessante de dizer que querem o mínimo para sobreviver. De alguma forma o fato de dizerem que querem sobreviver já anuncia algo. Só viver? Viver só? Ou apenas viver sobre a vida? Ou ainda, viver algo sobre a vida? Em cima de sua vida? Será que dá pra viver outra vida? E tem ainda a face piorada da coisa: Sobreviver denota certo dissabor com a própria vida. É também interessante perceber o quanto de vida do outro admiramos. Pois, sobreviver é apenas resistir a um fardo. E nesse caso quando olhamos para o jardim ao lado. Lá está o oasis que gostaríamos de habitar. Isso porque não falamos com o vizinho. Que por sua vez, já até criou um buraco no muro para espiar como é nossa vida. Quão boa ela supostamente seria.

Mas o caso aqui não é de analisar os descontentamentos com as ervas daninhas que existem em nosso jardim ou as flores sempre lindas que florescem lá no jardim do outro. Vamos rumar para a coisa do mínimo que está na ordem do dia e que também tem seu charme e falsidade. Caminhando pelas ruas não é difícil perceber as pessoas que tentam desesperadamente se dispor do muito e encontrar esse mínimo para ser feliz.
Um motorista que se dispõe do máximo de desprazer que possui ao enfrentar o trânsito estranho da cidade e vê o mínimo de beleza ao seu redor enquanto espera o engarrafamento. O vendedor de quinquilharias deixa pra trás a certeza de que não irá convencer a todos que seus badulaques são bons e sorri para o transeunte que diz a ele: “volto depois”. Tragédia e comédia encenadas em um ato só. Sozinho o vendedor encena toda uma vida. Mas não importa, ele quer só o mínimo. A mulher loira preferiu se dispor do seu cabelo preto e se rendeu ao mínimo de tinta para estar mais adequada aos ditames estéticos. Mas pode ser mínimo aquilo que quase todos fazem igual? O professor deixa os livros em casa e entra em sala certo de que precisa do mínimo de inspiração para criar uma boa aula. Pobre. Diante da mínima interpelação de um aluno que pesquisa ao máximo na internet esquece que iria se esquecer dos clássicos e cita um sem fim de autores para justificar sua ideia primeira de não carregar sob as pestanas toda a história de um lado do globo. Normalmente é o Ocidente. Esse mesmo que criamos e esse mesmo que agora pensa no mínimo.

Enquanto essas personagens tentam encontrar o mínimo, corre um boato pela internet que há um mantra oriental que equilibra as energias. Logo nos valemos da canção/mantra entoado pelo Nando Reis e nos sentimos pesados. Por vezes a relação física é real, estamos mesmo cheios de comidas enlatadas e prontas. Pronto. Lá se vai a tal possibilidade do mínimo. Entregamo-nos ao máximo de culpa possível. A sensação é quase paralisante. O mínimo de locomoção cansaria. Enfim, alcançamos o mínimo. Dormimos. Mas ao dormir ficamos cansados com o excesso de sonhos irrealizados. Talvez de alguma forma seja melhor nem sonhar. São tantas as coisas que nos oferecem para sonhar que ao menor sinal de ir buscar essas coisas uma sensação clara de impossibilidade de realização cai sobre nossos ombros. E como os ombros estão carregados de coisas. Inclusive da curiosidade que alerta para não descuidarmos do jardim vizinho. Lá é bom, não tem peso e só tem o mínimo.

Convém, quem sabe, encontrar na internet um atalho para encontrar esse tal mínimo. Aliás, a internet hoje é um pouco sinal de atalhos. Inclusive, isso é bom para percebemos o quanto estamos, de certa maneira, a conseguir o mínimo. Mínimo de trabalho para encontrar uma informação. E, em consequência, mínimo de tempo perdido com conhecimentos novos, e assim, mínimo de profundidade, máximo de superfície, mínimo de lucidez, máximo de conhecimento falso, mínimo de alcance teórico e crítico, máximo de massificação, mínimo de homem. Sinal dos tempos. Tempos de mínimo e de atalhos. Até encontramos um atalho para o mínimo. Aí ele vem junto com uma satisfação tão real quanto o tempo que dura uma relação sexual sem amor. Inversamente proporcional ao gozo que antecede, sucede e concebe o amor com amor. Liquidez, diriam uns, fugacidade diriam outros. Correria, diriam aqueles com senso mais prático. Esses últimos bem adequados com a relativização dos termos máximo e mínimo. Máximo quando tem que ser máximo. Mínimo quando também convém que assim seja. E mais uma vez a ciranda volta girar. E imagine se ainda “os tubarões fossem homens.” Nem quero pesar.

De grão em grão enchemos nosso papo com esse papo de máximo e de mínimo. Ditos que nem importam tanto assim. Pois a coisa hoje está mais simples do que nunca. Como já dito, máximo quando solicitarem, mínimo, da mesma forma. O que são? Não importa. É filosofia demais. E filosofia hoje só a de buteco mesmo. Pois lá é que as pessoas gostam de criar teorias como as do máximo e a do mínimo. Tem uma solução mágica para o amor e outra para a política. O melhor time escalado de pronto e o máximo de certeza. Vivemos tempos de certezas. Discutir gera desavenças, e isso não é bom para o network. Não dá mesmo pra saber qual o mínimo e qual o máximo. Não dá pra perceber ao certo se estão certos o motorista que vê o máximo de beleza na flor que ele passou por cima com o ônibus, ou mesmo a loira que não é loira e não é ninguém além da próxima cor do cabelo. Tem também o vendedor de badulaques que ri de sua vida e que enxerga no mínimo de farsa do transeunte que não irá voltar, seu máximo de felicidade. E ainda o professor que se esquece que não levou os livros e comenta todos os que leu para convencer o aluno.

Motorista, vendedor, mulher loira e professor. Todos envolvidos na busca pelo seu mínimo. Uma busca falsa que causa uma preguiça imensa. Proporcional a buscar o meu mínimo. Isso porque o motorista está extenuado com sua profissão, o vendedor irá pedir trocados para interar seu prato, a mulher loira irá tentar encontrar um companheiro que a realize já que ela não pode sem uma tinta, e o professor, que irá voltar para sua casa e se entregar a mais estudos. Deve ser também sinal dos tempos mentir para parecer adaptado. Deve ser um sinal dos tempos perceber como somos irritantes e iguais. Admiramos o jardim do vizinho, gastamos o máximo de dinheiro para comprar o mínimo, não estamos contentes com nossa situação, mas insistimos em dizer que não temos preguiça e que o melhor não é ficar debaixo do cobertor, com o máximo de preguiça e o máximo de samba, quiçá com o máximo de amor até mais tarde...

Bernardo G.B. Nogueira
Belo Horizonte – inverno. 

quinta-feira, 9 de junho de 2011

O existencialismo de “O velho e o moço”

Não é objetivo, nestas poucas palavras, transpor os conceitos filosóficos acerca do existencialismo – o que já se mostraria tarefa impossível! -, este ensaio, pretende, quando muito, fazer pequenas aproximações – filosóficas talvez(?) –, ao pensamento exposto na canção composta por Rodrigo Amarante nominada “O Velho e o Moço”.

A letra desta canção suscitou uma relação – que não foi buscada por uma interpretação em acordo com a vontade do compositor –, com o pensamento existencialista do tipo sartreano - “o homem não é mais do que o que ele faz” -, dado o caráter com que o autor marca a responsabilidade do indivíduo pela sua trajetória, em que, ao questionar-se sobre a possibilidade de um retorno ao passado já vivido, surge a questão intransigente do viver: quem eu seria(?), ou em melhores palavras, quem eu me tornaria se pudesse regressar ao passado?

Assim, se de alguma forma nos possibilitássemos o retorno ao passado, será que esse retorno seria possível a qual indivíduo precisamente:

I – Este sujeito presente, que questiona sobre a possibilidade de voltar a seu passado? II – Aquele que existiu no momento passado? III - Aquele que queríamos que fôssemos, mesmo que idealmente? IV – Aquele que pensamos que seríamos aquando daquele momento passado? V – Mas, se necessariamente e na verdade, não existimos, mas sim, co-existimos: como retornar ao nosso passado sem que os nossos convivas também regressassem? Seria mesmo assim, um retorno autêntico, aquele que não leva junto os outros? VI – E ainda, se consideramos a nossa existência temporal irrepetível: como admitir a idéia de um encontro com o mesmo passado? VII – Se estamos a fazer uma viagem de retorno ao passado, esta viagem não traria peculiaridades antes não vividas e assim, mudando mais uma vez aquele passado que pretendíamos alcançar...? Ora, como diria Carlos Cossio: “todo retorno em direção à etapa precedente aumenta o conhecimento por compreensão, levando-o mais adiante...”, ou ainda: “everything old is new again”.

As questões são imensas, e necessariamente o conhecimento de si passa pelo re-conhecimento do/no outro, portanto, as vivências que nos constituem estão a constituir os outros com quem partilhamos o mundo, nestes termos, seria no mínimo arrogante, requerer para si a possibilidade de um retorno para o “conserto” de questões intimamente consideradas erradas, ora, qual a garantia de que seu tropeço não ergueu outrem?

Podemos pensar a questão sob outro prisma: é do saber popular que “tudo tem um lado bom”, ou não é assim que ouvimos nos aconselharem? Se sim, qual o grau de precisão que um indivíduo possui, em sua subjetividade, para mensurar acerca dos erros e acertos de suas escolhas existenciais?

Jean Paul Sartre diz-nos de uma formação do homem a partir de sua existência, o que Heidegger chamaria de “ser-em”, ou seja, apenas a partir da existência com o outro é que nos permitiríamos ao existir mesmo. Nesse sentido, se na verdade não somos um infinitivo, mas sim, um gerúndio em nossa existência: qual a possibilidade de marcarmos os erros e acertos, ora, para que possamos adjetivar uma vida como correta, evidentemente que pelos erros passamos, mesmo que com a ilusão de não cometê-los.

O errar, portanto, torna-se um “existencial” necessário e peculiar ao ser humano, que por sua finitude no existir, necessita desse limite para reconhecer seus triunfos...ou como diria Paulo Freire, o errar é «um momento normal do processo gnosiológico»...

Lembremos rapidamente um diálogo do filme épico “Troia”, em que o guerreiro Aquiles fala acerca dos deuses em relação aos homens: “Os deuses nos invejam, porque somos mortais. A qualquer instante pode ser o nosso último momento”. Essa fala explicita com precisão o que estamos a tratar, ora, a falibilidade e finitude humanas são características que nos permitem existir enquanto tal... Assim, a idéia da possibilidade de um retorno nos colocaria como deuses, infalíveis e passíveis de controle sobre o futuro... que, quando muito, a nosso ver, deve ser entendido como projeto, assim como o homem o é, projeto seu que a cada escolha determina seu existir...

Assim acordados, esta canção parece enfatizar exatamente a necessária relação do homem com seu presente, que é um projetar-se para o futuro com influência de seu passado. De fato, o ser humano, a despeito das teoria lunáticas de “auto ajuda”, é um ser mais complexo do que aquele que deve apenas se ater ao seu presente; parece-nos que a grandiloquência do existir humano comporta todos os tempos verbais. Ora, para que não precisemos retornar ao impossível do passado, dediquemo-nos à construção do nosso projeto autêntico de existência, que perpetuar-se-á pelo futuro a que estamos lançados...pois, “o homem [...] está condenado a cada instante a inventar o homem”

Portanto, se almejarmos uma volta ao passado, esquecemos mesmo do presente e nem nos damos conta do futuro – retirando nossa possibilidade do novo, do único, do espanto, do amor inesperado, ou seja, nossa possibilidade de ser humano -, daí escutarmos esta questão multi-tempotal: “mas eu quem será?” e “quem então agora eu seria?”

Talvez o Chico Buarque, o Sivuca e as crianças resolvam mais este nosso problema com o tempo e com o nosso modus vivendi: “Agora eu «era» «herói»...”

Bernardo G.B. Nogueira - Itabirito - 23/02/2010

http://www.youtube.com/watch?v=RJfr7GUW52w

"O velho e o moço"

Composição : Rodrigo Amarante

Deixo tudo assim
Não me importo em ver a idade em mim,
Ouço o que convém
Eu gosto é do gasto.

Sei do incômodo e ela tem razão
Quando vem dizer, que eu preciso sim
De todo o cuidado

E se eu fosse o primeiro a voltar
Pra mudar o que eu fiz,
Quem então agora eu seria?

Ahh, tanto faz
Que o que não foi não é
Eu sei que ainda vou voltar...
Mas eu quem será?

Deixo tudo assim,
Não me acanho em ver
Vaidade em mim
Eu digo o que condiz.
Eu gosto é do estrago.

Sei do escândalo
E eles têm razão
Quando vêm dizer
Que eu não sei medir
Nem tempo e nem medo

E se eu for
O primeiro a prever
E poder desistir
Do que for dar errado?

Ahhh
Ora, se não sou eu
Quem mais vai decidir
O que é bom pra mim?
Dispenso a previsão!

Ah, se o que eu sou
É também o que eu escolhi ser
Aceito a condição

Vou levando assim
Que o acaso é amigo
Do meu coração
Quando fala comigo,
Quando eu sei ouvir...